Sexta-feira, 30 de Julho, 2021
Media

Imprensa regional americana em declínio acelerado do papel

Depois do que passaram com a crise financeira de há dez anos, os jornais dos Estados Unidos entraram na corrida ao digital, na esperança de escaparem ao declínio acelerado do papel. Mas o que aconteceu foi uma divisão nítida entre meia dúzia de grandes diários de expansão nacional, que conseguiram estabilizar o seu negócio, e os pequenos jornais de província, que continuam em queda.

Os jornais locais tiveram quebras de circulação mais abruptas do que os nacionais, e sofreram mais com a invasão do seu território publicitário por parte das grandes plataformas Google e Facebook.

A consequência é que este definhamento da paisagem do jornalismo local está a deixar milhões de americanos com menos informação sobre o que se passa à sua porta. As suas empresas não sobrevivem por mais cortes de pessoal que façam. Há muitas áreas rurais que estão a transformar-se em “desertos de notícias”  - uma expressão que já tem estudos publicados.

É esta a avaliação sombria de um trabalho recente publicado por The Wall Street Journal  - um dos tais poucos felizes sobreviventes.

Fecharam quase 1.800 jornais nos EUA, entre 2004 e 2018, deixando duas centenas de condados sem jornal, e metade dos condados de todo o país com apenas um  - segundo um estudo da Universidade da Carolina do Norte. 

Entretanto, nasceram cerca de 400 media exclusivamente digitais, a tentarem ocupar esse vazio, “desproporcionadamente concentrado nas grandes cidades e regiões mais abastadas”. Mas o trabalho de The Wall Street Journal  confirma que é muito difícil “converter os leitores em utentes contribuintes no digital”. 

Pior do que isso, um estudo recente do Pew Research Center  revela que 71% dos cidadãos americanos acreditavam que os jornais locais estavam de boa saúde financeira, embora só 14% pagassem para os sustentar... 

De quase 300 jornais avaliados pela AAM  - Alliance for Audited Media, sobre os quais há dados acessíveis, a circulação caíu em quase todos eles, entre 2012 e 2018, escapando uma meia dúzia. 

Mas a gravidade destas quedas é muito desigual: nos três grandes jornais de expansão nacional referidos, The Wall Street Journal, The New York Times e The Washington Post, a circulação caíu, em média, 29%. 

Por contraste, essa média, entre os jornais regionais de boa dimensão, com tiragens de mais de 200 mil exemplares, como o Houston Chronicle ou o Chicago Tribune, foi de 41% no mesmo período; e chega aos 45% nos que ficam antre os 100 mil e os 200 mil exemplares, como o Oregonian ou o Dallas Morning News

Os jornais que apostaram na publicidade digital como tábua de salvação descobriram depressa que o retorno foi muito inferior ao que perderam na que tinham no papel. 

“Poucas pessoas nesta indústria perceberam até que ponto Google e Facebook iam tornar-se poderosos na publicidade online. (...) Enquanto sugavam as receitas da publicidade de todos os editores, os da Imprensa local foram os mais atingidos. As gigantes tecnológicas absorveram 77% da publicidade digital no jornalismo local, comparados com os 58% a nível nacional, segundo dados da Borrell Associates e do eMarketer.”  (...) 

Alan Fisco, presidente do Seattle Times, pôs as coisas deste modo claro: 

“Quando olhamos para o que se desenvolveu, e a quantidade de receita que vai para as Googles e os Facebooks deste mundo, o que nós apanhamos são as migalhas da mesa.” 

E Terry Kroeger, que foi editor do Omaha World-Herald, defende que uma solução seria a de permitir que os editores tivessem capacidade legal de negociação colectiva com as plataformas tecnológicas. Uma proposta deste tipo não conseguiu ir longe, no anterior Congresso, mas os Democratas têm esperança em que a última versão, que é co-apoiada por um Republicano, adquira força neste órgão, agora controlado pelos Democratas. 

O texto que citamos, em The Wall Street Journal, faz as contas dos que conseguiram ganhar a corrida às assinaturas digitais: 

The New York Times, com 3,4 milhões, e uma redacção de 1.550 jornalistas, a maior na sua história;  o próprio Wall Street Journal, com 1,7 milhões e uma redacção de quase 1.300;  e The Washington Post, com 1.5 milhões. 

The Dallas Morning News tornou-se em 2011 o primeiro grande jornal regional americano a levar os seus leitores a pagar pela edição online. Relançou a sua paywall em 2016 e conta agora com 30 mil asinantes digitais, mas isso constituiu apenas 5,6% da receita de circulação total em 2018. Nos últimos 15 meses, já cortou mais de 170 postos de trabalho, e um grande investidor está a pressionar a empresa sobre uma possível venda. 

O Minneapolis Star Tribune chegou aos 60 mil assinantes digitais e consegue uma receita anual de 200 milhões de dólares, que lhe permitiu manter uma redacção de cerca de 250 jornalistas durante a maior parte desta década. Mas o editor admite que precisa de ultrapassar os 150 mil assinantes digitais para se tornar sustentável a longo prazo. 

The Boston Globe é um caso atípico, com os seus 111 mil assinantes digitais pagando o preço robusto de um dólar por dia, que lhe permitem manter uma redacção de 200 jornalistas só pelas receitas desta via. 

Segue-se uma lista dos que não conseguem, estando no limite da sobrevivência, e os números da estatística do desemprego causado pelo fecho de jornais, que perderam 60% de 465 mil trabalhadores entre 1990 e 2016, caindo para os 183 mil. Mas, para muitos jornais, nem mesmo os despedimentos os podem salvar. Há grandes áreas do interior rural que se tornaram “desertos de notícias”.  (...) 


O texto aqui citado, na íntegra em The Wall Street Journal, sujeito a assinatura

Connosco
Relatório do Obercom analisa tendências futuras dos “media” Ver galeria

Com a pandemia, a maioria dos jornalistas passou a ter que trabalhar em regime remoto, abandonando o espaço de redacção e o contacto directo com colegas de profissão.

Isto fez com que os colaboradores dos “media” passassem a depender dos seus dispositivos electrónicos para assegurar a comunicação com os editores, além de conjugarem a vida pessoal e profissional num único local.

Se, por um lado, alguns dos jornalistas apreciaram a flexibilidade deste novo regime, por outro lado, um número considerável de profissionais disse estar descontente com o “continuum” família/trabalho.

O caso da imprensa portuguesa foi, agora, analisado por um relatório do “Obercom”, cujos investigadores quiseram perceber qual a opinião dos jornalistas nacionais, quanto à possibilidade de o teletrabalho se transformar no “novo normal”.

O relatório analisou, ainda, outras questões relacionadas com o futuro do jornalismo português, como a diversidade nas redacções e “atracção e retenção de talentos em tempos de incerteza”.

Para este relatório foram consideradas as respostas de 98 inquiridos.

De acordo com o estudo, em Portugal, o teletrabalho é percepcionado como algo que teve consequências negativas para o jornalismo, em particular no que diz respeito ao trabalho colaborativo (75% dos inquiridos discordam que o trabalho remoto tenha facilitado a construção e manutenção de relações em equipa). Neste sentido, os inquiridos dizem, ainda, ter sentido quebras na sua eficiência e criatividade.

A percepção sobre os efeitos negativos do teletrabalho está, também, em concordância com a vontade expressa pelos jornalistas de regressar às redacções.

Dicas (possíveis) para a protecção “online” dos jornalistas Ver galeria

Após a revelação do “Projecto Pegasus”, e de que cerca de 180 jornalistas poderiam ter sido vigiados por um “software” móvel, a associação Repórteres sem Fronteiras (RSF) publicou uma lista de recomendações para profissionais dos “media”, com o objectivo de garantir um maior nível de segurança para todos os potenciais visados.

Neste sentido, os RSF recomendaram que os profissionais incluídos na lista de jornalistas vigiados trocassem, de imediato, os seus dispositivos móveis, para continuarem a comunicar sem que as suas informações pessoais fossem partilhadas com terceiros.

Da mesma forma, a associação recordou a importância de desconectar todas as contas das redes sociais, bem como da alteração de palavras-passe.

Caso não seja possível trocar de “smartphone”, os RSF aconselham os jornalistas a reiniciarem os dispositivos, já que isto pode travar o funcionamento dos “softwares”.

Após estes primeiros passos, recomenda-se que os jornalistas reforcem o nível de segurança dos dispositivos tecnológicos, activando uma palavra-passe com quatro dígitos distintos, que não tenha qualquer relação com dados pessoais, tais como a data de nascimento.

Um maior nível de segurança passa, também, pela actualização frequente dos sistemas operativos, e pela instalação de um serviço antivírus.

Quanto às redes sociais, os RSF aconselham que os jornalistas activem o acesso em dois passos: palavra-passe e identificação facial, por exemplo.

A associação recomenda, ainda, que os profissionais dos “media” não utilizem redes wi-fi suspeitas, e que nunca carreguem em “links” de fontes desconhecidas.

Para os jornalistas que trabalham na área da investigação, a melhor solução é optar por um telemóvel antigo, que não tenha acesso à internet, acrescentam os RSF.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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Opinião
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No Brasil, começou esta aventura, com o Dinis de Abreu!! Foi há 40 anos, estava ele no Diário de Noticias e eu no Correio Manhã, quando resolvemos, com mais uma bela equipa de jornalistas, fundar o Clube Português de Imprensa. Completamente independente e sem qualquer cor politica, o Clube cedo se desenvolveu com reuniões ,almoços, palestras, etc. Tivemos o privilégio de ter os maiores nomes da sociedade civil e política portuguesa...
A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
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