Sábado, 8 de Maio, 2021
Estudo

Relatório coloca Portugal a meio da tabela da desinformação

Foi publicado o relatório “Fake News em ano eleitoral – Portugal em linha com a UE” que assinala a entrada definitiva das notícias falsas nas preocupações dos governantes em Portugal.

A posição do país no combate à desinformação parece ser reactiva, limitando-se a apoiar as posições assumidas pela União Europeia, sem acrescentar mais nada. 

O relatório, iniciativa do Obercom, explica o trabalho realizado pela União Europeia e em Portugal para lidar com este desafio, tentando, também, caracterizar o fenómeno.  

Os dados do Google e do Twitter situam Portugal numa posição intermédia no quadro da desinformação a nível europeu. 

Segundo os dados apresentados, o país revela, também, um crescimento do consumo de notícias, através das redes sociais, e uma maior falta de confiança nos conteúdos informativos.

O relatório problematiza, ainda, os riscos da desinformação durante as campanhas eleitorais, bem como possíveis soluções para o problema, como é o caso do fact-checking, da literacia mediática ou do jornalismo colaborativo. 

São, também, apresentados os dados do Digital News Report de 2019, que analisam as práticas de consumo de notícias dos portugueses e o seu impacto na desinformação.

A posição de Portugal sobre a desinformação limita-se ao apoio das posições assumidas pela União Europeia. 

 

Note-se, entretanto, que num estudo da ERC, realizado a pedido do presidente da Assembleia da República, foi reconhecida “a dificuldade de intervenção devido à indefinição dos limites do ambiente online e à ausência de competências específicas, reclamando uma maior visibilidade para o número de registo da ERC para que os utilizadores online tenham maior facilidade em identificar as fontes de notícias credíveis”. Assim, a ERC recomendou que o problema fosse abordado e assegurasse maiores poderes ao regulador.

 

Por seu lado, o relatório do Obercom analisou a percepção das fake news em Portugal, concluindo que existem duas ideias erradas: que a desinformação não tem expressão no país e que, a existir, não tem objectivos políticos.

 

A estratégia de desinformação em Portugal é mais centrada na difamação e ataque pessoal, aproximando-se mais do Brasil do que dos países europeus.

 

Os conteúdos de desinformação analisados apresentam “uma menor saliência da questão migratória – ao contrário daquilo que sucede na maioria dos países ocidentais – que contrasta com o maior relevo da corrupção política, nepotismo e promiscuidade dos detentores de cargos públicos”. 

 

Esta conclusão sobre o fenómeno em Portugal tem por base o trabalho realizado pelo MediaLab do ISCTE-IUL, que monitorizou a desinformação no Facebook e no WhatsApp

 

Os dados do Google e do Twitter situam Portugal numa posição intermédia no quadro da desinformação a nível europeu, reforçando que a desinformação em Portugal “é uma realidade e tem dimensão suficiente para enviesar percepção da opinião pública acerca da veracidade da informação e assim diminuir a qualidade da nossa democracia”. 

 

Desta forma, os riscos de desinformação, em contexto eleitoral, são reais, mas o estudo defende que “a urgência em intervir não deve conduzir a medidas arbitrárias no plano governamental, típicas de regimes não democráticos. A Freedom House afirma mesmo que tal como «terrorismo» também o termo «fake news» tem sido cooptado por líderes autoritários para justificar repressão a dissidentes”.

 

As campanhas de desinformação em Portugal existem e seguem um modelo de difusão online. A desinformação é difundida através de páginas “enganadoras” de órgãos de comunicação, de grupos nas redes sociais e de perfis falsos. No caso português está, ainda, por confirmar a utilização de processos automatizados por robôs digitais (bots).

 

O relatório revelou, igualmente, que, em Portugal, a confiança em notícias é alta, mas tem diminuído, principalmente na Internet, verificando-se uma menor utilização deste meio como fonte principal de notícias. 

 

Em 2019, a veracidade dos conteúdos online inquieta três em cada quatro portugueses (74.7%), sendo que a mediatização do fenómeno das fake news e a desinformação, surgem como um problema público, minando a confiança nas notícias.

 

A crescente digitalização das práticas de consumo dos portugueses é reflectida no facto de cerca de 4/5 das pessoas utilizarem tanto a Televisão como a Internet como fonte de notícias. A Imprensa e a Rádio apresentam valores que rondam os 35%. 

 

Todavia, apesar do crescimento dos meios digitais face aos tradicionais, a Televisão continua a ser a principal forma de acesso à informação (58%), seguindo-se a Internet (30.9%), a Rádio (5.8%) e, por último, a Imprensa (3.8%).

 

O relatório revela, ainda, uma situação preocupante: existem cada vez mais pessoas a evitar o consumo de notícias, sendo que 65,9% o fazem pelo menos ocasionalmente. 

 

Aproximadamente 40% dos inquiridos demonstrou cansaço face à quantidade de notícias com que se deparam, criticando o tom escolhido no seu tratamento. 

 

O consumo de notícias através das redes sociais verificou, também, um aumento, principalmente através de apps de mensagens, como é o caso do Whatsapp.

 

Facebook é a rede social mais utilizada pelos portugueses (76.9%), sendo a mais usada para consumo de notícias (52.9%). O acesso a notícias através do site ou de aplicações noticiosas registou uma quebra.

 

Assim, as redes sociais são hoje, para mais de ¼ da população (26.3%), a forma de acesso preferida a notícias online, pois apenas 1/5 da população acede como primeira opção a aplicações ou sites de notícias.

 

“Metade dos portugueses inquiridos afirma que consulta fontes alternativas para verificar se um dado acontecimento está a ser noticiado da mesma forma (51.1%), sendo também comum decidir não partilhar uma notícia por desconhecimento acerca da fiabilidade da cobertura noticiosa (43.1%). Ainda assim, um em cada dez portugueses admite não ter qualquer atitude em relação a conteúdos suspeitos.”

 

A organização alerta para o facto de os “conteúdos simplificados numa imagem ou trecho de vídeo, quando não acompanhados da notícia que fornece o contexto, serem em si uma fonte de desinformação que é necessário evitar”.

 

Uma forma de combate contra a desinformação é o fact checking, que existe em dois modelos, o newsroom model e o independent NGO model. A distinção deve-se às diferenças dos sistemas político-mediáticos. 

 

newsroom model representa organizações de fact-checking associadas aos meios de comunicação social previamente existentes (legacy media). O modelo independente NGO model, mais concentrado no sul e leste da Europa, resulta da formação de organizações não governamentais para projectos, tendo uma maior independência editorial.

 

Apesar de constituírem uma excelente forma de fazer face à desinformação, os fact checkers podem ter algumas limitações, devidas a tentativas de instrumentalização por grupos coordenados para credibilizar determinadas notícias, eventualmente de interesse político.

 

Outro meio de combate à desinformação é o aumento da literacia mediática, pois permite desenvolver a capacidade de os cidadãos reconhecerem e identificarem notícias falsas.

 

“Um índice construído para medir a literacia mediática na Europa, usando indicadores de liberdade dos media, educação e confiança, revela que os países nórdicos (Finlândia e Dinamarca) são os mais resilientes ao impacto da desinformação, estando os países dos Balcãs (como a Macedónia ou a Albânia) no extremo oposto. Portugal aparece um pouco acima do meio da tabela, em 15º lugar entre os 35 avaliados, sendo que o pior indicador é a percentagem de população com ensino superior.” 

 

O jornalismo colaborativo é outro caso que também surgiu como resposta ao combate da desinformação. Este tipo de jornalismo promove as relações entre profissionais do sector, através da procura conjunta de soluções para o financiamento e estabilidade económica e de iniciativas comuns.

 

Mais informação em Obercom.

Connosco
"The Guardian" festeja 200 anos com jornalismo na primeira linha Ver galeria

O jornal britânico “ The Guardian” celebrou, recentemente, o seu 200º aniversário.

E, como forma de assinalar a efeméride, vários editores de publicações internacionais enviaram uma mensagem de tributo à publicação.

O então “Manchester Guardian” lançou a sua primeira edição em 5 de Maio de 1821, em resposta ao massacre de Peterloo. Desde esse dia, o título publicou mais de 54 mil edições e milhões de artigos jornalísticos, conquistando alguns prémios pelo caminho, incluindo um Pulitzer.

Para Christian Broughton, director do “Independent”, o “Guardian” soube “aproveitar um massacre para iniciar um movimento”.

“O massacre de Peterloo foi um incidente único”, disse Broughton. “Enquanto houver realidades difíceis sobre as quais reportar, continuaremos a precisar de jornalistas a exercerem as suas funções, e leitores que reconheçam o seu valor”.

Por sua vez, Marty Baron, do “Independent”, elogiou o “Guardian” por ser uma “fonte de inspiração para muitos”.

“Quando se completam 200 anos enquanto instituição mediática, isso significa que se está a fornecer um serviço público de qualidade”, afirmou.

Já Fran Unsworth, directora da BBC News, considerou o marco de 200 anos como uma “conquista extraordinária”.

“A história do ‘Guardian’ é uma tapeçaria rica em jornalismo de investigação, com responsabilização do poder político e em atenção aos interesses dos seus leitores”, rematou Unsworth.

Da mesma forma, o editor-executivo do “El País”, Javier Moreno, expressou a sua admiração pelo “jornal lançado no século XIX, em Manchester”, que se “tornou numa referência mundial”.

Outros jornalistas destacaram, por outro lado, os esforços da publicação para construir um modelo de negócio sustentável.

Hillary contra países autoritários que utilizam "media" para propaganda Ver galeria

Por ocasião do 200º aniversário do “Guardian”, a antiga candidata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, concedeu uma entrevista ao jornal britânico, para debater a importância do combate à desinformação.

Conforme recordou o “Guardian”, Hillary Clinton foi candidata presidencial numa altura em que as campanhas “fake news” começaram a ganhar força.

Aliás, de acordo com várias fontes jornalísticas, a campanha de Clinton foi prejudicada por um movimento de Moscovo, que começou a disseminar notícias falsas sobre o passado da candidata nas redes sociais.

Cinco anos depois -- e apesar da mudança de presidência dos EUA-- as campanhas de desinformação e as “teorias da conspiração” ganharam ainda mais força, ameaçando a segurança e o bem-estar dos cidadãos.

Posto isto, Hillary Clinton defende que os “media” têm que alterar a sua estratégia e deixar de “defender que a verdade se encontra algures no meio”, enquanto se preparam para enfrentar o poder das redes sociais.

“As empresas tecnológicas são, agora, muito mais poderosas do que qualquer meio de comunicação tradicional”, reiterou a antiga primeira-dama dos EUA. “Acho que tem de haver um reconhecimento internacional dos perigos da desinformação, bem como da questão do monopólio”, continuou, referindo-se, em concreto, ao caso do Facebook.

Assim, Clinton espera que o actual governo dos EUA imponha novas directrizes a estas empresas.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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Opinião
Se olharmos para o ranking da liberdade de imprensa, elaborado pela organização internacional Repórteres sem Fronteiras (RSF), verificamos que Portugal fecha o top ten em 2020, entre 180 países avaliados, tendo melhorado duas posições desde o ano anterior. É uma classificação confortável, numa lista liderada pela Noruega, onde a vizinha Espanha aparece em 29.º lugar e a Coreia do Norte em último, um exemplo...
Limites da liberdade de expressão
Francisco Sarsfield Cabral
Na internet não deve continuar a prevalecer a lei da selva. O que não é um apelo à censura, muito menos se ela for praticada pelos gestores das empresas tecnológicas. Cabe à política, e não às empresas, assegurar o bem comum. Quem escreve na internet deverá sujeitar-se às condições jurídicas que não permitam atos que são considerados crimes nos media tradicionais.Não há...
Venham mais 40!...
Carlos Barbosa
No Brasil, começou esta aventura, com o Dinis de Abreu!! Foi há 40 anos, estava ele no Diário de Noticias e eu no Correio Manhã, quando resolvemos, com mais uma bela equipa de jornalistas, fundar o Clube Português de Imprensa. Completamente independente e sem qualquer cor politica, o Clube cedo se desenvolveu com reuniões ,almoços, palestras, etc. Tivemos o privilégio de ter os maiores nomes da sociedade civil e política portuguesa...
A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
A ideia fundadora do CPI, pelo menos a que justificou a minha adesão plena à iniciativa, foi o entendimento de que cada media é uma comunidade de interesses convergentes. A dos editores da publicação, a dos produtores, a dos que comercializam. Isto é, uma ideia cooperativa de acionistas, jornalistas e outros trabalhadores. E, obviamente, uma ideia primeira de independência e de liberdade. Esta ideia causou, há quarenta anos, algum...
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A Inteligência Artificial e o Futuro do Jornalismo
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18
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2021 Collaborative Journalism Summit
09:00 @ Conferência "online" do Journalism Fund