As notas de uma repórter brasileira sobre a violência digital
A jornalista Patrícia Campos Mello, repórter especial do “Folha de São Paulo”, foi galardoada com o prémio Maria Moors Cabot, da Faculdade de Jornalismo da Universidade Columbia.
A profissional conta com mais de 16 anos de carreira, durante os quais foi correspondente de guerra no Afeganistão e cobriu a epidemia de ébola na Serra Leoa.
Mais recentemente, Mello publicou um livro sobre o “discurso de ódio”, na internet, contra jornalistas, “A Máquina do Ódio: Notas de uma repórter sobre fake news e violência digital”.
Em entrevista para o “Observatório da Imprensa” -- associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria -- Mello falou sobre as suas principais influências e sobre o que a levou a publicar mais um livro.
Em 2018, Mello foi alvo de uma “onda” de ataques “online”. Em causa estava uma reportagem sobre a campanha presidencial de Bolsonaro, que estava a divulgar informações falsas sobre o Partido Trabalhista, via Whatsapp.
De acordo com a jornalista, a ideia do livro é, então, mostrar como as campanhas de desinformação corroem a democracia em países como os Estados Unidos, a Índia e o Brasil. Essas estratégias de comunicação são parte essencial dos chamados governos “tecnopopulistas” sendo, por isso, necessário responsabilizar as pessoas que patrocinam essas redes profissionais de “fake news”.
Julho 20
Segundo Mello, estas acções de desinformação são prejudiciais para o jornalismo, porque deslegitimam a imprensa crítica, e os repórteres. Assim, é importante que os profissionais não interajam com os ataques, para não “alimentarem o troll”.
Por outro lado, a jornalista considera que estes ataques têm, muitas vezes, um cariz machista. “Uma boa maneira de descobrir isso é ler as críticas feitas a jornalistas mulheres nas redes sociais. São sempre comentários que se referem à aparência, à família. Raramente há uma crítica construtiva, ao conteúdo do trabalho. Essa é uma forma de machismo, e funciona como um desestímulo para jornalistas mulheres. Elas temem ataques às suas famílias e reputação quando fazem investigações, que desagradam a políticos.”
Assim, a autora reitera que a única maneira de combater a desinformação é “com boa informação (...) Tentar fazer com que reportagens -- com espaço para o contraditório, verificação de factos e investigação -- viralizem tanto quanto notícias falsas ou distorcidas”.
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