Os receios sobre a “infodemia” podem ter sido exagerados
Desde os primeiros dias da pandemia de Covid-19, há uma preocupação generalizada sobre a qualidade das informações em relação ao vírus. “As teorias da conspiração são abundantes desde a Primavera de 2020 e, apesar dos apelos do secretário-geral da ONU e da OMS, entre outros, as informações sobre a pandemia em geral e as vacinas em particular continuam a assemelhar-se a um campo minado” afirmam Mark Coddington e Nick Mathews no artigo publicado na NiemanLab da Nieman Foundation.
No entanto, os autores consideram que “a disponibilidade de informações inúteis por si só não faz uma “infodemia”. Existem outros passos que influenciaram a baixa qualidade, nem sempre assumida nem empiricamente testada”. E questionam: “até que ponto as pessoas estão a consumir essas informações inúteis em comparação com notícias de alta qualidade? Até que ponto as pessoas estão a ser enclausuradas em câmaras de eco, reafirmando as crenças existentes da Covid-19? Qual é a influência que essa informação tem no apoio aos esforços de mitigação da pandemia?”
Segundo os autores, começam a aparecer alguns dados sólidos para possíveis respostas a essas perguntas. Citam como primeiro exemplo, o estudo dos investigadores do Reuters Institute, Sacha Altay Rasmus Kleis Nielsen e Richard Fletcher, publicado no Journal of Quantitative Description: Digital Media que procurou quantificar a participação no tráfego web canalizado para sites de notícias não confiáveis versus para confiáveis nos primeiros dias da pandemia.
Os investigadores, rastrearam o tráfego da Web e o envolvimento do Facebook nos EUA, Reino Unido, Alemanha e França, antes e depois do início da pandemia, e descobriram que uma proporção cada vez menor do tráfego foi para sites não confiáveis (conforme classificado pelo NewsGuard).
Esses sites não confiáveis atraíram muito maior acolhimento no Facebook, embora dominados por fontes confiáveis. O envolvimento no Facebook e o tráfego para sites de notícias aumentaram cerca de um quarto de 2019 a 2020, com a maior parte desse aumento a ir para sites confiáveis, em vez de não confiáveis.
Segundo a pesquisa, o alcance de informações não confiáveis foi significativamente maior nos EUA e na França do que no Reino Unido e na Alemanha.
Outubro 22
Um segundo estudo, realizado por uma equipa de 19 investigadores internacionais, liderada por Alon Zoizner, é referido por Coddington e Matheus, que analisa o consumo de informações da Covid-19.
Zoizner e os seus colegas partiram do princípio que “a incerteza produzida por uma crise como a pandemia levaria a uma necessidade mais aguda de informações úteis, o que aumentaria o consumo noticioso contrário a certo tipo de visão política.
Os resultados do estudo confirmaram esse raciocínio: o consumo de informações com ideias semelhantes e transversais aumentou após a pandemia, especialmente para aqueles entre os quais a preocupação com a pandemia era maior”.
Os investigadores concluíram ainda que “a conexão entre a preocupação com a pandemia e o consumo transversal de informações foi maior em países onde a Covid foi mais severa, onde a resposta do governo foi mais permissiva e onde as instituições democráticas foram mais fracas”. O que revelou que, “quando a necessidade de informações de qualidade era realmente maior, as pessoas estavam mais dispostas a ir além das fontes que tradicionalmente lhes eram mais próximas”.
Os autores continuam a citar estudos realizados, num exercício de reflexão sobre a influência que as fontes de informação tiveram no nível de apoio às políticas de mitigação da pandemia provocada pela Covid-19.
Mark Coddington e Nick Mathews, chegaram à conclusão que o conjunto de estudos produziu umA série de “dados sólidos” sobre o consumo de informação nos primeiros dias da pandemia, que evidenciam uma imagem menos sombria.
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