Sobre o aparente recuo dos sites de desinformação, referido pela equipa Décodex do mesmo jornal, admite que pode estar em curso “uma forma de aprendizagem colectiva”: 

“Os internautas apercebem-se de que, nas redes sociais, não se limitam a ler e a ver. Quando se ‘posta’ um like, emite-se um sinal que vai ter efeito sobre os algoritmos das plataformas. Temos todos, então, uma co-responsabilidade partilhada no modo como nos relacionamos com a informação.” (...) 

Sobre a responsabilidade das redes sociais na amplificação da desinformação, Dominique Cardon reconhece que “as escolhas económicas das plataformas produziram uma arquitectura que encorajava isso”: 

“Na sua origem o Facebook era uma rede social concentrada sobre o que se chama ‘os laços fortes’, as nossas interacções com as pessoas de quem somos mais próximos. O problema é que, quando a utilização é verdadeiramente social, é difícil de rentabilizar.” (...) 

“Foi para ganhar dinheiro que o Facebook chamou outros elementos ao fluxo de actualidade: informações, imagens, vídeos... até chegar às falsas informações. Isso muda a postura do internauta, que já não está envolvido, apenas lê.” 

“Com esta metamorfose, o Facebook tinha-se tornado muito menos uma plataforma de sociabilidade do que um interface de leitura. O elemento social deslocou-se para WhatsApp, Snapchat, Instagram ou até Messenger. A mudança no algoritmo, anunciada no princípio do ano, reverte em parte esta evolução, procurando voltar a dar importância aos amigos próximos.” 

Outra questão posta na entrevista foi a de saber até que ponto os media tradicionais não estavam em risco de ser ultrapassados por estes novos órgãos. Dominique Cardon responde: 

“Não creio. É um velho mito da Internet anunciar o fim do jornalismo. A autêntica informação custa caro a produzir e é preciso ser profissional para fazê-la. Pelo outro lado, temos hoje uma proximidade entre informação, divertimento e [o social  - people, no original]. É a transformação do infotainment, que começou nos anos 80: a ideia de alguns media foi de irem procurar leitores nos temas populares. A crise económica da Imprensa também teve efeito, levando alguns a irem mais longe nessa direcção. E neste domínio, com a Internet, pode-se apanhar e partilhar tudo e qualquer coisa.” 

O entrevistado refere-se ainda a “um deslizamento do espaço político e cultural, que faz com que hoje um certo número de discursos provocatórios tenham espaço considerável nos media” e adverte para a responsabilidade profissional dos jornalistas, no sentido de não consentirem que os meios de comunicação se tornem os veículos de passagem desses discursos duvidosos. (...) 

Lamenta, a concluir, que o fact-checking interesse apenas reduzidas franjas do público, e não tenha efeito sobre toda a gente.

 

A entrevista aqui citada, na íntegra, em Le Monde