Sexta-feira, 30 de Julho, 2021
Media

Jornalismo de "trincheira" marcado pela conduta política ou ideológica

O panorama jornalístico alterou-se, significativamente, com a chegada da pandemia, já que os profissionais dos “media” passaram a desempenhar um papel crucial para a segurança dos cidadãos, reconquistando a confiança das audiências.

Assim, os “media” começaram a publicar relatórios diários, com as estatísticas sobre a pandemia, bem como artigos informativos sobre os efeitos da doença, tanto a nível de saúde pública, como no âmbito social, político e económico.

Contudo, e apesar dos esforços, os “media” apresentaram lacunas em algumas áreas, defendeu Miguel Ormaetxea num artigo publicado no “site” Media-tics, com base no relatório "Repensar o amanhã. O maior risco é não aprender nada", da Fundación Telefónica.

Segundo recordou Ormaetxea, o relatório baseou-se em declarações de diversos jornalistas, que reflectiram sobre o trabalho que têm vindo a realizar desde Março de 2020.

Na sua maioria, os jornalistas destacaram que houve uma vaga de “sobre-informação”, o que também pode ser prejudicial para a população, e conduzir ao desgaste psicológico.

Olga Lambea, jornalista do Canal 24 horas da TVE, destacou: "Tem havido muita informação mas quase sempre muito parecida. E é isso que eu acho que faltou aos ‘media’, às redes sociais: encontrar outros caminhos”.

Os profissionais entrevistados destacam, por outro lado, a complexidade deste tema, que deve ser tratado de forma cuidadosa e transparente, para garantir a segurança de todos os leitores e espectadores.

O relatório da Fundación Telefónica destaca, neste âmbito, um estudo da Universidade de Chicago, que analisou o efeito sobre a audiência de dois apresentadores da Fox News, Sean Hannity e Tucker Carlson. 


O primeiro minimizou a pandemia, enquanto o segundo alertou a população. 


Ora, de acordo com este estudo, a audiência do Hannity apresentou um maior número de infecções, o que ilustra a enorme responsabilidade dos profissionais de informação.


Isto levanta, ainda, outra questão: o negacionismo nas redes sociais.


Estes movimentos foram promovidos por diversas entidades, que visaram menosprezar as consequências do vírus, o que obrigou os jornalistas a empenharem-se na desmistificação de “fake news”.


Este problema foi exacerbado pelos algoritmos das plataformas “online”, que tendem a promover este tipo de conteúdo.


A tudo isto junta-se aquilo que Ormaetxea apelida de “jornalismo de trincheira”, caracterizado pela conduta ideológica ou política, assumida por muitas empresas de “media”.


Perante este cenário, Ormaetxea apela aos jornalistas que “não ofendam o espectador”, oferecendo a melhor informação possível, de forma ética e transparente.


Até porque este é o único método eficaz para ajudar os cidadãos a tomarem decisões bem informadas, que triunfem no mundo (quase) pós-pandémico.


Connosco
Relatório do Obercom analisa tendências futuras dos “media” Ver galeria

Com a pandemia, a maioria dos jornalistas passou a ter que trabalhar em regime remoto, abandonando o espaço de redacção e o contacto directo com colegas de profissão.

Isto fez com que os colaboradores dos “media” passassem a depender dos seus dispositivos electrónicos para assegurar a comunicação com os editores, além de conjugarem a vida pessoal e profissional num único local.

Se, por um lado, alguns dos jornalistas apreciaram a flexibilidade deste novo regime, por outro lado, um número considerável de profissionais disse estar descontente com o “continuum” família/trabalho.

O caso da imprensa portuguesa foi, agora, analisado por um relatório do “Obercom”, cujos investigadores quiseram perceber qual a opinião dos jornalistas nacionais, quanto à possibilidade de o teletrabalho se transformar no “novo normal”.

O relatório analisou, ainda, outras questões relacionadas com o futuro do jornalismo português, como a diversidade nas redacções e “atracção e retenção de talentos em tempos de incerteza”.

Para este relatório foram consideradas as respostas de 98 inquiridos.

De acordo com o estudo, em Portugal, o teletrabalho é percepcionado como algo que teve consequências negativas para o jornalismo, em particular no que diz respeito ao trabalho colaborativo (75% dos inquiridos discordam que o trabalho remoto tenha facilitado a construção e manutenção de relações em equipa). Neste sentido, os inquiridos dizem, ainda, ter sentido quebras na sua eficiência e criatividade.

A percepção sobre os efeitos negativos do teletrabalho está, também, em concordância com a vontade expressa pelos jornalistas de regressar às redacções.

Dicas (possíveis) para a protecção “online” dos jornalistas Ver galeria

Após a revelação do “Projecto Pegasus”, e de que cerca de 180 jornalistas poderiam ter sido vigiados por um “software” móvel, a associação Repórteres sem Fronteiras (RSF) publicou uma lista de recomendações para profissionais dos “media”, com o objectivo de garantir um maior nível de segurança para todos os potenciais visados.

Neste sentido, os RSF recomendaram que os profissionais incluídos na lista de jornalistas vigiados trocassem, de imediato, os seus dispositivos móveis, para continuarem a comunicar sem que as suas informações pessoais fossem partilhadas com terceiros.

Da mesma forma, a associação recordou a importância de desconectar todas as contas das redes sociais, bem como da alteração de palavras-passe.

Caso não seja possível trocar de “smartphone”, os RSF aconselham os jornalistas a reiniciarem os dispositivos, já que isto pode travar o funcionamento dos “softwares”.

Após estes primeiros passos, recomenda-se que os jornalistas reforcem o nível de segurança dos dispositivos tecnológicos, activando uma palavra-passe com quatro dígitos distintos, que não tenha qualquer relação com dados pessoais, tais como a data de nascimento.

Um maior nível de segurança passa, também, pela actualização frequente dos sistemas operativos, e pela instalação de um serviço antivírus.

Quanto às redes sociais, os RSF aconselham que os jornalistas activem o acesso em dois passos: palavra-passe e identificação facial, por exemplo.

A associação recomenda, ainda, que os profissionais dos “media” não utilizem redes wi-fi suspeitas, e que nunca carreguem em “links” de fontes desconhecidas.

Para os jornalistas que trabalham na área da investigação, a melhor solução é optar por um telemóvel antigo, que não tenha acesso à internet, acrescentam os RSF.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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