Sábado, 8 de Maio, 2021
Efeméride

O Clube como plataforma aberta e fórum de debate enriquecedor


Graça Franco

Passaram 40 anos e o que levou à formação do Clube de Imprensa mantém-se estranhamente actual. O sector que ansiava pela possibilidade de uma auto-regulação eficaz continua a identificar o problema, da sua falta, como uma das maiores falhas impeditivas da melhoria da qualidade da liberdade de expressão e pluralismo e das respectivas consequências sobre a qualidade da democracia. O regime que à data da fundação dava ainda os seus primeiros passos, minados pelo fantasma de 48 anos de tentativas de manipulação, silenciamento e censura.

Além do Sindicato dos Jornalistas cuja carga ideológica era, ao tempo, incrivelmente limitadora surgiam, no terreno, vários grupos de jornalistas preocupados em impor novas estruturas de debate, designadamente,  sobre os temas que envolviam a independência do jornalismo, dos poderes políticos e económicos, a qualidade, e a necessidade de públicos e privados acabarem a prestar verdadeiro serviço público. Isenção, objectividade, crise financeira deram mote a múltiplas tertúlias de incrível valor para a melhoria da vida democrática e combate ao corporativismo instalado.

Nessa altura eu estava a dar os primeiros passos no jornalismo, mas partilhava com os mais velhos essas preocupações. Fui assim desafiada pelos vários grupos e tornei-me sócia fundadora do Clube de Imprensa e do Clube de Jornalistas, nascidos praticamente ao mesmo tempo, e uns anos mais tarde do próprio Observatório de Imprensa. Sendo instituições, todas elas de utilidade pública, o Clube Português de Imprensa acabou por se distinguir pela positiva como plataforma aberta aos que não sendo jornalistas pertenciam a órgãos de gestão ou propriedade de jornais. 


Essa coexistência entre a visão de gestores e jornalistas acabou por dar ao Clube uma característica muito própria, tornando-se um fórum de debate particularmente enriquecedor. Desde o início o Clube notabilizou-se em duas vertentes de intervenção: a promoção de encontros debate com as chamadas “fontes de informação”, permitindo a reflexão sobre pontos de interesse geral ou especial complexidade, geralmente no registo de “off record” e a promoção de jornalismo de qualidade com a atribuição dos prémios em várias categorias, a que mais recentemente se juntou o Prémio Carreira. Outros se lhe seguiram com sucesso, mas é justo atribuir ao CPI o pioneirismo absoluto na matéria.

Tivemos, nesta longa actividade, uma linha de comum continuidade, sem a qual o Clube em vez de mostrar uma renovada vitalidade nos últimos anos certamente já teria desaparecido. A inestimável disponibilidade e dedicação do seu director de sempre, o nosso Dinis de Abreu,  que acabou a prolongar a sua passagem pela direcção do Diário de Noticias, o grande jornal de referência na altura, nos mandatos sistematicamente renovados por aclamação e louvor como dirigente do CPI.

Os últimos anos foram ricos de parcerias com o Automóvel Clube de Portugal (parceiro de quase sempre), o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário,  que permitiram ao CPI uma dimensão de convívio cultural particularmente simpático. Ao público clássico de jornalistas e gestores da comunicação vieram somar-se os interessados pelos vários temas em debate. Uma mais-valia.

Num ponto, contudo, falhamos: não se construiu o consenso necessário ao avanço que a maioria defendia para a constituição de uma estrutura do  tipo ordem profissional ( o que eu não lamento, especialmente porque sempre fiz parte da minoria que via a criação da Ordem com algum cepticismo). Como segundo insucesso reconheçamos que não se conseguiu o rejuvenescimento necessário a garantir o futuro da estrutura.

É esse o grande desafio do momento: não deixar que o clube envelheça com os seus criadores. Eu que estava a dar os meus primeiros passados no jornalismo estou agora a aproximar-me dos últimos na profissão. O mundo mudou, entretanto, mas a necessidade de continuar a debater as questões éticas que se impõem e a função que os media são chamados a desempenhar, não só não acabaram como ganharam contornos de ainda muito maior importância. 

No mundo digital, “os cães do guarda da democracia” são mais do que nunca necessários e, convenhamos, são cada vez menos. Os tempos que vivemos no início desta aventura na perspectiva nacional podiam designar-se como tempos interessantes, mas os que actualmente enfrentamos são, na perspectiva da velha expressão chinesa,  tempos  muitíssimo mais “interessantes”. 

Devemos estar gratos por podermos fazer parte destes tempos e seria muito bom que, agora, que os que criaram o CPI sintam  mais do que nunca a plenitude da sua necessidade e utilidade,  não deixando de lutar pelo seu rejuvenescimento. Admitamos com humildade que há entre a nova geração gente infinitamente mais preparada para analisar e construir o futuro. Um futuro que, em múltiplos casos, já se fez presente.

*Presidente da Assembleia Geral do CPI


Connosco
"The Guardian" festeja 200 anos com jornalismo na primeira linha Ver galeria

O jornal britânico “ The Guardian” celebrou, recentemente, o seu 200º aniversário.

E, como forma de assinalar a efeméride, vários editores de publicações internacionais enviaram uma mensagem de tributo à publicação.

O então “Manchester Guardian” lançou a sua primeira edição em 5 de Maio de 1821, em resposta ao massacre de Peterloo. Desde esse dia, o título publicou mais de 54 mil edições e milhões de artigos jornalísticos, conquistando alguns prémios pelo caminho, incluindo um Pulitzer.

Para Christian Broughton, director do “Independent”, o “Guardian” soube “aproveitar um massacre para iniciar um movimento”.

“O massacre de Peterloo foi um incidente único”, disse Broughton. “Enquanto houver realidades difíceis sobre as quais reportar, continuaremos a precisar de jornalistas a exercerem as suas funções, e leitores que reconheçam o seu valor”.

Por sua vez, Marty Baron, do “Independent”, elogiou o “Guardian” por ser uma “fonte de inspiração para muitos”.

“Quando se completam 200 anos enquanto instituição mediática, isso significa que se está a fornecer um serviço público de qualidade”, afirmou.

Já Fran Unsworth, directora da BBC News, considerou o marco de 200 anos como uma “conquista extraordinária”.

“A história do ‘Guardian’ é uma tapeçaria rica em jornalismo de investigação, com responsabilização do poder político e em atenção aos interesses dos seus leitores”, rematou Unsworth.

Da mesma forma, o editor-executivo do “El País”, Javier Moreno, expressou a sua admiração pelo “jornal lançado no século XIX, em Manchester”, que se “tornou numa referência mundial”.

Outros jornalistas destacaram, por outro lado, os esforços da publicação para construir um modelo de negócio sustentável.

Hillary contra países autoritários que utilizam "media" para propaganda Ver galeria

Por ocasião do 200º aniversário do “Guardian”, a antiga candidata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, concedeu uma entrevista ao jornal britânico, para debater a importância do combate à desinformação.

Conforme recordou o “Guardian”, Hillary Clinton foi candidata presidencial numa altura em que as campanhas “fake news” começaram a ganhar força.

Aliás, de acordo com várias fontes jornalísticas, a campanha de Clinton foi prejudicada por um movimento de Moscovo, que começou a disseminar notícias falsas sobre o passado da candidata nas redes sociais.

Cinco anos depois -- e apesar da mudança de presidência dos EUA-- as campanhas de desinformação e as “teorias da conspiração” ganharam ainda mais força, ameaçando a segurança e o bem-estar dos cidadãos.

Posto isto, Hillary Clinton defende que os “media” têm que alterar a sua estratégia e deixar de “defender que a verdade se encontra algures no meio”, enquanto se preparam para enfrentar o poder das redes sociais.

“As empresas tecnológicas são, agora, muito mais poderosas do que qualquer meio de comunicação tradicional”, reiterou a antiga primeira-dama dos EUA. “Acho que tem de haver um reconhecimento internacional dos perigos da desinformação, bem como da questão do monopólio”, continuou, referindo-se, em concreto, ao caso do Facebook.

Assim, Clinton espera que o actual governo dos EUA imponha novas directrizes a estas empresas.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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Opinião
Se olharmos para o ranking da liberdade de imprensa, elaborado pela organização internacional Repórteres sem Fronteiras (RSF), verificamos que Portugal fecha o top ten em 2020, entre 180 países avaliados, tendo melhorado duas posições desde o ano anterior. É uma classificação confortável, numa lista liderada pela Noruega, onde a vizinha Espanha aparece em 29.º lugar e a Coreia do Norte em último, um exemplo...
Limites da liberdade de expressão
Francisco Sarsfield Cabral
Na internet não deve continuar a prevalecer a lei da selva. O que não é um apelo à censura, muito menos se ela for praticada pelos gestores das empresas tecnológicas. Cabe à política, e não às empresas, assegurar o bem comum. Quem escreve na internet deverá sujeitar-se às condições jurídicas que não permitam atos que são considerados crimes nos media tradicionais.Não há...
Venham mais 40!...
Carlos Barbosa
No Brasil, começou esta aventura, com o Dinis de Abreu!! Foi há 40 anos, estava ele no Diário de Noticias e eu no Correio Manhã, quando resolvemos, com mais uma bela equipa de jornalistas, fundar o Clube Português de Imprensa. Completamente independente e sem qualquer cor politica, o Clube cedo se desenvolveu com reuniões ,almoços, palestras, etc. Tivemos o privilégio de ter os maiores nomes da sociedade civil e política portuguesa...
A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
A ideia fundadora do CPI, pelo menos a que justificou a minha adesão plena à iniciativa, foi o entendimento de que cada media é uma comunidade de interesses convergentes. A dos editores da publicação, a dos produtores, a dos que comercializam. Isto é, uma ideia cooperativa de acionistas, jornalistas e outros trabalhadores. E, obviamente, uma ideia primeira de independência e de liberdade. Esta ideia causou, há quarenta anos, algum...
Agenda
11
Mai
A Inteligência Artificial e o Futuro do Jornalismo
14:00 @ Palácio Nacional da Ajuda
18
Mai
Congreso Internacional de Ética de la Comunicación
10:00 @ Universidade Complutense de Madrid
18
Mai
19
Mai
2021 Collaborative Journalism Summit
09:00 @ Conferência "online" do Journalism Fund