Terça-feira, 27 de Julho, 2021
Efeméride

Precarizar o Jornalismo é enfraquecer a democracia

José Eduardo Moniz

Quarenta anos passaram, mas a essência do Jornalismo mantém-se. A busca da verdade e a obrigação de a divulgar constituem coordenadas elementares de uma actividade que é seguramente das mais nobres que existem.

Pode ter evoluído a forma de transmitir o que a realidade mostra, ou o que sobre ela se desvenda, mas aqueles que são os pressupostos do Jornalismo sério e independente permanecem insusceptíveis de qualquer discussão. 

Mais do que nunca, com a massificação da Informação que os meios digitais introduziram, a necessidade de um olhar atento, frontal, fiscalizador e sem medo da denúncia impõe-se. 

A separação do trigo e do joio, da Notícia e da propaganda, da verdade e da mentira, do que é real e do que se inventa nunca se revelou tão essencial e tão desesperadamente importante.

O Clube de Imprensa nasceu era eu um jovem jornalista a dar os primeiros passos em Televisão, depois de vários anos a trabalhar no Diario Popular. A intenção principal era (e é) prestigiar o Jornalismo e os que o exercem.

Tive o privilégio de trabalhar numa Redacção onde conviviam alguns dos melhores jornalistas de que Portugal dispunha, na altura, e que, já antes do 25 de Abril, constituía alfobre de gente corajosa na diferença, sem medo na escrita e atrevida no habilidoso desafio de ludibriar a censura.


Se, na essência, hoje, os imperativos jornalísticos são os mesmos, na prática, aquilo com que os profissionais actualmente se defrontam, é um ambiente recheado de condicionamentos dramáticos. 


As empresas que se dedicam à Comunicação Social, de uma forma geral, sofrem constrangimentos vários, o menos importante dos quais não é certamente a dimensão de um mercado cada vez mais exíguo e empobrecido. O enfraquecimento dessas empresas arrasta situações de inconstância accionista, atrai investidores dissociados do meio e gera bolsas de precariedade cada vez mais amplas. 

A digitalização abalou todo o sistema como uma faca quente a cortar manteiga, vulnerabilizando-o no confronto com a voracidade do mercado. As exigências estrangulantes e as pressões várias dos sectores sociais, económicos e políticos perante a incapacidade reguladora do Estado fizeram (ou fazem) o resto. O velho modelo, imprevidente na percepção de que o futuro chega todas as manhãs, desabou, incapaz de se renovar perante o imediatismo transportado nas asas da tecnologia.

Sou dos que confiam na infinita capacidade humana de se reinventar.

Nessa perspectiva, acreditar na percepção de que o Jornalismo que aposta na seriedade e luta pela verdade é uma ferramenta essencial numa sociedade democrática e que a credibilidade tem um valor real, significativo e diferenciador no mercado, deveria ser inspirador para investidores, empresários e profissionais. 

A aposta na investigação, a potenciação da arma que a curiosidade como instrumento de trabalho representa, a coragem de arrostar quaisquer interesses, por mais poderosos ou subterrâneos que sejam, continuam, hoje como ontem, a assumir-se como determinantes para o exercício da missão de informar, com honestidade, com frontalidade e com transparência.

Só tem medo do Jornalismo quem tem algo a ocultar.

Só receia um Jornalista quem tem medo da verdade.

Precarizar o Jornalismo é uma maneira de enfraquecer a democracia.

Connosco
Conversas com jornalistas para promover a literacia mediática Ver galeria

O trabalho editorial é, por vezes, um mistério para as audiências que não entendem o processo adjacente, e que tendem a desumanizar a figura do jornalista, tomando-o como alguém quase “robotizado”, que prima pela neutralidade e objectividade, sem nunca se envolver com as histórias que publica.

Este tipo de percepção cria, assim, um distanciamento entre os profissionais dos “media” e os restantes cidadãos, que encaram as reportagens com cepticismo e desconfiança, criticando o papel do jornalista na sociedade.

Perante este cenário, os repórteres McArdle Hankin e Lauren Peace decidiram lançar o projecto “Local Live(s) Project”, que convida os jornalistas locais a falarem do seu percurso profissional, com o objectivo de fomentar uma relação de confiança com o público e promover a literacia mediática informal.

Em entrevista para a “Columbia Journalism Review”, os criadores da iniciativa explicaram que tudo começou com conversas informais, em que os jornalistas subiam a palco para contar as peripécias do trabalho jornalístico, respondendo às questões colocadas.

Mais tarde, com a pandemia, os eventos passaram a ser promovidos “online”, através de videoconferências.

Rússia intensifica restrições ao jornalismo independente Ver galeria

As autoridades russas classificaram o “site” de jornalismo independente “Proekt” como “indesejável”, banindo a actividade da plataforma a nível nacional, e atribuindo aos seus colaboradores o estatuto de “agentes estrangeiros”, denunciou o Comité para a Protecção dos Jornalistas (CPJ).

Desta forma, quaisquer relações comerciais ou pessoais com o “site” passaram a ser consideradas ilegais.

“Ao banirem o ‘Proekt” e ao adicionarem novos nomes à lista de ‘agentes estrangeiros’, as autoridades russas parecem querer silenciar as últimas vozes independentes do país”, afirmou Gulzona Said, coordenadora do CPJ, acrescentando que “as intenções do governo deveriam ser revistas, de forma a proteger a liberdade de imprensa”.

Recentemente, foram introduzidas emendas ao código criminal russo, que prevêm penas de prisão, até quatro anos, para os jornalistas que colaborem com “media” indesejados, ou de até seis anos, para os profissionais que forem considerados culpados de “organizar essas actividades”.

Da mesma forma, os jornalistas ou “media” classificados como “agentes estrangeiros” podem enfrentar diversas restrições a nível financeiro.

De acordo com Mikhail Rubin, antigo editor-executivo da publicação, estas medidas são, provavelmente, uma resposta às investigações realizadas pelo título sobre o Presidente russo, Vladimir Putin, e o seu círculo mais próximo.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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No Brasil, começou esta aventura, com o Dinis de Abreu!! Foi há 40 anos, estava ele no Diário de Noticias e eu no Correio Manhã, quando resolvemos, com mais uma bela equipa de jornalistas, fundar o Clube Português de Imprensa. Completamente independente e sem qualquer cor politica, o Clube cedo se desenvolveu com reuniões ,almoços, palestras, etc. Tivemos o privilégio de ter os maiores nomes da sociedade civil e política portuguesa...
A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
A ideia fundadora do CPI, pelo menos a que justificou a minha adesão plena à iniciativa, foi o entendimento de que cada media é uma comunidade de interesses convergentes. A dos editores da publicação, a dos produtores, a dos que comercializam. Isto é, uma ideia cooperativa de acionistas, jornalistas e outros trabalhadores. E, obviamente, uma ideia primeira de independência e de liberdade. Esta ideia causou, há quarenta anos, algum...
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