Já não temos connosco Albert Londres para nos comunicar o sentido exacto da frase que usou  - e que continua a ser enigmática -  mas admitamos que pode significar, em parte, “pôr o dedo na ferida”, ou, por extensão de sentido, “escrever sobre o sofrimento”. 

A presidente do júri, Annick Cojean, explicou o motivo da escolha de Istambul [a partir de 2002, o Prémio passou a ser entregue noutras cidades que não só Paris, ou não só em França, e em 2005 já tinha sido, também, na capital da Turquia]. 

“O nosso trabalho é descrever, informar, criticar. Voltar a entregar este prémio prestigioso neste país, em que os jornalistas são considerados inimigos, é tão simbólico como político. Queremos afirmar toda a nossa solidariedade para com os jornalistas turcos. Estamos com eles, e não apenas durante o tempo desta cerimónia. Perante estes ataques, a solidariedade entre os jornalistas é fundamental. Fazemos o mesmo trabalho de paixão e de compromisso. E somos visceralmente apegados à defesa da liberdade de informar e de criticar. Não deixaremos isso.” 

A notícia que citamos, de L’Obs, diz que, se fosse umas semanas mais cedo, a cerimónia podia também ter sido realizada na sede do jornal Cumhuriyet, porque o Prémio Albert Londres “é tradicionalmente acolhido, para as suas deliberações no estrangeiro, por um grande meio de comunicação independente, como a BBC em Londres ou a Radio Canada em Montréal”. 

“Desde 2016, os jornalistas deste grande diário de oposição, laico e progressista, tentam resistir aos ataques do regime. Depois do exílio forçado, na Alemanha, do seu chefe de redacção Can Dündar  - que tinha revelado entregas de armas do regime a grupos rebeldes islamistas na Síria -  (condenado à revelia), três famosos jornalistas (Ahmet Altan, Mehemet Altan e Nazli Ilicak) foram condenados, a 16 de Fevereiro, a prisão perpétua, sem amnistia.” (...) 

“Segundo Erol Önderoglu, o representante turco dos Repórteres sem Fronteiras, que esteve detido durante dez dias em 2016, a repressão sobre os media atingiu o cúmulo.” 

“Quando soubémos que os jornalistas do Cumhuriyet tinham sido condenados a prisão perpétua, ficámos estupefactos.” (...) 

“Actualmente, 98% dos media turcos são próximos do poder. Perante a desinformação, e apesar da repressão, alguns jornalistas tentam ainda prosseguir a sua busca de uma informação independente. É o caso de Medyascope, uma televisão digital lançada em 2015 pelo jornalista Rusen Çakir, contemplado com o Prémio RSF–TV5Monde pela liberdade de Imprensa, em 2017, a que compareceram os jornalistas agora laureados com o Prémio Albert Londres e membros do júri.” (...)

 

Mais informação em L’Obs  e o documentário Os homens do ditador