Terça-feira, 27 de Julho, 2021
Media

Quando se equaciona a crise das democracias à luz da crise dos "media"

A situação delicada dos “media” costuma ser abordada segundo uma narrativa comum: à crise financeira de 2008, que afectou todos os sectores da sociedade, aliou-se a descredibilização da imprensa e os ataques, constantes, ao papel dos jornalistas, o que pôs em risco a sobrevivência da imprensa.

Nessa narrativa, a era digital é “acusada” de ameaçar o modelo de negócio dos jornais, que tiveram dificuldade em obter receitas, já que os artigos noticiosos passaram a estar disponíveis, gratuitamente, na internet.

A deterioração da imprensa não é, contudo, um fenómeno recente, reiterou o jornalista Jacob Weisberg, num artigo publicado no “Foreign Affairs” e reproduzido nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM -- associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

 Da mesma forma, a “saúde” das democracias está, há vários anos, sob ameaça, já que uma imprensa mais frágil pressupõe a debilitação da pluralidade dos “media” e, consequentemente, um sufrágio menos informado.

Numa tentativa de traçar quais serão os próximos passos dos “media” , Weisberg tratou de recolher testemunhos sobre as histórias dos jornais anglo-americanos, apontando alguns casos de sucesso e  “fazendo luz” sobre uma possível fórmula para reverter a crise do sector.

Como recorda Weisberg, o jornalismo atingiu a sua “época dourada” entre as décadas de 1960 e 1970. Durante este período os jornalistas eram encarados como verdadeiros heróis, os detentores do quarto poder, que esmiuçavam questões disruptivas como a Guerra do Vietname.


Os repórteres alcançaram, assim,  um certo prestígio.


Na década de 1980, porém, este fenómeno teve um efeito “boomerang”, com as forças políticas a começarem a questionar as acções dos “media”


Tudo isto dificultou a gestão das redacções nas décadas seguintes. Se, por um lado, os editores tinham que lidar com os egos dos colaboradores de maior prestígio, por outro, o Governo começou a minar a credibilidade dos jornais.


Ao mesmo tempo, a emergência da Internet e das redes sociais fez com que gerir um jornal passasse a ser algo mais abstracto, uma luta em todas as frentes. 


Weisberg toma o exemplo de Alan Rusbridger, que descreveu as suas experiências enquanto editor de um título, num período de pressão e descontrolo crescentes. 


Rusbridger assumiu o leme do “Guardian” em 1995 e comprometeu-se com a Internet, mesmo quando não era claro o que isso significaria. Em vez de se concentrar na potencial perturbação do negócio, Rusbridger viu uma oportunidade para o jornalismo.  


O “Guardian”, originalmente sediado em Manchester, e apenas um dos dez principais jornais britânicos em termos de circulação, podia, agora, chegar a um público global. 


Como responsável de negócios, a reputação da Rusbridger é, no entanto, mais questionável. O jornalista foi ridicularizado por assumir que, enquanto não houvesse uma forma clara de um jornal ser jornalisticamente sólido e financeiramente rentável, a empresa teria de viver com grandes perdas. 


Mas, em retrospectiva, considera o autor, pode dizer-se que a sua visão foi justificada. Hoje, o “Guardian” é um dos títulos mais importantes do mundo, o que não teria sido possível caso Rusbridger não tivesse dedicado os seus esforços à Internet da forma como o fez. 


Ora, se no final da década de 90 a prosperidade dos jornais dependia da inovação e do sacrifício, hoje, o sucesso de um título assenta na sua qualidade e na profundidade com que esmiúça o panorama político.


Isto porque o insultos do Trump aos “media” fizeram com que os leitores começassem a demonstrar uma maior disposição para pagarem por conteúdos fidedignos.


Os insultos verbais nocivos do Trump aos “media”, tiveram um efeito quase contraditório, fazendo com que as audiências passassem a prezar melhor o jornalismo.


Para Weisberg, é ainda demasiado cedo para dizer que a crise do jornalismo e da credibilidade são “águas passadas”.


Ainda não existe um modelo empresarial replicável para todos os “media”, mas, o que parece estar a funcionar é uma variedade de meios híbridos, sem fins lucrativos, que preenchem a lacunas de cobertura.


O que as empresas dos jornais mais inovadores parecem ter em comum é alguma forma de apoio financeiro, combinado com a capacidade de agir.


Assim, para Weisberg, cada meio tem de encontrar o seu nicho para sobreviver, razão pela qual a próxima geração de gestores de “media” terá, não só, de dominar a filosofia moral, mas, igualmente, o mundo do negócio.



Leia o artigo original em Cuadernos de Periodistas”

Connosco
Conversas com jornalistas para promover a literacia mediática Ver galeria

O trabalho editorial é, por vezes, um mistério para as audiências que não entendem o processo adjacente, e que tendem a desumanizar a figura do jornalista, tomando-o como alguém quase “robotizado”, que prima pela neutralidade e objectividade, sem nunca se envolver com as histórias que publica.

Este tipo de percepção cria, assim, um distanciamento entre os profissionais dos “media” e os restantes cidadãos, que encaram as reportagens com cepticismo e desconfiança, criticando o papel do jornalista na sociedade.

Perante este cenário, os repórteres McArdle Hankin e Lauren Peace decidiram lançar o projecto “Local Live(s) Project”, que convida os jornalistas locais a falarem do seu percurso profissional, com o objectivo de fomentar uma relação de confiança com o público e promover a literacia mediática informal.

Em entrevista para a “Columbia Journalism Review”, os criadores da iniciativa explicaram que tudo começou com conversas informais, em que os jornalistas subiam a palco para contar as peripécias do trabalho jornalístico, respondendo às questões colocadas.

Mais tarde, com a pandemia, os eventos passaram a ser promovidos “online”, através de videoconferências.

Rússia intensifica restrições ao jornalismo independente Ver galeria

As autoridades russas classificaram o “site” de jornalismo independente “Proekt” como “indesejável”, banindo a actividade da plataforma a nível nacional, e atribuindo aos seus colaboradores o estatuto de “agentes estrangeiros”, denunciou o Comité para a Protecção dos Jornalistas (CPJ).

Desta forma, quaisquer relações comerciais ou pessoais com o “site” passaram a ser consideradas ilegais.

“Ao banirem o ‘Proekt” e ao adicionarem novos nomes à lista de ‘agentes estrangeiros’, as autoridades russas parecem querer silenciar as últimas vozes independentes do país”, afirmou Gulzona Said, coordenadora do CPJ, acrescentando que “as intenções do governo deveriam ser revistas, de forma a proteger a liberdade de imprensa”.

Recentemente, foram introduzidas emendas ao código criminal russo, que prevêm penas de prisão, até quatro anos, para os jornalistas que colaborem com “media” indesejados, ou de até seis anos, para os profissionais que forem considerados culpados de “organizar essas actividades”.

Da mesma forma, os jornalistas ou “media” classificados como “agentes estrangeiros” podem enfrentar diversas restrições a nível financeiro.

De acordo com Mikhail Rubin, antigo editor-executivo da publicação, estas medidas são, provavelmente, uma resposta às investigações realizadas pelo título sobre o Presidente russo, Vladimir Putin, e o seu círculo mais próximo.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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Venham mais 40!...
Carlos Barbosa
No Brasil, começou esta aventura, com o Dinis de Abreu!! Foi há 40 anos, estava ele no Diário de Noticias e eu no Correio Manhã, quando resolvemos, com mais uma bela equipa de jornalistas, fundar o Clube Português de Imprensa. Completamente independente e sem qualquer cor politica, o Clube cedo se desenvolveu com reuniões ,almoços, palestras, etc. Tivemos o privilégio de ter os maiores nomes da sociedade civil e política portuguesa...
A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
A ideia fundadora do CPI, pelo menos a que justificou a minha adesão plena à iniciativa, foi o entendimento de que cada media é uma comunidade de interesses convergentes. A dos editores da publicação, a dos produtores, a dos que comercializam. Isto é, uma ideia cooperativa de acionistas, jornalistas e outros trabalhadores. E, obviamente, uma ideia primeira de independência e de liberdade. Esta ideia causou, há quarenta anos, algum...
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