Sábado, 8 de Maio, 2021
Jantares-debate

António Lobo Xavier aconselha políticos a romperem com amarras antigas

Uma separação ideológica que ponha de um lado os partidários de “um Estado omnipotente, que toma conta de tudo”, e do outro os que estão contra essa configuração e por “um Estado mínimo, retirado da economia”, tem hoje “muito pouco sentido”  - afirmou António Lobo Xavier, orador convidado do presente ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”. Em vez disso, como afirmou, importa conseguir os acordos que tornem compatível o Estado sustentável com o Estado justo, acrescentando que para esse efeito são necessários “políticos que rompam estas amarras antigas”. Concluíu que não é possível resolver os problemas estruturais do País “sem um mínimo de entendimentos”.

António Lobo Xavier iniciou a sua palestra contestando a separação absoluta de campos entre aquelas duas visões extremadas do Estado, e sublinhando que “nem tudo o que nos parece hoje ambíguo, segundo as nossas categorias das últimas décadas, do ponto de vista ideológico, é realmente populismo”.  

 

Interrogou-se depois sobre o que esperamos hoje do Estado, e afirmou:

 

“A verdade é que cada vez esperamos mais. Esperamos a sofisticação e o alargamento da produção dos bens públicos  -  queremos, por exemplo, saúde, a justiça cada vez mais afinada e tecnicamente evoluída, queremos segurança, defesa, protecção social no desemprego, reformas. (...)  Esperamos também a satisfação de necessidades mais recentes, como, por exemplo, a discussão se faz sentido garantir um cheque às pessoas, como um mínimo de existência.” (...)

 

E mencionou outras direcções actuais de reivindicação:

 

“Hoje, a propósito dos fogos, ou do terrorismo, nós queremos que o Estado nos proteja pelo risco de existirmos. Um risco aleatório, o risco de estarmos num certo momento num certo local. (...) São circunstâncias imprevisíveis, podem acontecer a qualquer um, e nós queremos protecção contra esse risco de existência, e indignamo-nos mesmo quando não recebemos essa protecção do Estado. (...)

Por vezes até pessoas defensoras da liberdade económica nem pensam na responsabilidade da empresa em primeiro lugar, falam logo do Estado: o Estado não viu, o Estado não tomou medidas, não fiscalizou, não tomou medidas nas torres de refrigeração, não foi verificar as condutas do parque aquático, esse é o estado de espírito em geral de um cidadão hoje.” (...)

 

“O problema é que cada vez é mais complexo, caro e difícil assegurar o que os cidadãos, independentemente das cores, esperam do Estado. Alguns exemplos rápidos: a saúde, ou o terrorismo, ou o aumento da esperança de vida, são coisas que baralharam completamente a nossa forma de ver. A saúde, porque é tão cara e exige tanto investimento, a esperança de vida porque baralhou as nossas contas sobre reformas e sobre relação entre as gerações, e o terrorismo, porque levou-nos até a pensar em abdicar de alguns dos direitos, como o direito à privacidade, em nome de uma segurança básica.” (...)

 

António Lobo Xavier descreveu depois como esta atitude de esperar tudo do Estado pode ser agravada, no caso português, pelo nosso perfil demográfico:

 

“A nossa população deve ser ainda considerada como pobre; apesar de todas estas nossas alegrias e este ambiente de euforia, é pobre. Quando olhamos para os números do risco de pobreza, vemos 7% das pessoas com carência económica extrema; o limiar do risco de pobreza é cerca de 5.500 euros, corresponde a 45% da população antes de prestações sociais e de pensões… É isto que nós temos.”

 

“45% das pessoas em Portugal têm estas condições, e o número desce para 18,3% depois de reformas e prestações sociais variadas. E temos 41% de pensionistas relativamente aos trabalhadores activos…”

 

Acrescentou a seguir um aspecto que admitiu poder ser polémico:

 

“Muito poucos contribuem com muito. Para isto funcionar, um Estado que responda a tudo e que garanta tudo, é preciso ir buscar o financiamento destes serviços públicos, e ele é assegurado por muito poucos. (...) Não é porque os nossos impostos tenham umas características liberais, ou anti-socialistas, ou porque são diferentes dos outros países. São as características daquele retrato que há pouco tracei  -  quase metade dos agregados familiares portugueses estão isentos de IRS, cerca de 20% contribuem com 80% da receita do IRS.”

 

“Neste esforço especial, estão os ricos, mas o problema não é estarem os ricos, é que está também a classe média, a mais educada, mais disposta a arriscar, mais empreendedora.” (...)

 

“Isto é de tal maneira assim, para verem a tal ambiguidade ideológica, que os Governos todos, qualquer que seja a cor, já não podem mexer mais nos impostos directos e procuram os impostos de largo espectro, com mais anestesia  - que são os indirectos, são os produtos pretolíferos, o IVA, etc. A procura por estes impostos é igual, tanto faz ser socialista como ser social-democrata ou centrista, todos os Governos com um sector público grande adoram impostos indirectos; têm anestesia, anestesia-se.”

 

“Os países igualitários e progressistas, de feição Labour, têm os impostos directos muito pesados, muito avançados; os países mais liberais preferem os impostos indirectos. Acabou essa conversa que vinha nos livros… qualquer país com um sector público grande adora impostos indirectos e recorre a eles.” (...)

 

António Lobo Xavier referiu-se depois à situação durante a época do ajustamento e da intervenção da troika e à actual, em que há, segundo disse, “uma fiscalidade selectiva que eu acho que pode ter algumas consequências negativas para a reputação de Portugal como destino do investimento”. E prosseguiu:

 

“Depois entendamos: existe um discurso público atractivo sobre o fim da austeridade… Não vou discutir se houve ou não fim da austeridade, parece-me que os objectivos são os mesmos, de equilíbrio orçamental e consolidação  - felizmente para nós. Mas há uma coisa de que nunca mais ninguém falou, que é a emigração, a saída dos novos de Portugal: julgam que parou, por milagre ou por uma nova solução política? Acabou a emigração dos novos? Não, mantém-se exactamente nos mesmos níveis. Julgam que parou o desemprego dos mais novos, e agora estão a encontrar lugar? Não, baixa a taxa de desemprego, claro, e bem, felizmente, mas na parte dos jovens à procura de emprego, aí não baixa especialmente.” (...)

 

Sobre a reforma do Estado, afirmou que “o Estado que temos é neste momento já condicionador das hipóteses eleitorais”:

 

“É muito difícil falar a verdade, porque os votantes são constituídos, numa enorme massa, por aquelas pessoas que ali estão, os destinatários das prestações sociais, os reformados, os funcionários públicos. (...) O peso da nossa sociedade está muito condicionado eleitoralmente. Não passa pela cabeça de ninguém ir dizer a verdade, até agora.” (...)

 

Por estes motivos defendeu a importância de entendimentos sobre o que fazer ao Estado:

 

“Acho que é fácil conseguir acordo em torno de um Estado sustentável e justo. Em geral, as pessoas não reagem aflitas perante uma proposta destas. Mas vamos lá ver: será possível combinar as duas coisas? Porque há muitas pessoas que entendem, e em Portugal isso está sempre presente no discurso político, que não é possível ao mesmo tempo assegurar a sustentabilidade e a justiça.” (...)

 

Descreveu depois a argumentação habitual, à esquerda como à direita, e defendeu:

 

“É preciso romper uma situação em que, à direita não se tem capacidade, nem coragem para falar sobre as reformas que é preciso fazer para manter a justiça, e à esquerda não se quer enfrentar as reformas que é necessário fazer para conseguir a sustentabilidade. A justiça tem que ser compatível com a eficiência.” (...)

 

“E depois, nós precisamos de políticos que rompam estas amarras antigas. A direita não pode ignorar o perfil da população, o estado das suas necessidades, os malefícios da desigualdade, a importância do Estado na requalificação da economia, e a esquerda moderna tem de perceber que os seus próprios critérios de justiça só se conseguem com a sustentabilidade do Estado e com reformas.”

Connosco
"The Guardian" festeja 200 anos com jornalismo na primeira linha Ver galeria

O jornal britânico “ The Guardian” celebrou, recentemente, o seu 200º aniversário.

E, como forma de assinalar a efeméride, vários editores de publicações internacionais enviaram uma mensagem de tributo à publicação.

O então “Manchester Guardian” lançou a sua primeira edição em 5 de Maio de 1821, em resposta ao massacre de Peterloo. Desde esse dia, o título publicou mais de 54 mil edições e milhões de artigos jornalísticos, conquistando alguns prémios pelo caminho, incluindo um Pulitzer.

Para Christian Broughton, director do “Independent”, o “Guardian” soube “aproveitar um massacre para iniciar um movimento”.

“O massacre de Peterloo foi um incidente único”, disse Broughton. “Enquanto houver realidades difíceis sobre as quais reportar, continuaremos a precisar de jornalistas a exercerem as suas funções, e leitores que reconheçam o seu valor”.

Por sua vez, Marty Baron, do “Independent”, elogiou o “Guardian” por ser uma “fonte de inspiração para muitos”.

“Quando se completam 200 anos enquanto instituição mediática, isso significa que se está a fornecer um serviço público de qualidade”, afirmou.

Já Fran Unsworth, directora da BBC News, considerou o marco de 200 anos como uma “conquista extraordinária”.

“A história do ‘Guardian’ é uma tapeçaria rica em jornalismo de investigação, com responsabilização do poder político e em atenção aos interesses dos seus leitores”, rematou Unsworth.

Da mesma forma, o editor-executivo do “El País”, Javier Moreno, expressou a sua admiração pelo “jornal lançado no século XIX, em Manchester”, que se “tornou numa referência mundial”.

Outros jornalistas destacaram, por outro lado, os esforços da publicação para construir um modelo de negócio sustentável.

Hillary contra países autoritários que utilizam "media" para propaganda Ver galeria

Por ocasião do 200º aniversário do “Guardian”, a antiga candidata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, concedeu uma entrevista ao jornal britânico, para debater a importância do combate à desinformação.

Conforme recordou o “Guardian”, Hillary Clinton foi candidata presidencial numa altura em que as campanhas “fake news” começaram a ganhar força.

Aliás, de acordo com várias fontes jornalísticas, a campanha de Clinton foi prejudicada por um movimento de Moscovo, que começou a disseminar notícias falsas sobre o passado da candidata nas redes sociais.

Cinco anos depois -- e apesar da mudança de presidência dos EUA-- as campanhas de desinformação e as “teorias da conspiração” ganharam ainda mais força, ameaçando a segurança e o bem-estar dos cidadãos.

Posto isto, Hillary Clinton defende que os “media” têm que alterar a sua estratégia e deixar de “defender que a verdade se encontra algures no meio”, enquanto se preparam para enfrentar o poder das redes sociais.

“As empresas tecnológicas são, agora, muito mais poderosas do que qualquer meio de comunicação tradicional”, reiterou a antiga primeira-dama dos EUA. “Acho que tem de haver um reconhecimento internacional dos perigos da desinformação, bem como da questão do monopólio”, continuou, referindo-se, em concreto, ao caso do Facebook.

Assim, Clinton espera que o actual governo dos EUA imponha novas directrizes a estas empresas.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


ver mais >
Opinião
Se olharmos para o ranking da liberdade de imprensa, elaborado pela organização internacional Repórteres sem Fronteiras (RSF), verificamos que Portugal fecha o top ten em 2020, entre 180 países avaliados, tendo melhorado duas posições desde o ano anterior. É uma classificação confortável, numa lista liderada pela Noruega, onde a vizinha Espanha aparece em 29.º lugar e a Coreia do Norte em último, um exemplo...
Limites da liberdade de expressão
Francisco Sarsfield Cabral
Na internet não deve continuar a prevalecer a lei da selva. O que não é um apelo à censura, muito menos se ela for praticada pelos gestores das empresas tecnológicas. Cabe à política, e não às empresas, assegurar o bem comum. Quem escreve na internet deverá sujeitar-se às condições jurídicas que não permitam atos que são considerados crimes nos media tradicionais.Não há...
Venham mais 40!...
Carlos Barbosa
No Brasil, começou esta aventura, com o Dinis de Abreu!! Foi há 40 anos, estava ele no Diário de Noticias e eu no Correio Manhã, quando resolvemos, com mais uma bela equipa de jornalistas, fundar o Clube Português de Imprensa. Completamente independente e sem qualquer cor politica, o Clube cedo se desenvolveu com reuniões ,almoços, palestras, etc. Tivemos o privilégio de ter os maiores nomes da sociedade civil e política portuguesa...
A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
A ideia fundadora do CPI, pelo menos a que justificou a minha adesão plena à iniciativa, foi o entendimento de que cada media é uma comunidade de interesses convergentes. A dos editores da publicação, a dos produtores, a dos que comercializam. Isto é, uma ideia cooperativa de acionistas, jornalistas e outros trabalhadores. E, obviamente, uma ideia primeira de independência e de liberdade. Esta ideia causou, há quarenta anos, algum...
Agenda
11
Mai
A Inteligência Artificial e o Futuro do Jornalismo
14:00 @ Palácio Nacional da Ajuda
18
Mai
Congreso Internacional de Ética de la Comunicación
10:00 @ Universidade Complutense de Madrid
18
Mai
19
Mai
2021 Collaborative Journalism Summit
09:00 @ Conferência "online" do Journalism Fund