O artigo de Le Monde, que aqui citamos, começa pelo exemplo banal de um bloco de publicidade sobre automóveis, viagens, relógios e sapatos, no Santeplusmag.com, muito popular nas redes sociais, com 7,6 milhões de assinantes no Facebook, “mas que é também conhecido por retransmitir um número significativo de falsas informações e artigos sensacionalistas”. Podem ser lá encontradas afirmações fantasiosas, como que “a mistura de bicarbonato de soda com mel pode mudar para sempre a sua vida”. 

“As ligações publicitárias são [eram] propostas aos leitores deste site por Ligatus, uma empresa especializada na venda de anúncios, que colabora com numerosos media (incluindo Le Monde). Concretamente, as empresas pagam para aparecerem nos sites parceiros da Ligatus, e esta última partilha depois as receitas com os media referidos.”

Como foi dito acima, Ligatus e Taboola cortaram esta colaboração, por entenderem que o conteúdo daquele site não era conforme à sua carta de procedimento. Le Monde acrescenta, mais adiante, que a empresa Taboola já tinha tomado posição pública, em 2016, sobre o tema desinformação, tendo adoptado uma política de conteúdos que “interdita as publicações de ódio, as injúrias e as informações enganosas”. 

Uma das explicações da situação actual tem a ver com a mutação do mercado publicitário online

“O modelo herdado da Imprensa escrita consistia em comprar espaços publicitários nos media especializados, sendo os anunciantes a fazer, de certo modo, o seu mercado, em função do tipo de público a que desejam chegar. Este modelo acabou, e a grande fatia do bolo passa agora por aquilo a que se chama a ‘publicidade programática’: já não se compra uma página num jornal, mas a visibilidade junto de um determinado tipo de público.” 

Entra aqui a escolha precisa do público-alvo, em função dos perfis conhecidos, e a distribuição exacta dos anúncios é arbitrada por algoritmos, segundo um sistema de leilão. 

“Este novo mercado publicitário muda completamente a distribuição das cartas. O anunciante já não vai bater à porta dos media, mas sim de empresas publicitárias especializadas, cujos anúncios podem ser despachados para centenas de sites diferentes.” (...) 

À data do estudo feito pela equipa de Le Monde, 11 de Outubro, as mensagens publicitárias vindas da Google AdSense apareciam nas páginas de 24 dos 40 sites pouco fiáveis que tinham referenciado, e as provenientes da Taboola em 12 deles.
“Trata-se aqui tanto de sites sensacionalistas, como Sante-nutrition.org ou Topastuces.net, como de antenas de propaganda da extrema-direita, como Dreuz.info e Europe-israel.org.” (...)

“Se os sites de desinformação têm tão pouca dificuldade em ligar-se a um ou outro dos circuitos publicitários, apesar [das denúncias], é porque a triagem só é frequentemente feita a jusante, isto é, quando um site que já é membro da rede é apanhado com a mão no saco. Por outro lado, os actores do mercado são muito mais reticentes em intervir a montante  - o que significa antes de ligarem um site à sua plataforma.” (...) 

Finalmente, há uma reacção a este problema, vinda do público. “Estão a aparecer iniciativas de cidadãos, sendo mais emblemática, entre elas, o colectivo anónimo Sleeping Giants (os gigantes adormecidos), que visa fazer pressão sobre as empresas cujos anúncios aparecem em sites de propaganda, ou de ódio. Por exemplo, a sua antena francesa interpela regularmente, no Twitter, as marcas que aparecem no site de extrema-direita Boulevard Voltaire.” (...) 

Segundo Le Monde, as campanhas deste tipo, por nomearem os actores envolvidos, “rompem com o silêncio e a hipocrisia que duram há anos, permitindo aos sites duvidosos financiarem [a sua operação] com toda a tranquilidade”. (...) 


O artigo aqui citado, na íntegra em Le Monde