Quinta-feira, 24 de Junho, 2021
Opinião

Terrorismo de Estado

por Francisco Sarsfield Cabral

A brutal ditadura de Lukashenko inaugurou o terrorismo de Estado com o primeiro desvio de um avião comercial. Um sequestro promovido com mentiras e o auxílio de um avião militar. A resposta da UE foi unânime. Veremos se a repressão transnacional de opositores de regimes ditatoriais se intensifica.

No final de década de 1960 começaram a ocorrer sequestros e desvios de aviões comerciais por terroristas. Essa série de crimes culminou com os aviões que terroristas islâmicos assaltaram para os levarem a embater nas “torres gémeas” de Nova York. Morreram cerca de 3 mil pessoas. Depois deste horrível atentado foram tomadas medidas de segurança e os sequestros de aviões praticamente não se repetiram. 

Temos, agora, um novo tipo de sequestro na aviação comercial: o voo da Ryanair que o ditador da Bielorrússia forçou a aterrar na capital desse país, Minsk. O avião partira de Atenas com destino a Vilnius, capital da Lituânia, e nele viajava um opositor de Lukashenko, um jornalista que este queria prender. Para tal, Lukashenko inventou que haveria uma bomba a bordo, colocada pelo Hamas. E um avião militar bielorrusso forçou a avião da Ryanair a aterrar em Minsk, embora estivesse mais perto de Vilnius. 

O opositor de regime foi preso, assim como a namorada. Gravou depois uma declaração dizendo estar a ser bem tratado pela polícia local. Mas o próprio pai do jornalista afirmou que ele teria sido torturado para dizer o que disse. 


Lukashenko mantém-se no poder desde 1994. E durante anos pareceu desejar colocar-se a uma certa distância da Rússia de Putin. Mas manteve muito do aparelho repressivo da era soviética. Até os seus serviços secretos continuam a chamar-se KGB.
 

Lukashenko foi reeleito presidente fraudulentamente em agosto do ano passado. Só que o seu sexto mandato não foi aceite pela maioria da população bielorrussa, que veio para a rua manifestar-se. A repressão foi feroz – mais de 35 mil pessoas terão sido presas e muitas delas torturadas. Perante este confronto, Lukashenko abrigou-se sob a ditadura de Putin, que, de facto, é quem está por detrás deste atentado terrorista. 

As autoridades russas e os “media” controlados por Putin (são quase todos) saudaram o “golpe” de Lukashenko e criticaram as sanções da UE. Faz parte da “guerra” que Putin lançou às democracias pluralistas ocidentais. Aliás, Putin não hesita em mandar matar opositores e ex-espiões do KGB, envenenando-os. Veja-se o que está a acontecer com Navalny, que sobreviveu a um envenenamento e regressou à Rússia, onde foi outra vez preso. 

A falta de escrúpulos de Putin já tinha ficado bem à vista com a ocupação da Crimeia e de parte de Geórgia, bem como com o apoio aos dissidentes ucranianos pró-russos, perto da fronteira Leste da Ucrânia. E, antes disso, com a violência brutal como foi “pacificada” a Chechénia. 

As sanções decididas pela UE foram as possíveis. Desde logo, foram unânimes (temia-se que a Hungria de Viktor Orbán se pusesse uma vez mais de fora). J. Biden saudou-as e promete avançar também com sanções americanas. O que não o impedirá de no dia 16 de junho se encontrar, em Genebra, com Putin. O caso certamente será então levantado por J. Biden. 

Este atentado de Lukashenko insere-se numa tendência perigosa que emerge na cena internacional: a repressão transnacional. Países como China, Rússia, Turquia, Arábia Saudita e Irão, entre outros, não hesitam em perseguir fora das suas fronteiras os opositores aos respetivos líderes políticos. 

E deve reconhecer-se que os EUA também deram, no passado recente, alguns passos nesse sentido. Recorde-se Guantánamo, a utilização maciça de “drones” para matar alegados terroristas a milhares de quilómetros de distância, a tortura (com outro nome, claro), etc. Espera-se que J. Biden também aí mostre que é diferente. 

 (Publicado originalmente no site da Rádio Renascença”)


Connosco
“Folha de S. Paulo” assinala com capa simbólica as vítimas de covid Ver galeria

Vários leitores classificaram como “arrepiante” a capa em branco da edição de 20 de Junho do jornal “Folha de S.Paulo”, que visava assinalar as 500 mil vidas perdidas devido à Covid-19 no Brasil, noticiou a agência Lusa, citada pelo jornal digital “Observador”.

Com uma capa especial quase totalmente em branco, foi acrescentado o texto: “Se uma capa vazia causa incómodo, imagine a dor que causa o vazio nas famílias dos 500 mil brasileiros que perderam a vida para a covid-19”.

“Vamos morrer até quando?”, questionava, ainda, a capa do jornal.

Esta questão foi, igualmente, projectada na fachada de um prémio em São Paulo, através de um vídeo que esteve em “loop” durante 17 minutos.

As reacções à iniciativa da “Folha” foram imediatas, com dezenas de leitores a comentarem a opção editorial nas redes sociais.

“Arrepiada com a primeira página da ‘Folha’.(..). Arrepiada de tristeza e frustração pelos 500 mil brasileiros mortos pela Covid”, escreveu uma leitora “Parabéns, ‘Folha’! É este tipo de manchete que o Brasil precisa nesse momento”, disse, por sua vez, outra leitora, numa série de comentários destacados pelo próprio jornal.

Governo de Hong Kong justifica atentados à liberdade de imprensa com Lei de Segurança Nacional Ver galeria

A líder de Hong Kong, Carrie Lam, defendeu, numa conferência de imprensa, a detenção dos responsáveis pelo jornal pró-democracia “Daily Apple”, bem como o congelamento dos activos da publicação, ao abrigo da Lei de Segurança Nacional imposta por Pequim.

De acordo com o “Guardian”, Lam disse, ainda, que estas acções não constituíram um ataque à liberdade de imprensa no território

“Os ‘media’ não devem minimizar a ilegalidade de infringir a Lei de Segurança Nacional, nem tentar vangloriar este tipo de actos”, disse. “Não devem, igualmente, acusar as autoridades de Hong Kong de utilizar esta lei para restringir a imprensa ou a liberdade de expressão”.

Da mesma forma, Lam recusou-se a clarificar as nuances do documento quanto à cobertura noticiosa no território.

“Acho que os nossos amigos dos ‘media’ têm a capacidade de identificar as actividades que colocam em causa a segurança nacional”, continuou. “Podem criticar o governo de Hong Kong, mas não devem incentivar acções que ameacem a nossa estabilidade”.

Recorde-se que, a 17 de Junho, mais de 500 agentes invadiram as instalações do jornal e detiveram o chefe de redacção e outros quatro responsáveis do jornal “Apple Daily”, por suspeita de conspiração com forças estrangeiras, ao abrigo da Lei de Segurança Nacional.
As autoridades decidiram, entretanto, congelar os activos do jornal, o que restringe o pagamento dos salários aos colaboradores.

Este jornal, que apoia o movimento pró-democracia, está, agora, em risco de fechar.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


ver mais >
Opinião
Agenda
28
Set
World News Media Congress
09:00 @ Taipei, Taiwan
13
Out
01
Nov
The African Investigative Journalism Conference
10:00 @ Joanesburgo, África do Sul
28
Mar
12th World Conference of Science Journalists
10:00 @ Medellín, Colômbia