Sexta-feira, 30 de Julho, 2021
Media

“Circo mediático” afecta credibilidade do jornalismo

O exercício do jornalismo implica responsabilidade social, considera Emelina Fernandéz Soriano, académica especialista em “media”. Num artigo publicado nos “Cuardenos de Periodistas” -- editado pela APM, com a qual o CPI tem parceria-- a autora  fez referência ao tratamento informativo de acontecimentos trágicos e dolorosos,  violência masculina,  que envolvem, não poucas vezes, menores. Casos que demonstram uma tendência crescente para o sensacionalismo.

Fernandéz Soriano reitera que a veracidade e o rigor são máximas inerentes a todo o trabalho jornalístico, e que a sua realização deve procurar o equilíbrio necessário com outros direitos fundamentais, constitucionalmente protegidos. 

Enquanto foi presidente do Conselho Audiovisual da Andaluzia (CAA), entre Março de 2011 e Julho de 2019, Emelina Fernandéz Soriano diz ter verificado a deterioração progressiva  do relato de tragédias pessoais, e o abuso do sensacionalismo em detrimento do rigor, moderação e responsabilidade inerentes ao bom desempenho profissional. 


A especialista destaca a banalização da informação no tratamento da violência de género e da transmissão de estereótipos sexistas. A cobertura jornalística de noticiários de televisões privadas chegou, mesmo, a violar as leis de protecção de menores, ao transmitir informações sobre a identidade das vítimas.

Outra agravante, diz, é a extensão da espetacularização, típica dos tablóides aos espaços informativos, normalmente caracterizados por um maior rigor e pela não divulgação de notícias não confirmadas. 


Todos os códigos deontológicos e regras éticas básicas exigem rigor, precisão e veracidade no exercício da função de informar sobre assuntos de interesse geral, especialmente quando se trata de assuntos delicados e que fazem das pessoas anónimas o objecto e sujeito da informação. É nestas ocasiões que se torna necessário um exercício particularmente responsável e escrupuloso do jornalismo, que não viole os direitos das pessoas envolvidas.

Para que se garantam os valores jornalísticos, Fernández Soriano defende a criação um organismo regulador independente para o sector audiovisual em Espanha. No país, as competências em matéria de conteúdos audiovisuais são atribuídas à Comissão Nacional de Mercados e Concorrência (CNMC).A eficiência desses conselhos é relativa, pois não podem agir contra estações nacionais de rádio ou de televisão.

Aquela docente universitária diz-se, ainda, consciente da relutância que a profissão jornalística tem em relação à regulamentação, devido à desconfiança ou medo de medidas de censura. 

O jornalismo deve, então, ser protegido e o “circo mediático” evitado, apela, lembrando que a profissão está contaminada por más práticas que levam à produção de conteúdos semelhantes aos das redes sociais e aos programas de entretenimento.

Leia o artigo na íntegra em Cuaderno de Periodistas
Com ilustração de Inquistr


Connosco
Relatório do Obercom analisa tendências futuras dos “media” Ver galeria

Com a pandemia, a maioria dos jornalistas passou a ter que trabalhar em regime remoto, abandonando o espaço de redacção e o contacto directo com colegas de profissão.

Isto fez com que os colaboradores dos “media” passassem a depender dos seus dispositivos electrónicos para assegurar a comunicação com os editores, além de conjugarem a vida pessoal e profissional num único local.

Se, por um lado, alguns dos jornalistas apreciaram a flexibilidade deste novo regime, por outro lado, um número considerável de profissionais disse estar descontente com o “continuum” família/trabalho.

O caso da imprensa portuguesa foi, agora, analisado por um relatório do “Obercom”, cujos investigadores quiseram perceber qual a opinião dos jornalistas nacionais, quanto à possibilidade de o teletrabalho se transformar no “novo normal”.

O relatório analisou, ainda, outras questões relacionadas com o futuro do jornalismo português, como a diversidade nas redacções e “atracção e retenção de talentos em tempos de incerteza”.

Para este relatório foram consideradas as respostas de 98 inquiridos.

De acordo com o estudo, em Portugal, o teletrabalho é percepcionado como algo que teve consequências negativas para o jornalismo, em particular no que diz respeito ao trabalho colaborativo (75% dos inquiridos discordam que o trabalho remoto tenha facilitado a construção e manutenção de relações em equipa). Neste sentido, os inquiridos dizem, ainda, ter sentido quebras na sua eficiência e criatividade.

A percepção sobre os efeitos negativos do teletrabalho está, também, em concordância com a vontade expressa pelos jornalistas de regressar às redacções.

Dicas (possíveis) para a protecção “online” dos jornalistas Ver galeria

Após a revelação do “Projecto Pegasus”, e de que cerca de 180 jornalistas poderiam ter sido vigiados por um “software” móvel, a associação Repórteres sem Fronteiras (RSF) publicou uma lista de recomendações para profissionais dos “media”, com o objectivo de garantir um maior nível de segurança para todos os potenciais visados.

Neste sentido, os RSF recomendaram que os profissionais incluídos na lista de jornalistas vigiados trocassem, de imediato, os seus dispositivos móveis, para continuarem a comunicar sem que as suas informações pessoais fossem partilhadas com terceiros.

Da mesma forma, a associação recordou a importância de desconectar todas as contas das redes sociais, bem como da alteração de palavras-passe.

Caso não seja possível trocar de “smartphone”, os RSF aconselham os jornalistas a reiniciarem os dispositivos, já que isto pode travar o funcionamento dos “softwares”.

Após estes primeiros passos, recomenda-se que os jornalistas reforcem o nível de segurança dos dispositivos tecnológicos, activando uma palavra-passe com quatro dígitos distintos, que não tenha qualquer relação com dados pessoais, tais como a data de nascimento.

Um maior nível de segurança passa, também, pela actualização frequente dos sistemas operativos, e pela instalação de um serviço antivírus.

Quanto às redes sociais, os RSF aconselham que os jornalistas activem o acesso em dois passos: palavra-passe e identificação facial, por exemplo.

A associação recomenda, ainda, que os profissionais dos “media” não utilizem redes wi-fi suspeitas, e que nunca carreguem em “links” de fontes desconhecidas.

Para os jornalistas que trabalham na área da investigação, a melhor solução é optar por um telemóvel antigo, que não tenha acesso à internet, acrescentam os RSF.

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