Terça-feira, 11 de Maio, 2021
Opinião

O jornalismo no 'fio da navalha'…

por Dinis de Abreu

Se olharmos para o ranking da liberdade de imprensa, elaborado pela organização internacional Repórteres sem Fronteiras (RSF), verificamos que Portugal fecha o top ten em 2020, entre 180 países avaliados, tendo melhorado duas posições desde o ano anterior. É uma classificação confortável, numa lista liderada pela Noruega, onde a vizinha Espanha aparece em 29.º lugar e a Coreia do Norte em último, um exemplo prático das ‘amplas liberdades’ em que se reconhece o PCP.
Este quadro, deveras positivo, contrasta, no entanto, com a controversa perseguição feita a jornalistas pela PSP, a mando de duas magistradas do Ministério Público, com devassa de fontes protegidas pelo sigilo profissional e mesmo de contas bancárias de um dos visados, sem cobertura do mandato de um juiz.
A PGR ainda abriu um inquérito para averiguar a atuação das duas magistradas, que acabou rapidamente arquivado pelo Conselho Superior do Ministério Público, ao qual preside Lucília Gago, não obstante as críticas explícitas do instrutor do processo.
Este episódio inédito, serviu, contudo, para unir os media à volta dos dois jornalistas espiados, reprovando o procedimento das magistradas, numa declaração assinada pelos diretores dos principais meios de comunicação, algo também inédito.
O Sindicato dos Jornalistas prometeu levar o assunto até «outras instâncias, em defesa da liberdade de imprensa», considerando-o «um precedente grave – para jornalistas e cidadãos» –, e que é na realidade.
Talvez a questão ganhe outra notoriedade se o próximo ranking dos RSF vier a refletir, negativamente, o incidente, que mereceu uma capa da revista Sábado, interpretando-o como «Atentado ao Estado de Direito». Até lá, veremos as cenas dos próximos capítulos…
É oportuno evocar esta história nada edificante, até por coincidir com o sobressalto instalado na TDM de Macau, devido à nova diretiva que impõe aos jornalistas a obediência a regras ‘patrióticas’ de ‘amor à China’, o que já motivou a demissão de vários profissionais portugueses, confrontados com o volte-face na politica editorial da estação, estranho aos pressupostos da Lei Básica do território, em vigor até 2049, e que, como recordou o ministro Augusto Santos Silva, «é muito clara na garantia da liberdade de imprensa».

Claro que uma coisa é o que pensa o chefe da diplomacia portuguesa e outra, bem diferente, é o entendimento do chefe do Governo de Macau, Ho Iat Seng, que reagiu com enorme candura, negando que o território esteja a impor restrições à liberdade de imprensa, pois acredita que os ‘media’ são ‘patrióticos’ e ‘amam’ a região administrativa especial chinesa…

Para bom entendedor, meias palavras (‘amorosas’…) bastam na filigrana do discurso oficial, alinhando Macau com a lei de segurança nacional imposta em Hong-Kong, para acabar com qualquer veleidade democrática, intolerável para o regime de Pequim, fazendo ‘tábua rasa’ da Lei Básica, em vigor desde 1997, quando o Reino Unido devolveu à China a soberania no território.

A ‘réplica’ sentida em Macau do ‘sismo’ de Hong-Kong, não deixa margem para grandes dúvidas sobre o destino das liberdades acordadas no quadro da transferência para o domínio chinês.

Afinal, é bom lembrar que a China ocupa um pouco invejável 177.º lugar no índice da liberdade de Imprensa global, elaborado pelos RSF.

A pandemia tem servido de biombo a outros atentados contra a liberdade de imprensa, conforme reconheceu António Guterres, para quem as «restrições temporárias à liberdade de movimento, essenciais para superar a covid-19 […] não devem ser utilizadas como uma desculpa para reprimir a capacidade de os jornalistas fazerem o seu trabalho». Disse-o a propósito do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, lançado pela ONU em 1993 e cuja celebração se aproxima.

Sem dúvida que 2020 foi um ano perigoso para a liberdade de imprensa, transformando o jornalismo numa profissão de risco em várias partes do mundo. A criminalização dos jornalistas, sob os mais variados pretextos, tem feito uma razia.

Segundo o Comité para a Proteção dos Jornalistas, cerca de 250 profissionais em todo o mundo estão detidos. Pior: no ano passado foram assassinados 50 jornalistas, com a particularidade, segundo o relatório dos RSF, de sete em cada dez terem sido vítimas em países em paz e não em zonas de guerra.

O relatório anual da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) confirma a lista negra, com o México a liderá-la pela quarta vez em cinco anos.

Perante este quadro, e mau grado as restrições, Portugal até pode parecer um oásis, propício a um ‘encolher de ombros’ na atuação das procuradoras em relação aos jornalistas. Mas nem a Justiça pode conduzir ‘sem travões’ nem o jornalismo ficar sujeito a dobrar a cerviz e a resistir no ‘fio da navalha’…

 

(Texto publicado originalmente no semanário “Sol”)


Connosco
" The Guardian" evoca o bicentenário e retrata os seus erros e falhas editoriais Ver galeria

O “Guardian” celebrou, recentemente, o seu 200º aniversário. Como tal, o jornal britânico publicou uma edição especial, dando destaque a artigos sobre a importância da liberdade de imprensa, bem como a cartas enviadas por editores da imprensa internacional.

Contudo, por esta ocasião, o “Guardian” quis, ainda, reconhecer as suas falhas ao longo dos anos, assinalando-as como momentos de aprendizagem.

Neste sentido, o “Guardian” começou por recordar que dedicou apenas algumas linhas ao naufrágio do Titanic em 1912; publicou artigos com base em descobertas científicas mal fundamentadas; além de ter anunciado, na década de 1970, a chegada de uma “era do gelo”.

No entanto, conforme referiu o jornal, os seus maiores erros foram cometidos na coluna editorial, já que é nesta secção que as publicações assinalam o principal assunto do dia e “onde os erros ficam marcados para a posteridade”.

Neste âmbito, o “Guardian” recordou que, no final da década de 1860, defendeu a criação de uma Confederação no Sul dos Estados Unidos, criticando, por isso, a presidência de Abraham Lincoln.

Conforme assinalou o jornal, para o “Guardian” daquela época, “Lincoln era uma fraude que tratava a emancipação dos escravos como algo negociável, que isso era um obstáculo da união dos EUA”.

Além disso, num editorial publicado após o assassinato daquele Presidente norte-americano, o jornal referiu-se às suas políticas como “uma série de actos abomináveis contra toda a verdadeira noção de direito constitucional e de liberdade humana”.

"The Guardian" festeja 200 anos com jornalismo na primeira linha Ver galeria

O jornal britânico “ The Guardian” celebrou, recentemente, o seu 200º aniversário.

E, como forma de assinalar a efeméride, vários editores de publicações internacionais enviaram uma mensagem de tributo à publicação.

O então “Manchester Guardian” lançou a sua primeira edição em 5 de Maio de 1821, em resposta ao massacre de Peterloo. Desde esse dia, o título publicou mais de 54 mil edições e milhões de artigos jornalísticos, conquistando alguns prémios pelo caminho, incluindo um Pulitzer.

Para Christian Broughton, director do “Independent”, o “Guardian” soube “aproveitar um massacre para iniciar um movimento”.

“O massacre de Peterloo foi um incidente único”, disse Broughton. “Enquanto houver realidades difíceis sobre as quais reportar, continuaremos a precisar de jornalistas a exercerem as suas funções, e leitores que reconheçam o seu valor”.

Por sua vez, Marty Baron, do “Independent”, elogiou o “Guardian” por ser uma “fonte de inspiração para muitos”.

“Quando se completam 200 anos enquanto instituição mediática, isso significa que se está a fornecer um serviço público de qualidade”, afirmou.

Já Fran Unsworth, directora da BBC News, considerou o marco de 200 anos como uma “conquista extraordinária”.

“A história do ‘Guardian’ é uma tapeçaria rica em jornalismo de investigação, com responsabilização do poder político e em atenção aos interesses dos seus leitores”, rematou Unsworth.

Da mesma forma, o editor-executivo do “El País”, Javier Moreno, expressou a sua admiração pelo “jornal lançado no século XIX, em Manchester”, que se “tornou numa referência mundial”.

Outros jornalistas destacaram, por outro lado, os esforços da publicação para construir um modelo de negócio sustentável.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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18
Mai
Congreso Internacional de Ética de la Comunicación
10:00 @ Universidade Complutense de Madrid
18
Mai
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2021 Collaborative Journalism Summit
09:00 @ Conferência "online" do Journalism Fund
17
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4th International Conference Stereo & Immersive Media 2021
09:30 @ Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias