Terça-feira, 27 de Julho, 2021
Media

O jornalismo satírico como contraponto em regimes autoritários

A sátira ou a caricatura  estão frequentemente entre os primeiros alvos dos regimes autoritários , apostados em silenciar a liberdade de expressão.
A jornalista Amina Boubia, considera, num artigo para o Global Investigative Journalism Network que não se trata de um mero acaso: uma sátira bem contada pode comunicar verdades, desafiar tabus e entreter o público de uma forma mais acessível e envolvente do que o jornalismo convencional, de cara séria.

Os programas satíricos apelam ao público mais jovem, que tem mais probabilidade de acompanhar as notícias, procurar mais informação, recordar factos e participar em actividades políticas, como resultado do consumo de comédia política. 

A autora conversou com dois veteranos da sátira política: Isam Uraiqat e Juan Ravell. Isam é o fundador da Al Hudood, uma organização de media especializada em sátira, responsável pelo que  “site” "A Cebola do Médio Oriente" e Juan é o director de um jornal satírico online venezuelano, “El Chigüire Bipolar”.


Isam considera que a sátira é particularmente importante no Médio Oriente, devido às “enormes restrições à liberdade de expressão”. O veterano considera que a sátira é “um dos poucos formatos que pode sobrepor-se à censura, pois as autoridades nem sempre sabem como lidar com ela”. 

Isam Uraiqat realiza, todos os dias, em conjunto com a sua equipa, um levantamento das notícias e escolhe quais são as mais importantes. O jornalista diz que as “piadas em si não são a parte mais difícil, sendo que vamos treinando a mente para pensar de uma certa maneira”.  Para ele, o aspecto mais importante do trabalho é desenvolver o factor editorial que permita distinguir uma boa sátira de uma má sátira.

O fundador do Al Hudood reitera que é necessário ter “muito cuidado, pois a sátira pode, por vezes,  piorar as coisas e tornar-se viral pelas razões erradas” e ter em atenção a cobertura de todos os lados da mesma história. 

“Por exemplo, em relação à divisão saudita, se tivermos uma história sobre os sauditas, garantimos que também lançamos algo sobre o Irão. Sempre que possível, fazemos isso na mesma história, porque as histórias têm uma vida própria”.

Já Ravell, do “Chigüire Bipolar”, considera que o jornal fala da realidade, mas de uma forma divertida. A principal dificuldade do jornal é relatar os factos, de forma satírica, mas sempre coerente, para não levar as pessoas a pensar em algo que não é verdade.

O jornalista considera, no entanto, que “alguns assuntos são impossíveis de se abordar com humor, ou , pelo menos, devem ser abordados de uma forma muito delicada”, apesar de defender que, juntamente com a equipa, conseguiu tratar o caso “Lava Jato” – que investigou várias personalidades brasileiras pelo crime de lavagem de dinheiro - de forma particularmente eficaz.


Connosco
Conversas com jornalistas para promover a literacia mediática Ver galeria

O trabalho editorial é, por vezes, um mistério para as audiências que não entendem o processo adjacente, e que tendem a desumanizar a figura do jornalista, tomando-o como alguém quase “robotizado”, que prima pela neutralidade e objectividade, sem nunca se envolver com as histórias que publica.

Este tipo de percepção cria, assim, um distanciamento entre os profissionais dos “media” e os restantes cidadãos, que encaram as reportagens com cepticismo e desconfiança, criticando o papel do jornalista na sociedade.

Perante este cenário, os repórteres McArdle Hankin e Lauren Peace decidiram lançar o projecto “Local Live(s) Project”, que convida os jornalistas locais a falarem do seu percurso profissional, com o objectivo de fomentar uma relação de confiança com o público e promover a literacia mediática informal.

Em entrevista para a “Columbia Journalism Review”, os criadores da iniciativa explicaram que tudo começou com conversas informais, em que os jornalistas subiam a palco para contar as peripécias do trabalho jornalístico, respondendo às questões colocadas.

Mais tarde, com a pandemia, os eventos passaram a ser promovidos “online”, através de videoconferências.

Rússia intensifica restrições ao jornalismo independente Ver galeria

As autoridades russas classificaram o “site” de jornalismo independente “Proekt” como “indesejável”, banindo a actividade da plataforma a nível nacional, e atribuindo aos seus colaboradores o estatuto de “agentes estrangeiros”, denunciou o Comité para a Protecção dos Jornalistas (CPJ).

Desta forma, quaisquer relações comerciais ou pessoais com o “site” passaram a ser consideradas ilegais.

“Ao banirem o ‘Proekt” e ao adicionarem novos nomes à lista de ‘agentes estrangeiros’, as autoridades russas parecem querer silenciar as últimas vozes independentes do país”, afirmou Gulzona Said, coordenadora do CPJ, acrescentando que “as intenções do governo deveriam ser revistas, de forma a proteger a liberdade de imprensa”.

Recentemente, foram introduzidas emendas ao código criminal russo, que prevêm penas de prisão, até quatro anos, para os jornalistas que colaborem com “media” indesejados, ou de até seis anos, para os profissionais que forem considerados culpados de “organizar essas actividades”.

Da mesma forma, os jornalistas ou “media” classificados como “agentes estrangeiros” podem enfrentar diversas restrições a nível financeiro.

De acordo com Mikhail Rubin, antigo editor-executivo da publicação, estas medidas são, provavelmente, uma resposta às investigações realizadas pelo título sobre o Presidente russo, Vladimir Putin, e o seu círculo mais próximo.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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Opinião
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Venham mais 40!...
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No Brasil, começou esta aventura, com o Dinis de Abreu!! Foi há 40 anos, estava ele no Diário de Noticias e eu no Correio Manhã, quando resolvemos, com mais uma bela equipa de jornalistas, fundar o Clube Português de Imprensa. Completamente independente e sem qualquer cor politica, o Clube cedo se desenvolveu com reuniões ,almoços, palestras, etc. Tivemos o privilégio de ter os maiores nomes da sociedade civil e política portuguesa...
A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
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