A guerra na Ucrânia alterou as regras da indústria jornalística
A guerra da Ucrânia veio dar um novo impulso aos “media”, uma vez que a população tem demonstrado um grande interesse em manter-se informada quanto ao desenvolvimento do conflito armado, procurando fazê-lo através da imprensa de confiança.
No entanto, perante este cenário, já foram registadas, na indústria jornalística, várias consequências nefastas, quer para os profissionais dos “media”, quer para a liberdade de imprensa e para a pluralidade informativa, considerou Pilar Bernal num artigo publicado nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.
Conforme apontou a autora, com o início da guerra, vários jornalistas deslocaram-se para o local de conflito, com o objectivo de acompanhar os acontecimentos em primeira mão, quer através de relatos, quer através de imagens.
Isto resultou numa grande afluência de audiências, até porque, como indicam os manuais de jornalismo: “a guerra vende”.
Este fenómeno, continuou a autora, dá-se porque os conflitos armados vão ao encontro de todos aos principais “valores-notícia”: "informação que pode nascer longe, mas que tem consequências imediatas (...), que não pára nas fronteiras, que acontece num só lugar, embora tenha a sua origem numa outra parte do mundo”.
Além disso, começaram a surgir novos papéis profissionais, que chegaram ao jornalismo de guerra para reinventar a forma de explicar o confronto. Agora, as redacções contam, por exemplo, com analistas de dados, que facilitam as narrativas, e permitem um acompanhamento contínuo e rigoroso dos desenvolvimentos.
Surgiram, igualmente, ferramentas inovadoras, tais como o Be Witness, desenvolvido pela RTVE Lab, que permite analisar as evidências de crimes de guerra.
Perante este novo contexto, aliado à rápida digitalização dos “media”, os jornalistas têm vindo a contar histórias de forma inovadora, e até futurista, experimentando novos métodos narrativos, e oferecendo um vislumbre daquilo que será a indústria noticiosa dos próximos anos.
Julho 22
Contudo, há que ter em conta o outro lado da moeda: as vidas, os valores, e os direitos perdidos desde 24 de Fevereiro.
Bernal começa por recordar que, desde o início do conflito, assistiu-se, na Rússia, a uma deterioração da liberdade de imprensa, num país onde já existia um número muito limitado de jornais independentes.
Como tal, a maioria dos cidadãos russos passou a viver numa redoma, onde toda a informação é filtrada pelo Kremlin, e onde se promove uma realidade paralela, sem se poder discutir, abertamente, aquilo que se passa na Ucrânia.
Além disso, desde o início do conflito vários jornalistas foram assassinados. Os outros profissionais, que conseguiram sobreviver ao conflito, sofreram outro tipo de consequências, que se manifestam na deterioração da sua saúde física e mental.
Outra das questões prementes, considerou a autora, é a falta de apoios oferecidos aos jornalistas, com muitos dos profissionais a terem dificuldades no acesso a materiais de protecção, ou a receberem uma remuneração baixa, insuficiente para cobrir as suas necessidades profissionais e pessoais.
Contudo, esta ausência de ajuda por parte das empresas jornalísticas afecta, não só, os correspondentes, mas, igualmente o público. Isto porque, um profissional sem meios adequados, é um profissional que não desempenha as suas funções, e que não responde às necessidades informativas das audiências.
Por isso mesmo, Bernal considera que, para que continue haver informação de qualidade, o trabalho jornalístico deve ser, devidamente, valorizado.
Como tal, a autora deixa o lembrete: “um jornalista protegido é aquele que garante a independência e a honestidade informativa”.
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