Segundo o autor, até agora a crítima dos media consistia em identificar erros, como falta de equilíbrio na escolha das fontes, erros factuais, de números e identificação de personagens, omissões, tendenciosismo e outros. Mas é possível, “e cada vez mais frequente, produzir um noticiário fiel aos preceitos dos manuais de redacção e mesmo assim a informação publicada ser distorcida e enviesada, induzindo o público a percepções e atitudes igualmente equivocadas e sem base real”. (...) 

Carlos Castilho parte da diferenciação entre uma avaliação dicotómica, que “é objectiva e concreta”, e uma avaliação sistémica, “subjectiva e geralmente abstracta”. 

“A dicotómica é mais fácil de desenvolver porque usa instrumentos e procedimentos que conhecemos bem, enquanto a avaliação sistémica emprega ferramentas complexas e multidisciplinares, que exigem mais conhecimento.” (...) 

O autor cita a metáfora do copo meio cheio ou meio vazio para explicar o que propõe: 

“Na fase dicotómica, nós vemos apenas se o copo está cheio ou não. Quando passamos à abordagem sistémica, tanto a percepção como meio cheio ou a percepção copo meio vazio são relevantes porque respondem a formas diferentes de ver o copo e a água.” 

“Não esqueçamos que o jornalismo é uma representação da realidade produzida por profissionais, assim é inevitável que qualquer notícia incorpore, em graus variáveis, parte da visão de mundo do repórter, fotógrafo, cinegrafista ou editor.” (...) 

“Todas as notícias têm causas, consequências, prejudicados e beneficiados, logo qualificá-la como boa ou má, animadora ou pessimista, interessante ou chata, não fornece todos os elementos que o público precisa para tomar decisões.” 

“E nós, como críticos dos media, temos a obrigação de apontar os elementos ausentes numa notícia para ajudar o leitor a entender melhor o mundo, e com isto ganharmos credibilidade pública.” (...) 

Carlos Castilho sublinha, a concluir, as implicações da “quantidade e velocidade com que as informações circulam”: 

“Assim, o fluxo de notícias passou a ser, também, um elemento crucial na observação crítica dos media, porque estamos sujeitos a um processo acumulativo de percepção de novos factos, dados e eventos. O volume e a intensidade da transmissão de informações tornou-se um factor tão, ou até mais, determinante que o conteúdo desta mesma informação no condicionamento da atenção do público.” 

“Este processo acumulativo é hoje o objectivo central dos estrategistas das grandes corporações da Imprensa, razão pela qual a observação crítica dos media passou a preocupar-se com a desconstrução do fluxo de notícias, além da análise de cada uma delas.” (...)

 

O texto aqui citado, na íntegra no Observatório da Imprensa