Sábado, 8 de Maio, 2021
Media

Situação da TDM em Macau preocupa jornalistas

Em meados de 2019, a região administrativa de Hong Kong começou a reportar casos de restrições à liberdade de imprensa, que se traduziram na detenção do empresário de “media” Jimmy Lai, bem como na implementação de uma nova lei de segurança nacional.

À época, a região de Macau estava, aparentemente, isenta deste tipo de pressões de Pequim. Contudo, o cenário começou a alterar-se em Março deste ano, com a introdução de uma nova linha editorial na TDM -- Teledifusão de Macau.

De acordo com as novas directivas, os jornalistas de língua portuguesa e inglesa devem exercer as suas funções seguindo uma conduta “patriótica”, o que passa por não divulgar opiniões contrárias às políticas da China.

A implementação desta nova linha editorial motivou, entretanto, a demissão de, pelo menos, sete jornalistas da operadora pública, bem como o afastamento de outros profissionais.

Esta problemática foi, agora, abordada num texto do jornalista Pedro Bastos Reis, do “Observador”, que entrou em contacto com profissionais macaenses, de forma a espelhar o actual panorama da imprensa da região.

Neste contexto, estabeleceu contacto com a jornalista Sílvia Gonçalves, que colaborou com o diário “Ponto Final” durante cinco anos, e que acabou por voltar para Portugal por sentir que “ já não seria possível exercer a minha profissão de jornalista em pleno”.

Em entrevista para o “Observador”, aquela profissional salientou a “preocupação” relativa à cobertura dos protestos do movimento pró-democracia na região de Hong Kong.

Se, por um lado, aquela profissional garantiu nunca ter sido alvo de censura, assumiu, por outro lado, que foi incentivada a focar-se “nas questões de Macau” e menos em Hong Kong.

Além disso, de acordo com Sílvia Gonçalves, o acesso a fontes tornou-se “cada vez mais limitado”, com poucos cidadãos dispostos a falar, abertamente, sobre questões políticas relacionadas com as duas regiões administrativas especiais chinesas.

E, ao contrário da crença generalizada, aquela profissional assegura que “liberdade de imprensa em Macau está, efectivamente, sob ameaça, (...) pelo menos desde 2019, quando começou a perceber-se que havia questões que seria preferível não abordar na imprensa de língua portuguesa”.

Da mesma forma, o advogado Jorge Menezes considera que as novas instruções da TDM violam a lei básica de Macau, uma mini-constituição da região administrativa especial que vigora até 2049, no âmbito da transferência da administração de Macau de Portugal para a China em 1999. 


“Há uma lei de liberdade de imprensa, escrita no tempo em que Portugal administrava Macau, que continua em vigor, parecida com a de Portugal. Isto é um absurdo, uma ilegalidade completa”, afirmou o advogado que trabalha em Macau há quase 20 anos e que tem sido uma das vozes mais críticas na região administrativa especial, falando em “censura” e numa tentativa de “obrigar os jornalistas a tornarem-se numa espécie de delegados de propaganda política do governo da China e do governo de Macau”.


Entretanto, perante estas ameaças de censura, os Repórteres Sem Fronteiras (RSF) anunciaram que irão passar a incluir Macau na sua lista de monitorização, que analisa a liberdade de imprensa em 180 países.


“O jornalismo não é compatível com a questão da informação patriótica. Jornalismo trata-se de reportar factos com o máximo de honestidade”, afirmou Cédric Alviani, responsável dos RSF, em declarações ao “Observador”. 


“Quando governos ou direcções dos ‘media’ pedem aos jornalistas para serem patrióticos no seu trabalho, trata-se, claramente, de um pedido para a autocensura em certos assuntos ou para a divulgação de propaganda. Isso é totalmente inaceitável”


Outras organizações, como a Associação de Imprensa em Português e Inglês de Macau (AIPIM), a Associação de Jornalistas de Macau ou o Sindicato dos Jornalistas em Portugal manifestaram, igualmente, enorme preocupação com o caso da TDM. 


Da mesma forma, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, sublinhou que o Governo português espera que a China “respeite, escrupulosamente, a Lei Básica em Macau”, sublinhando que a mini-constituição “é muito clara na garantia da liberdade de imprensa”.


Segundo recordou Bastos Reis, após as declarações de Augusto Santos Silva, as autoridades autorizaram, no início de Abril,  a realização de uma manifestação à porta das instalações da TDM, onde se exigiu a defesa da liberdade de imprensa na região.


 Um dos presentes no protesto foi Sulu Sou, vice-presidente da Associação Novo Macau e deputado pró-democracia na Assembleia Legislativa.


“A exigência de patriotismo é apenas uma razão superficial. O importante é que pretendem eliminar vozes que o governo [de Macau] não gosta de ouvir”, afirmou ao “Observador” Sulu Sou, sublinhando, por outro lado, que os “media” de língua chinesa são alvo de pressões há, pelo menos, dez anos.


Ainda assim, há quem acredite que as novas directivas não representam uma ameaça à liberdade de imprensa, e que se tem assistido, em Macau, a uma “histeria generalizada”.


É, pelo menos, esse o caso de Carlos Morais José, director do jornal “Hoje Macau”.


“Parece que estamos aqui a pactuar com um regime opressor que não nos deixa fazer jornalismo a sério. Isso não é verdade (...) Estou aqui há 20 anos, desde a transferência da soberania, a fazer jornalismo e não tenho razões de queixa a nível de interferência governamental”, garantiu. “Acho que as pessoas que não estão bem com a linha editorial dos jornais em que trabalham, devem sair. Agora, isso não tem nada a ver com liberdade de imprensa, porque podem abrir um jornal ao lado.”


Por seu lado,  o colunista e economista Albano Martins considera que “já no tempo da administração portuguesa havia tentativas de controlo”. Agora, no entanto, assegura que “há medo”.


 “Há uma parte da comunidade que sente receio mas que por razões de trabalho, pessoais ou familiares prefere não falar”, acrescentou.


Da mesma forma, a jornalista Sílvia Gonçalves acredita que, em Macau,  “há muita gente encurralada pelo medo”.


"Lamento profundamente que, mesmo neste momento, os jornalistas de Macau não estejam a usar a sua voz para defender o seu trabalho, para defender o jornalismo e para defender a liberdade de imprensa. 


“Lamento que os jornalistas continuem a ocultar-se no anonimato e estejam mais preocupados em preservar o seu emprego do que em defender a dignidade da nossa profissão”.


Leia o artigo original em “Observador”

Connosco
"The Guardian" festeja 200 anos com jornalismo na primeira linha Ver galeria

O jornal britânico “ The Guardian” celebrou, recentemente, o seu 200º aniversário.

E, como forma de assinalar a efeméride, vários editores de publicações internacionais enviaram uma mensagem de tributo à publicação.

O então “Manchester Guardian” lançou a sua primeira edição em 5 de Maio de 1821, em resposta ao massacre de Peterloo. Desde esse dia, o título publicou mais de 54 mil edições e milhões de artigos jornalísticos, conquistando alguns prémios pelo caminho, incluindo um Pulitzer.

Para Christian Broughton, director do “Independent”, o “Guardian” soube “aproveitar um massacre para iniciar um movimento”.

“O massacre de Peterloo foi um incidente único”, disse Broughton. “Enquanto houver realidades difíceis sobre as quais reportar, continuaremos a precisar de jornalistas a exercerem as suas funções, e leitores que reconheçam o seu valor”.

Por sua vez, Marty Baron, do “Independent”, elogiou o “Guardian” por ser uma “fonte de inspiração para muitos”.

“Quando se completam 200 anos enquanto instituição mediática, isso significa que se está a fornecer um serviço público de qualidade”, afirmou.

Já Fran Unsworth, directora da BBC News, considerou o marco de 200 anos como uma “conquista extraordinária”.

“A história do ‘Guardian’ é uma tapeçaria rica em jornalismo de investigação, com responsabilização do poder político e em atenção aos interesses dos seus leitores”, rematou Unsworth.

Da mesma forma, o editor-executivo do “El País”, Javier Moreno, expressou a sua admiração pelo “jornal lançado no século XIX, em Manchester”, que se “tornou numa referência mundial”.

Outros jornalistas destacaram, por outro lado, os esforços da publicação para construir um modelo de negócio sustentável.

Hillary contra países autoritários que utilizam "media" para propaganda Ver galeria

Por ocasião do 200º aniversário do “Guardian”, a antiga candidata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, concedeu uma entrevista ao jornal britânico, para debater a importância do combate à desinformação.

Conforme recordou o “Guardian”, Hillary Clinton foi candidata presidencial numa altura em que as campanhas “fake news” começaram a ganhar força.

Aliás, de acordo com várias fontes jornalísticas, a campanha de Clinton foi prejudicada por um movimento de Moscovo, que começou a disseminar notícias falsas sobre o passado da candidata nas redes sociais.

Cinco anos depois -- e apesar da mudança de presidência dos EUA-- as campanhas de desinformação e as “teorias da conspiração” ganharam ainda mais força, ameaçando a segurança e o bem-estar dos cidadãos.

Posto isto, Hillary Clinton defende que os “media” têm que alterar a sua estratégia e deixar de “defender que a verdade se encontra algures no meio”, enquanto se preparam para enfrentar o poder das redes sociais.

“As empresas tecnológicas são, agora, muito mais poderosas do que qualquer meio de comunicação tradicional”, reiterou a antiga primeira-dama dos EUA. “Acho que tem de haver um reconhecimento internacional dos perigos da desinformação, bem como da questão do monopólio”, continuou, referindo-se, em concreto, ao caso do Facebook.

Assim, Clinton espera que o actual governo dos EUA imponha novas directrizes a estas empresas.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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Opinião
Se olharmos para o ranking da liberdade de imprensa, elaborado pela organização internacional Repórteres sem Fronteiras (RSF), verificamos que Portugal fecha o top ten em 2020, entre 180 países avaliados, tendo melhorado duas posições desde o ano anterior. É uma classificação confortável, numa lista liderada pela Noruega, onde a vizinha Espanha aparece em 29.º lugar e a Coreia do Norte em último, um exemplo...
Limites da liberdade de expressão
Francisco Sarsfield Cabral
Na internet não deve continuar a prevalecer a lei da selva. O que não é um apelo à censura, muito menos se ela for praticada pelos gestores das empresas tecnológicas. Cabe à política, e não às empresas, assegurar o bem comum. Quem escreve na internet deverá sujeitar-se às condições jurídicas que não permitam atos que são considerados crimes nos media tradicionais.Não há...
Venham mais 40!...
Carlos Barbosa
No Brasil, começou esta aventura, com o Dinis de Abreu!! Foi há 40 anos, estava ele no Diário de Noticias e eu no Correio Manhã, quando resolvemos, com mais uma bela equipa de jornalistas, fundar o Clube Português de Imprensa. Completamente independente e sem qualquer cor politica, o Clube cedo se desenvolveu com reuniões ,almoços, palestras, etc. Tivemos o privilégio de ter os maiores nomes da sociedade civil e política portuguesa...
A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
A ideia fundadora do CPI, pelo menos a que justificou a minha adesão plena à iniciativa, foi o entendimento de que cada media é uma comunidade de interesses convergentes. A dos editores da publicação, a dos produtores, a dos que comercializam. Isto é, uma ideia cooperativa de acionistas, jornalistas e outros trabalhadores. E, obviamente, uma ideia primeira de independência e de liberdade. Esta ideia causou, há quarenta anos, algum...
Agenda
11
Mai
A Inteligência Artificial e o Futuro do Jornalismo
14:00 @ Palácio Nacional da Ajuda
18
Mai
Congreso Internacional de Ética de la Comunicación
10:00 @ Universidade Complutense de Madrid
18
Mai
19
Mai
2021 Collaborative Journalism Summit
09:00 @ Conferência "online" do Journalism Fund