Sexta-feira, 30 de Julho, 2021
Media

Ferramentas de "spyware" de jornalistas contratadas por regimes políticos autoritários

Cerca de 180 jornalistas foram seleccionados como potenciais alvos de vigilância governamental, pela empresa israelita de “spyware” NSO Group, revelou a publicação britânica “The Guardian”.

Entre os profissionais potencialmente vigiados encontra-se o marroquino Omar Radi que foi, recentemente, condenado a seis anos de prisão, sob acusações de “violência sexual” e de “espionagem”.

Na lista consultada pelo “Guardian” constava, igualmente, o nome de Cecílio Pineda Brito, um jornalista que foi assassinado um mês após os seus dados pessoais terem entrado para os registos do NSO Group.

Conforme apontou o “Guardian”, a empresa israelita estará, também , a vigiar colaboradores de empresas jornalísticas proeminentes, como o “Wall Street Journal”, a CNN, “New York Times”, a “Al Jazeera”, “Radio Free Europe”, Associated Press, Agence France-Press, “The Economist”, Reuters e “Voice of America”.

De acordo com o NSO Group, a vigilância é requisitada por governos de países como o Arábia Saudita, Azerbaijão, Bahrain, Hungria, Índia, Cazaquistão, México, Marrocos e Ruanda, a pretexto de “evitar casos de terrorismo e violência”.

A Amnistia Internacional conseguiu, entretanto, apurar que pelo menos 15 dos 180 jornalistas visados tinham, de facto, sido espiados pela empresa, através do “spyware” Pegasus, que permite aceder a dados telefónicos.

Entre os jornalistas confirmados estão os profissionais indianos Siddharth Varadarajan e Paranjoy Guha Thakurta.

De acordo com o “Guardian”, Thakurta foi “hackeado” em 2018, enquanto trabalhava numa investigação sobre a utilização das redes sociais pelo governo indiano, que tinha como objectivo disseminar desinformação nacionalista.

“Senti-me violado”, disse, por sua vez, Varadarajan. “Ninguém deveria ter de lidar com isto, mas em particular os profissionais dos ‘media’ e aqueles que de alguma forma estão a trabalhar para o interesse público".

Outro dos alvos confirmados foi a jornalista azeri Khadija Ismayilova, que passou os últimos anos a investigar casos de corrupção no Azerbaijão.

 

 

“Sinto-me culpada porque algumas fontes enviaram-me informações sem saberem que o meu telemóvel estava a ser vigiado”, afirmou  Ismayilova. “Os meus familiares também são vítimas, assim como os meus colegas de profissão. Não sou a única”.


Além disso,  Ismayilova diz estar “zangada” com aqueles que “desenvolveram ferramentas de vigilância” e que estabelecem contratos com regimes autoritários. 


Perante este cenário, Carlos Martínez de la Serna, coordenador do Comité para a Protecção dos Jornalistas (CPJ), alertou para a crescente popularidade da utilização de ferramentas de “spyware”, com o objectivo de atacar jornalistas.


“ Espiar jornalistas tem um efeito arrepiante. Os nossos dispositivos electrónicos são essenciais para a actividade jornalística, e estas ferramentas expõem as nossas fontes, os nossos materias”, disse, citado pelo “Guardian”. 


“Ainda não temos protecção suficiente contra estas acções governamentais”, concluiu Martínez, ressalvando a urgência da implementação de novos regulamentos nas empresas de “spyware”, como forma de limitar ataques à liberdade de imprensa.


Leia o artigo original em “Guardian”

Imagem recolhida em “Guardian”


Connosco
Relatório do Obercom analisa tendências futuras dos “media” Ver galeria

Com a pandemia, a maioria dos jornalistas passou a ter que trabalhar em regime remoto, abandonando o espaço de redacção e o contacto directo com colegas de profissão.

Isto fez com que os colaboradores dos “media” passassem a depender dos seus dispositivos electrónicos para assegurar a comunicação com os editores, além de conjugarem a vida pessoal e profissional num único local.

Se, por um lado, alguns dos jornalistas apreciaram a flexibilidade deste novo regime, por outro lado, um número considerável de profissionais disse estar descontente com o “continuum” família/trabalho.

O caso da imprensa portuguesa foi, agora, analisado por um relatório do “Obercom”, cujos investigadores quiseram perceber qual a opinião dos jornalistas nacionais, quanto à possibilidade de o teletrabalho se transformar no “novo normal”.

O relatório analisou, ainda, outras questões relacionadas com o futuro do jornalismo português, como a diversidade nas redacções e “atracção e retenção de talentos em tempos de incerteza”.

Para este relatório foram consideradas as respostas de 98 inquiridos.

De acordo com o estudo, em Portugal, o teletrabalho é percepcionado como algo que teve consequências negativas para o jornalismo, em particular no que diz respeito ao trabalho colaborativo (75% dos inquiridos discordam que o trabalho remoto tenha facilitado a construção e manutenção de relações em equipa). Neste sentido, os inquiridos dizem, ainda, ter sentido quebras na sua eficiência e criatividade.

A percepção sobre os efeitos negativos do teletrabalho está, também, em concordância com a vontade expressa pelos jornalistas de regressar às redacções.

Dicas (possíveis) para a protecção “online” dos jornalistas Ver galeria

Após a revelação do “Projecto Pegasus”, e de que cerca de 180 jornalistas poderiam ter sido vigiados por um “software” móvel, a associação Repórteres sem Fronteiras (RSF) publicou uma lista de recomendações para profissionais dos “media”, com o objectivo de garantir um maior nível de segurança para todos os potenciais visados.

Neste sentido, os RSF recomendaram que os profissionais incluídos na lista de jornalistas vigiados trocassem, de imediato, os seus dispositivos móveis, para continuarem a comunicar sem que as suas informações pessoais fossem partilhadas com terceiros.

Da mesma forma, a associação recordou a importância de desconectar todas as contas das redes sociais, bem como da alteração de palavras-passe.

Caso não seja possível trocar de “smartphone”, os RSF aconselham os jornalistas a reiniciarem os dispositivos, já que isto pode travar o funcionamento dos “softwares”.

Após estes primeiros passos, recomenda-se que os jornalistas reforcem o nível de segurança dos dispositivos tecnológicos, activando uma palavra-passe com quatro dígitos distintos, que não tenha qualquer relação com dados pessoais, tais como a data de nascimento.

Um maior nível de segurança passa, também, pela actualização frequente dos sistemas operativos, e pela instalação de um serviço antivírus.

Quanto às redes sociais, os RSF aconselham que os jornalistas activem o acesso em dois passos: palavra-passe e identificação facial, por exemplo.

A associação recomenda, ainda, que os profissionais dos “media” não utilizem redes wi-fi suspeitas, e que nunca carreguem em “links” de fontes desconhecidas.

Para os jornalistas que trabalham na área da investigação, a melhor solução é optar por um telemóvel antigo, que não tenha acesso à internet, acrescentam os RSF.

O Clube
Como tem sido habitual, desde o lançamento deste site do Clube Português de Imprensa, interrompemos a sua actualização diária em Agosto, atendendo ao período de férias que atravessamos. Registamos, entretanto, com apreço o crescimento constante da audiência deste projecto da nossa associação (acima dos 20%, no último ano civil , medidos pela Google Analytics ), sinal  de que quem nos visita e acompanha com...

ver mais >
Opinião
Há sinais que não enganam, ou que só enganam quem queira deixar-se enganar.Enquanto o Parlamento “chumbou” a tentativa de revogar o polémico artigo 6º da Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital, apontado como tendencialmente censório, anuncia-se, de mansinho, uma possível revisão da Lei de Imprensa, com o pretexto de estar a celebrar-se o bicentenário do primeiro documento publicado com esse objectivo. Para...
O que une radicais de direita e de esquerda
Francisco Sarsfield Cabral
Contra o que frequentemente se julga, um radical de direita não está a uma distância de 180 graus de um radical de esquerda. Ambos partilham um desprezo pela democracia liberal, que consideram um regime político “mole”, sem “espinha dorsal”. Não aceitam que quem pense de maneira diferente da nossa não seja um inimigo a abater.  No passado dia 1 a Eslovénia sucedeu a Portugal na presidência semestral da UE....
Uma das coisas que mais me intriga e cansa no jornalismo que se faz atualmente em Portugal é a ausência de sentido crítico, a incapacidade de arriscar e de fazer diferente. Estão todos a correr para dar as mesmas notícias e fazer as mesmas perguntas. E, quando conseguem o objetivo, ficam com a sensação de dever cumprido.Vem isto a propósito da não notícia que ocupa lugar diário nos títulos da imprensa, dos...
Venham mais 40!...
Carlos Barbosa
No Brasil, começou esta aventura, com o Dinis de Abreu!! Foi há 40 anos, estava ele no Diário de Noticias e eu no Correio Manhã, quando resolvemos, com mais uma bela equipa de jornalistas, fundar o Clube Português de Imprensa. Completamente independente e sem qualquer cor politica, o Clube cedo se desenvolveu com reuniões ,almoços, palestras, etc. Tivemos o privilégio de ter os maiores nomes da sociedade civil e política portuguesa...
A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
Agenda
23
Ago
28
Set
World News Media Congress
09:00 @ Taipei, Taiwan
13
Out
01
Nov
The African Investigative Journalism Conference
10:00 @ Joanesburgo, África do Sul