Sexta-feira, 30 de Julho, 2021
Jantares-debate

Para Guilherme d’Oliveira Martins, "a Europa é mais necessária do que nunca"

No segundo jantar-debate do novo ciclo “Que Portugal na Europa, que futuro para a União?” promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, foi nosso convidado Guilherme d’Oliveira Martins, que fez uma reflexão aprofundada sobre os problemas e os perigos presentes, mas concluindo com uma mensagem de esperança sobre as virtualidades do nosso País. Como sintetizou:

“Se me perguntarem se estou optimista ou pessimista relativamente à Europa, eu direi que não estou optimista. Mas se me perguntarem se estou optimista ou pessimista relativamente a Portugal, eu direi que estou optimista, se cuidarmos bem do nosso jardim. Portugal tem inequívocas potencialidades”. Contudo, para o conferencista  “A Europa é mais necessária do que nunca. A fragmentação traz o risco do conflito desregulado".

Guilherme d’Oliveira Martins começou por afirmar que “o projecto europeu conhece hoje um dos períodos mais difíceis da sua história de 60 anos. A decisão recente do Reino Unido criou importantes incertezas políticas e económicas. Por outro lado, a economia europeia vive uma situação de estagnação: só agora estamos com o mesmo Produto que tínhamos em 2008”. (...)

“O crescimento na Europa é, por isso, muito fraco, a liderança política está enfraquecida, os partidos populistas têm um apoio significativo e preocupante (...) e os egoísmos nacionais regressam e a memória histórica da guerra desvanece-se.” 

Este tema marcou especialmente a sua apresentação dos riscos da presente situação europeia:

“Não esqueço aquilo que Joseph Rovain disse, ao sair, em Maio de 1945, de um campo de concentração: 'Vou lembrar e esquecer; lembrar, para que não volte a acontecer; esquecer, para que não haja o ressentimento e a vingança'.”  (...) 

“A guerra de 1914 nasceu num momento em que todos os críticos e analistas diziam: não vai haver guerra… não pode haver guerra, uma vez que o Imperador da Alemanha é neto da Rainha Vitória; por outro lado, diziam os partidários das vanguardas proletárias: no dia em que houver guerra, os soldados, que são proletários, abraçar-se-ão na frente de batalha. Sabemos o que aconteceu.” 

“A guerra começou em Agosto de 1914 e os analistas que tinham dito que não podia haver guerra disseram então que, já que há guerra, ela será rápida e os soldados estarão de volta no Natal. Mas essa guerra durou 30 anos porque, em 1918, aparentemente terminou, mas em 1919 os tratados de Versailles deram origem à humilhação dos vencidos” e, como previra Johan Maynard Keynes, voltou a haver guerra. 

Como afirmou, seguidamente, o orador, “não podemos esquecer as guerras civis europeias, como não podemos esquecer a diversidade, os conflitos, as tensões… e se em 1945 houve a lucidez de não repetir os erros de Versailles, o certo é que ninguém pode esquecer que houve o Plano Marshall, que houve a possibilidade de a Europa se recuperar economicamente graças a um investimento maciço, (...) um apoio significativo que permitiu as condições de paz de que nós hoje ainda somos beneficiários”.

 

Desenvolvendo este pensamento, citou um texto muito recente de Jacques Delors, em que são propostos “três objectivos, aparentemente modestos, mas muito exigentes”:

1º - Preservar a Europa como um espaço de paz;  2º - Garantir que haja desenvolvimento sustentado na Europa;  3º - Preservar a diversidade cultural europeia, neste cadinho complexo de várias influências, de várias culturas. 

“Jacques Delors dizia, simultaneamente, que a União Económica e Monetária está mal preparada para a crise que pode vir aí… A acção do Banco Central Europeu revelou-se importante, mas insuficiente, e não foi aproveitada devidamente. A estagnação europeia deve-se ao fechamento da economia no mercado interno, resistência à inovação e à criatividade, fragmentação política, insuficiência das medidas de coesão económica e social.” 

“Ainda há muito pouco tempo vimos discutirem-se sanções para os países da coesão e do défice, e ninguém ousou dizer o que quer que fosse relativamente à aplicação integral do mecanismo europeu de coesão, que obriga a que os países que geram excedentes tenham que os partilhar.” 

 

Guilherme d’Oliveira Martins sublinhou a necessidade de reconhecer que “a legitimidade europeia é uma legitimidade dupla, é a dos Estados e é a dos cidadãos europeus”. 

Mais adiante afirmou:

“A União Económica e Monetária deverá fundar-se numa partilha de riscos, numa partilha de soberanias e num quadro coerente daquilo que muitas vezes se tem designado, mas sem consequência, de governo económico da União. Mas nada disto, nenhuma destas três ordens de providências, medidas de emergência, convergência e crescimento, partilha de riscos, soberanias partilhadas, se não houver uma maior proximidade relativamente aos cidadãos, melhor participação, uma democracia supra-nacional, com reforço da participação dos Parlamentos nacionais.”

 

Recordou, a propósito, que “Carlos I de Inglaterra foi decapitado porque não consultou o Parlamento no lançamento de novos impostos. (...)  E a partir de 1688 o Parlamento passou a ser obrigatoriamente convocado uma vez por ano, para consentir nas receitas e para autorizar as despesas”. 

“Naturalmente por deformação profissional, sendo eu professor de Finanças Públicas, é óbvio que não esqueço que a origem dos Parlamentos está no consentimento dos impostos. E reparem que esta questão é absolutamente crucial: como é que pode haver coesão económica e social com um Orçamento comunitário de 1% do PIB europeu? Os cálculos estão feitos, 3% já seria algo de muito, muito insuficiente, mas seria o mínimo dos mínimos na actual circunstância.”  (...)  

 

Para além disso, defendeu a instituição de um Senado Europeu, “um Senado onde todos os Estados estejam representados igualitariamente, e que, através de um entendimento com o Parlamento Europeu, possa justamente haver esta dupla legitimidade, para que os cidadãos se sintam representados”. 

 

Outra lacuna que sublinhou, citando de novo Jacques Delors, foi a de que, afinal, “o Euro continua incompleto; o Euro é fundamental, não se desvalorize o seu papel político, mas está incompleto. Porquê? Os Estados viram-se privados de mecanismos de ajustamento, mas a União Europeia não passou a dispor de mecanismos alternativos de estabilização. E no fundo, esta é a questão. Todos sabemos que a solução não é ter a capacidade de desvalorizar a moeda nacional, nem é o modelo de desvalorizações competitivas, não. Mas é, isso sim, em cada Estado a preservação de mecanismos de ajustamento, que devem ser complementados pelos mecanismos alternativos de estabilização, através da partilha de soberanias”.  (...)

 

“A Europa é mais necessária do que nunca. A fragmentação traz o risco do conflito desregulado. Vivemos, afinal, num sistema de polaridades difusas, que tanto gera a ameaça do terrorismo, tanto gera 11 de Setembro de 2001, como gera a incapacidade de encontrar soluções que permitam afinal a coesão, que permitam o progresso.”

 

Sobre Portugal, Guilherme d’Oliveira Martins afirmou que “é um país médio com responsabilidades de grande potência. Não é um país pequeno, sabemo-lo bem. Mas mesmo que fôssemos, temos sempre as responsabilidades de ter uma dimensão e uma projecção global. A língua portuguesa será falada, no final deste século, por 400 milhões de falantes. É hoje, já, a língua mais falada no hemisfério Sul. Só cinco línguas vão crescer significativamente nas próximas décadas: o mandarim, o hindi, o inglês, o espanhol e o português. Isso é significativo, mas corresponde a uma responsabilidade. Os falantes do português vão, sobretudo no Brasil, crescer até 2070, e entre 2070 e 2100 vão crescer sobretudo na zona do planalto do Huambo até Benguela, sendo que os dois pólos do Atlântico Sul vão ser muito significativos relativamente à presença da língua portuguesa”.

 

O orador definiu o Português como “língua de várias culturas, cultura de várias línguas. Quem conhece Goa sabe que em Goa não há cultura portuguesa, há indo-portuguesa. Quem conhece o Japão sabe que 250 vocábulos de uso comum são de origem portuguesa. Esta questão da língua é particularmente importante e está a ser compreendida em termos geo-estratégicos”.

 

Sublinhou também o valor económico da língua portuguesa, afirmando que “os estudos que existem hoje, relativamente ao valor económico da língua portuguesa, todos pecam por ter um valor por defeito. O valor da língua é extraordinariamente importante, e não é só da língua, por isso temos que evitar uma tentação, que é a atitude um pouco paternalista a propósito da língua, como se fôssemos de algum modo os pais, os proprietários dessa língua. Não, é uma língua de várias culturas e é uma cultura de várias línguas. E é essa a sua força, é essa a sua capacidade”.

 

Guilherme d’Oliveira Martins encerrou a sua palestra com apelos a “uma aposta clara num conceito aberto e amplo de sustentabilidade, não só a sustentabilidade financeira, mas também a económica, a demográfica, social, ambiental”;  “uma aposta forte na inovação e na criaitivdade”, considerando que “temos hoje a geração jovem mais qualificada em todos os momentos da nossa História”;  e “sobriedade económica, solidariedade e subsidiaridade”, considerando que “a economia é para as pessoas”.


 

E concluiu:

Vêem por que razão é que eu estou optimista relativamente a Portugal? É que eu acho que temos energias suficientes, acho que temos capacidades suficientes para poder responder aos desafios. Eles são exigentes. Mas a História nos diz que nós sempre fomos melhores na provação do que no sucesso.”

Connosco
Relatório do Obercom analisa tendências futuras dos “media” Ver galeria

Com a pandemia, a maioria dos jornalistas passou a ter que trabalhar em regime remoto, abandonando o espaço de redacção e o contacto directo com colegas de profissão.

Isto fez com que os colaboradores dos “media” passassem a depender dos seus dispositivos electrónicos para assegurar a comunicação com os editores, além de conjugarem a vida pessoal e profissional num único local.

Se, por um lado, alguns dos jornalistas apreciaram a flexibilidade deste novo regime, por outro lado, um número considerável de profissionais disse estar descontente com o “continuum” família/trabalho.

O caso da imprensa portuguesa foi, agora, analisado por um relatório do “Obercom”, cujos investigadores quiseram perceber qual a opinião dos jornalistas nacionais, quanto à possibilidade de o teletrabalho se transformar no “novo normal”.

O relatório analisou, ainda, outras questões relacionadas com o futuro do jornalismo português, como a diversidade nas redacções e “atracção e retenção de talentos em tempos de incerteza”.

Para este relatório foram consideradas as respostas de 98 inquiridos.

De acordo com o estudo, em Portugal, o teletrabalho é percepcionado como algo que teve consequências negativas para o jornalismo, em particular no que diz respeito ao trabalho colaborativo (75% dos inquiridos discordam que o trabalho remoto tenha facilitado a construção e manutenção de relações em equipa). Neste sentido, os inquiridos dizem, ainda, ter sentido quebras na sua eficiência e criatividade.

A percepção sobre os efeitos negativos do teletrabalho está, também, em concordância com a vontade expressa pelos jornalistas de regressar às redacções.

Dicas (possíveis) para a protecção “online” dos jornalistas Ver galeria

Após a revelação do “Projecto Pegasus”, e de que cerca de 180 jornalistas poderiam ter sido vigiados por um “software” móvel, a associação Repórteres sem Fronteiras (RSF) publicou uma lista de recomendações para profissionais dos “media”, com o objectivo de garantir um maior nível de segurança para todos os potenciais visados.

Neste sentido, os RSF recomendaram que os profissionais incluídos na lista de jornalistas vigiados trocassem, de imediato, os seus dispositivos móveis, para continuarem a comunicar sem que as suas informações pessoais fossem partilhadas com terceiros.

Da mesma forma, a associação recordou a importância de desconectar todas as contas das redes sociais, bem como da alteração de palavras-passe.

Caso não seja possível trocar de “smartphone”, os RSF aconselham os jornalistas a reiniciarem os dispositivos, já que isto pode travar o funcionamento dos “softwares”.

Após estes primeiros passos, recomenda-se que os jornalistas reforcem o nível de segurança dos dispositivos tecnológicos, activando uma palavra-passe com quatro dígitos distintos, que não tenha qualquer relação com dados pessoais, tais como a data de nascimento.

Um maior nível de segurança passa, também, pela actualização frequente dos sistemas operativos, e pela instalação de um serviço antivírus.

Quanto às redes sociais, os RSF aconselham que os jornalistas activem o acesso em dois passos: palavra-passe e identificação facial, por exemplo.

A associação recomenda, ainda, que os profissionais dos “media” não utilizem redes wi-fi suspeitas, e que nunca carreguem em “links” de fontes desconhecidas.

Para os jornalistas que trabalham na área da investigação, a melhor solução é optar por um telemóvel antigo, que não tenha acesso à internet, acrescentam os RSF.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


ver mais >
Opinião
Há sinais que não enganam, ou que só enganam quem queira deixar-se enganar.Enquanto o Parlamento “chumbou” a tentativa de revogar o polémico artigo 6º da Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital, apontado como tendencialmente censório, anuncia-se, de mansinho, uma possível revisão da Lei de Imprensa, com o pretexto de estar a celebrar-se o bicentenário do primeiro documento publicado com esse objectivo. Para...
Uma das coisas que mais me intriga e cansa no jornalismo que se faz atualmente em Portugal é a ausência de sentido crítico, a incapacidade de arriscar e de fazer diferente. Estão todos a correr para dar as mesmas notícias e fazer as mesmas perguntas. E, quando conseguem o objetivo, ficam com a sensação de dever cumprido.Vem isto a propósito da não notícia que ocupa lugar diário nos títulos da imprensa, dos...
O acordo de Macau rasgado pela China
Francisco Sarsfield Cabral
Sem alterar qualquer nova lei, em Macau, como em Hong-Kong, a China não respeita os acordos que assinou. O Governo português nem sequer protesta. Razão tem o presidente J. Biden para endurecer o relacionamento com a China e o seu regime de ditadura absoluta do partido comunista chinês.  Na passada terça-feira o jornal “Público” dedicou quatro páginas à atual situação em Macau. Dois jornalistas (Hugo Pinto e...
Venham mais 40!...
Carlos Barbosa
No Brasil, começou esta aventura, com o Dinis de Abreu!! Foi há 40 anos, estava ele no Diário de Noticias e eu no Correio Manhã, quando resolvemos, com mais uma bela equipa de jornalistas, fundar o Clube Português de Imprensa. Completamente independente e sem qualquer cor politica, o Clube cedo se desenvolveu com reuniões ,almoços, palestras, etc. Tivemos o privilégio de ter os maiores nomes da sociedade civil e política portuguesa...
A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
Agenda
23
Ago
28
Set
World News Media Congress
09:00 @ Taipei, Taiwan
13
Out
01
Nov
The African Investigative Journalism Conference
10:00 @ Joanesburgo, África do Sul