Terça-feira, 27 de Julho, 2021
Media

Onde se defende em Espanha o jornalismo "cor-de-rosa"

O jornalismo “cor-de-rosa” é irresistível para o público, que consome os seus conteúdos em qualquer formato. Os “fait divers” abordam temas que são transversais à sociedade, tais como a morte, o amor, o ciúme, a ambição e o medo que despertam empatia quase imediata.

Este tipo de jornalismo é, contudo, especialmente criticado, agora que as redes sociais abriram um fórum de discussão e de críticas entre profissionais.

 Manuel Marlasca trabalha como repórter “cor-de-rosa” há mais de 30 anos, e é autor de um artigo sobre a descredibilização deste tipo de trabalho, publicado nos "Cuadernos de Periodistas" , uma edição da APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

 Durante os anos da ditadura franquista, os jornais generalistas viviam de crónicas criminais, "porque não se podia falar de política”. Com o fim do regime de Franco, a liberdade de imprensa chegou e as páginas dos “media” encheram-se de assuntos parlamentares, embora o “cor-de-rosa” continuasse a ocupar espaço. 

Hoje, o “fait divers” mobiliza um importante segmento de leitores, o que, em certa medida, decepciona os responsáveis editoriais, que gostariam de valorizar mais os assuntos sérios.


Marlasca reconhece que há motivos para criticar as reportagens “cor-de-rosa” mas considera que quem o faz, muitas vezes, não tem a experiência nem o estatuto para o fazer. O autor destaca que, com o aparecimento da televisão, muito conteúdo informativo se começou a confundir com entretenimento.Os jornalistas passaram a revelar informações litigiosas e perderam a consideração pelos envolvidos, em prole das audiências.

 

“É nos casos que envolvem menores que o jornalista responsável pela cobertura do evento deve praticar a autocensura e ser exigente consigo mesmo, estabelecendo um compromisso com a factualidade”, reitera Marlasca.

 

O autor considera, porém, que os jornalistas da imprensa “tablóide” desempenham tarefas não partilhadas por outros profissionais, ao procurarem dar voz “à dor das famílias”, com “respeito e empatia”. “Estamos disponíveis a qualquer hora e em qualquer dia da semana, porque a morte e a tragédia não tiram férias”.

 

Além disso, esses jornalistas trabalham, directamente, com “fontes extremamente frágeis e exigentes, que não toleram deslizes na relação estabelecida”. “Nenhum outro género jornalístico exige tantos cuidados. Nenhuma outra manchete ou exclusivo pode prejudicar, da mesma forma, uma investigação judicial ou a vida de um suspeito”.

 

“Ser um bom repórter requer muita empatia. Com as fontes, para entender o que está em jogo quando têm acesso a revelações, e com as vítimas, que não deveriam ter que passar por uma segunda vitimização”. Marlasca sublinha, porém, que devem ser impostos limites, visto que, “o profissionalismo exige distância”. 

O jornalista reconhece, ainda, que é essencial ganhar a confiança das autoridades, que, por norma, não têm simpatia por esses profissionais. “Conquistar as forças de autoridade pode demorar anos, mas para perder o seu apoio, basta um pequena incongruência”.


O autor considera, assim, que os bons jornalistas envolvidos em termos “cor-de-rosa” são “exemplares excepcionais na fauna do jornalismo, verdadeiras aves raras”. E sublinha que “poucos reconhecem a escravidão de trabalhar para um género que é, constantemente, questionado e que exige mais dedicação e zelo do que qualquer outro. Muito antes de haver verificação de factos, nós jornalistas de eventos, fomos forçados a conferir as histórias que contamos contra duas, três, ou mais fontes, devido à sensibilidade do conteúdo”.

Marlasca lamenta, então, que os directores dos “media” não contribuam para a “conservação da espécie”, ao substituir os repórteres especializados por “mão-de-obra mais barata”, esperando que o produto final não sofra. “Somos caros, veteranos e dispomos de um punhado de códigos de outros tempos, que não se encaixam bem em redacções modernas”.

Leia a peça na íntegra em Cuadernos de Periodistas


Connosco
Conversas com jornalistas para promover a literacia mediática Ver galeria

O trabalho editorial é, por vezes, um mistério para as audiências que não entendem o processo adjacente, e que tendem a desumanizar a figura do jornalista, tomando-o como alguém quase “robotizado”, que prima pela neutralidade e objectividade, sem nunca se envolver com as histórias que publica.

Este tipo de percepção cria, assim, um distanciamento entre os profissionais dos “media” e os restantes cidadãos, que encaram as reportagens com cepticismo e desconfiança, criticando o papel do jornalista na sociedade.

Perante este cenário, os repórteres McArdle Hankin e Lauren Peace decidiram lançar o projecto “Local Live(s) Project”, que convida os jornalistas locais a falarem do seu percurso profissional, com o objectivo de fomentar uma relação de confiança com o público e promover a literacia mediática informal.

Em entrevista para a “Columbia Journalism Review”, os criadores da iniciativa explicaram que tudo começou com conversas informais, em que os jornalistas subiam a palco para contar as peripécias do trabalho jornalístico, respondendo às questões colocadas.

Mais tarde, com a pandemia, os eventos passaram a ser promovidos “online”, através de videoconferências.

Rússia intensifica restrições ao jornalismo independente Ver galeria

As autoridades russas classificaram o “site” de jornalismo independente “Proekt” como “indesejável”, banindo a actividade da plataforma a nível nacional, e atribuindo aos seus colaboradores o estatuto de “agentes estrangeiros”, denunciou o Comité para a Protecção dos Jornalistas (CPJ).

Desta forma, quaisquer relações comerciais ou pessoais com o “site” passaram a ser consideradas ilegais.

“Ao banirem o ‘Proekt” e ao adicionarem novos nomes à lista de ‘agentes estrangeiros’, as autoridades russas parecem querer silenciar as últimas vozes independentes do país”, afirmou Gulzona Said, coordenadora do CPJ, acrescentando que “as intenções do governo deveriam ser revistas, de forma a proteger a liberdade de imprensa”.

Recentemente, foram introduzidas emendas ao código criminal russo, que prevêm penas de prisão, até quatro anos, para os jornalistas que colaborem com “media” indesejados, ou de até seis anos, para os profissionais que forem considerados culpados de “organizar essas actividades”.

Da mesma forma, os jornalistas ou “media” classificados como “agentes estrangeiros” podem enfrentar diversas restrições a nível financeiro.

De acordo com Mikhail Rubin, antigo editor-executivo da publicação, estas medidas são, provavelmente, uma resposta às investigações realizadas pelo título sobre o Presidente russo, Vladimir Putin, e o seu círculo mais próximo.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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No Brasil, começou esta aventura, com o Dinis de Abreu!! Foi há 40 anos, estava ele no Diário de Noticias e eu no Correio Manhã, quando resolvemos, com mais uma bela equipa de jornalistas, fundar o Clube Português de Imprensa. Completamente independente e sem qualquer cor politica, o Clube cedo se desenvolveu com reuniões ,almoços, palestras, etc. Tivemos o privilégio de ter os maiores nomes da sociedade civil e política portuguesa...
A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
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