Ética e condições de trabalho dominaram Congresso dos Jornalistas
As doze medidas da resolução final identificam os pontos negativos dessas condições de trabalho como sendo a “dimensão reduzida das redacções com os despedimentos, precariedade, baixos salários e falta de tempo”, afirmando que “a legislação laboral tem de ser cumprida em Portugal no sector do jornalismo, sendo urgente uma acção rápida e eficaz da Autoridade para as Condições de Trabalho para acabar com os falsos estágios, os falsos recibos verdes e os falsos contratos de prestação de serviço”.
No debate de encerramento, com os representantes dos accionistas dos media, Francisco Pinto Balsemão, presidente da Impresa, declarou que “é fundamental que exista independência editorial, mas para isso é preciso lutar pela independência empresarial.”
No mesmo sentido se pronunciou Daniel Proença de Carvalho, presidente da Global Media, que aqui citamos do Público: “Não tenhamos ilusões, só com empresas sólidas” é que possível ter jornalismo de qualidade e “isso implica que haja mais capital para as empresas”, adiantando que além disso é preciso haver redução de custos, implicando também a “procura de novas receitas”.
A resolução final do Congresso insiste em que “os jornalistas têm de ter maior peso e presença nas entidades reguladoras; é necessário iniciar um processo de revisão legislativa que torne essas entidades mais eficazes e mais participadas pelos jornalistas”, e que “os princípios éticos e deontológicos têm de ser reforçados, têm de abranger todos os jornalistas e têm de ser aplicados com eficácia”.
No último destes doze pontos, os jornalistas reunidos em Congresso “assumem o compromisso de cumprir os deveres e as responsabilidades decorrentes dos princípios ético-deontológicos do jornalismo e das melhores práticas do exercício e regulação da profissão”.
Citando ainda o Público, “as medidas foram votadas uma a uma e geraram debates acesos”, o mesmo sucedendo no debate das propostas:
“Ironicamente, foi esse mesmo tempo que muitos congressistas invocaram estar a faltar para discutir as propostas antes de as aprovar. Os ânimos acenderam-se e chegou a colocar-se a hipótese de adiar consensos, mas alguns lembraram que é tempo de agir pelos problemas da profissão e as votações acabaram por demorar menos tempo do que o debate sobre como deveriam decorrer.”
Entre outras propostas - e citando agora o Expresso - “foram ainda aprovadas medidas tendentes à discussão sobre a criação de uma estrutura deontológica independente, uma recomendação para a separação clara de conteúdos patrocinados de peças editoriais (com sanções para quando tal não aconteça), uma proposta para que a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista seja presidida por um jornalista ou a eventual criação de uma tabela com limites salariais mínimos”.
Vários intervenientes tiveram ainda palavras duras para a insensibilidade e falta de profissionalismo com que se fazem muitos “directos” em várias estações de televisão. Salientou-se neste ponto, sendo muito aplaudida, a comunicação de José Pedro Castanheira, lida por Adelino Gomes, por impedimento do autor, por motivos de saúde.
José Pedro Castanheira descreve, com ilustração de dois pequenos vídeos televisivos, filmados à entrada da prisão onde se encontrava detido José Sócrates, o momento em que Mário Soares, já visivelmente debilitado, e cercado por microfones e câmaras por todos os lados, acaba a pedir a um dos insistentes repórteres: “O senhor não me mace.”
No registo de opinião, o editorial “O jornalismo não vive uma crise”, do director do Público, David Dinis, que contesta a afirmação da "pior crise de sempre" dos jornalistas:
“Hoje, temos mais pessoas a ler-nos do que alguma vez imaginámos; hoje temos muitas formas de apresentar a informação; hoje temos uma proximidade enorme do leitor - mesmo com quem esteja mais longe do que antes; e hoje conseguimos, como nunca, perceber o que ele nos pede, o que precisa de saber e até onde quis ler cada um dos nossos textos.”
Mais informação no Público e no Expresso, e a Resolução Final no site do 4º Congresso. A imagem, de Marcos Borga, é da redacção multimédia formada por estudantes de Jornalismo, publicada no Expresso