O Observatório francês da Deontologia da Informação cita também as declarações de Jean-Luc Mélenchon, o dirigente de La France Insoumise, quando classificou como “justo e saudável” o “ódio aos media e aos que os animam”  - a propósito dos jornalistas de FranceInfo, que investigavam o seu partido, classificando-os como “brutos” e “mentirosos”. 

São também destacadas as pressões exercidas por alguns dos gilets jaunes, das “intimidações e agressões” durante as manifestações até às tentativas de “influenciar os conteúdos redactoriais ou de “impedir a saída de jornais diários” em várias regiões. 

Segundo Le Monde, que aqui citamos, o ODI não desculpabiliza os media, que “levam por vezes algum tempo a dar conta das causas e do sentido deste movimento social”;  e recorda que é seu dever “observar, relatar e analisar o conjunto da sociedade, e não somente o que passa pelos filtros das élites e dos poderes”. 

O Observatório recorda também, por exemplo, as tensões entre determinados grupos desportivos e os media, como sucedeu com o Paris Saint-Germain e o jornal L’Equipe, cujos profissionais foram banidos de uma conferência de Imprensa porque o clube estava descontente com determinados artigos publicados a seu respeito. 

O ODI aproveita a publicação do presente relatório para defender, mais uma vez, a criação, em França, de um Conselho de Deontologia da Imprensa, que poderia lutar contra este tipo de pressões e interferências e funcionar como mediador “sempre que o público tenha o sentimento de que a deontologia do jornalismo não foi respeitada”. 

A introdução do relatório faz também uma breve compilação dos títulos e datas dos documentos fundadores da liberdade de expressão, como foram herdados pelas democracias modernas: o Bill of Rights, do Parlamento de Inglaterra, em 1689;  a Déclaration des Droits de l’Homme et du Citoyen, da Revolução Francesa, em 1789;  a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, em 1791;  a Lei de 29 de Julho de 1881, que consagra a liberdade de Imprensa em França. E, mais recentemente, a Convenção Europeia dos Direitos do Homem, assinada em Roma em Novembro de 1950. 

Em tempo de fake news, é especialmente oportuna a reflexão contida no capítulo intitulado “Exactidão e veracidade”, entre as páginas 11 e 16 do relatório. Como se diz no seu início, “a falta de exactidão e de verificação é uma das causas das polémicas instantâneas que animam a vida pública e as redes sociais, e atrapalham a informação”. 

São dados vários exemplos ocorridos em França durante o ano de 2018, em que meios de informação publicam informações de que vêm a retractar-se mais tarde, reconhecendo inexactidões involuntárias. 

“A máquina de polémicas tem necessidade de ‘casos’, que alimentam os debates online e os painéis na televisão. Alguns nascem de mentiras que os jornalistas nem sempre desmontam.” (...) 

Falta de verificação, precipitação, erro devido à rapidez do trabalho, são causas frequentes. As questões científicas, por exemplo, são muitas vezes objecto de resumos arriscados ou afirmações sem fundamento. “As explicações de dossiers complexos escolhem por vezes, num feixe de factos, os mais simples e espectaculares.” (...) 

Os números  - e então nas manifestações -  nem sempre são calculados do mesmo modo por diferentes órgãos de informação.

“Rectificar e reconhecer os seus erros é uma regra deontológica de base. Apoiar os seus comentários ou editoriais sobre factos estabelecidos também é.”  (...)

 

 

O artigo de Le Monde, aqui citado, e o texto do Relatório