A função da entrevista é sempre a de transmitir ao público a palavra do entrevistado, partindo do princípio de que esta tem importância e valor informativo. Mas o bom resultado desta diligência depende sempre da relação que se estabelece entre o entrevistado e o jornalista que põe as questões. 

O artigo que citamos  - de Julien Salingue, doutorado em Ciências Políticas e co-animador do Acrimed -  fala então de entrevistas de “geometria variável”, em que o entrevistador pode ser “omipresente” ou “ausente”, por exemplo; ou pode tornar-se “duro com os fracos” e “fraco com os poderosos”; ou pode, ainda, assumir uma exibição “protagonista” que o torna mais importante do que o entrevistado e o que este tem a dizer: 

“Os entrevistadores tornaram-se, a pouco e pouco, autênticas vedetas que os grandes media disputam a preço de ouro no mercado das transferências, trocando a sua identidade editorial pela valorização como jornalistas-marca, e abolindo, entre outras, as fronteiras entre os media privados e o serviço público de Informação.” 

O autor identifica três problemas principais:

  1. - Que o equilíbrio entre ausência e omnipresença é raro, “pelo menos junto dos entrevistadores ‘vedetas’ dos grandes media, e que o indicador tende a deslocar-se mais em função do estatuto do entrevistado do que da personalidade do entrevistador”.
  2. – Que, por efeito da concorrência, os grandes media tendem a dar as grandes entrevistas à mesma hora, muitas vezes sucedendo-se no mesmo entrevistado, e aí é a personalidade do entrevistador, o seu “estilo” ou “popularidade”, que se tornam “argumentos de venda” em detrimento do conteúdo informativo.
  3. – Que, em consequência destes dois primeiros problemas citados, muitos entrevistadores acabam por se comportar como editorialistas, contribuindo para a ambiguidade do seu próprio papel, fazendo perguntas de uma falsa neutralidade e contribuindo para reproduzir clichés ou ideias dominantes.

 

O artigo de Julien Salingue, na íntegra, no site Acrimed