Sexta-feira, 30 de Julho, 2021
Novas iniciativas

Isabel Mota em jantar-debate: o Estado não se adaptou às mudanças da sociedade

“Em Portugal, como não tem havido, ao longo dos tempos, uma adaptação do papel do Estado às mudanças da sociedade, verifica-se uma deficiente afectação de recursos, com carências absolutas em áreas fundamentais, da inequívoca responsabilidade do Estado.” Foi nestes termos, propostos como uma espécie de “conclusão provisória”, que Isabel Mota, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, abriu o novo ciclo de jantares-debate, promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, agora subordinado ao tema genérico “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”. A oradora descreveu esta situação como “resultado acumulado de opções que têm vindo a ser tomadas e que geraram a situação de um Estado que, a meu ver, não tem perímetro”.

Prosseguindo, Isabel Mota referiu-se à importância de “uma discussão que é absolutamente indispensável e tem sido sempre adiada, que tem a ver com a dimensão do Estado Social, e isto numa óptica da justiça inter-geracional”. E afirmou:

 

“Uma das questões que tenho sempre presente, e que muito me preocupa, é a questão das crescentes desigualdades. Nos últimos anos temos assistido, infelizmente, a um aumento dos níveis de desigualdade, tanto em Portugal como nos restantes países desenvolvidos.” 

Em particular no caso português, desdobrou esta preocupação em duas: “por um lado, o facto de a crise financeira ter gerado uma quebra nos rendimentos das famílias, em especial nas de menores rendimentos e, por outro lado, o facto de se verificar uma acumulação excessiva de rendimentos e riqueza no topo da distribuição”. E sublinhou: 

“Não é assim que se constrói um país. Não é assim que se consegue a coesão. Não é assim que se consegue nenhum consenso para podermos andar para a frente.” 

“É necessário, por isso, definir políticas estruturais, que coloquem a economia, de novo, no caminho do crescimento sustentável, que terá que reflectir maior igualdade de oportunidades e uma maior mobilidade social.” (...) 

Isabel Mota integrou, a seguir, esta reflexão no “contexto enorme de alteração dos paradigmas tradicionais, trazida pela revolução digital e pela generalização da robótica e da inteligência artificial, um desafio que não é pequeno e para o qual não haverá, ainda, respostas sólidas”.

 

Na Fundação Gulbenkian, como afirmou, “estamos muito atentos a esta mudança de paradigma”:

 

“A Fundação está empenhada em contribuir  - em conjunto, naturalmente, com a área pública, com o sector privado, e com o terceiro sector -  para uma resposta que garanta que o bem-estar chega a todos e que a dignidade da pessoa humana seja sempre respeitada.”

 

Recordou, a seguir, o tempo em que a Gulbenkian iniciou a sua actividade, em 1956, num país “completamente diferente do que hoje conhecemos”, quando “a intervenção da Fundação teve que se adaptar a essas circunstâncias, ocupando muitos dos espaços em que o Estado de então se tinha demitido de desempenhar a sua função”.

 

Hoje, como disse, “a Fundação Gulbenkian, assumindo-se como agente de mudança, continuará a desenvolver a sua intervenção de forma a contribuir para a produção do conhecimento e para o ensaio de soluções para os principais desafios com que nos confrontamos”.

 

Isabel Mota descreveu este esforço como parte de um projecto que tem de ser colectivo, propondo que tenhamos “um novo olhar para cada um dos sectores”:

 

“No sector público, como já referi, exigem-se novas políticas, que melhor incorporem preocupações de justiça inter-geracional, incluindo aqui, naturalmente, a vertente ambiental, e promovendo melhor eficiência na gestão dos seus recursos, financeiros e humanos, incentivando modelos de governança integrada e descentralizada, bem como novos modelos de contratualização de serviços, orientados para os resultados.”

 

“O sector privado terá de, necessariamente, incorporar a variável de impacto nos seus processos de criação de valor, seja através da incorporação de modelos de sustentabilidade ambiental em toda a sua cadeia de produção, seja pelo apoio ao desenvolviemento de novos modelos de negócio em que o impacto social gerado é determinante para o seu sucesso.”

 

“E o terceiro sector, onde se incluem as Fundações, terá de apostar em novos modelos de gestão e personalizar o trabalho que desenvolve, indo melhor ao encontro das populações que serve. Em síntese, num mundo que se caracteriza por uma crescente imprevisibilidade, um novo exercício de cidadania exige um sector público mais transparente, um sector privado mais responsável e um terceiro sector mais eficaz, e todos temos um papel a desempenhar.” (...)

 

“Por exemplo, no caso da Fundação Gulbenkian, e sempre preservando o seu legado, decidimos que, para os próximos anos, vamos adoptar uma agenda centrada na coesão e na integração social, na sustentabilidade e no conhecimento, alicerçada numa profunda convicção de que a cultura constitui a base de uma sociedade aberta, inclusiva e tolerante.” (...)

 

Isabel Mota fez depois uma reflexão sobre “a mudança dos protagonistas no sector da filantropia e a alteração nos mecanismos clássicos de financiamento”, a que estamos hoje a assistir:

 

“É interessante recordar que os filantropos do séc. XXI serão em certa medida, e já o são, os que construíram fortunas a partir da criação de novas soluções tecnológicas e digitais que, como sabemos, alteraram por completo a vida da sociedade, construindo as grandes empresas globais dos nossos dias.” (...)

 

Citou um deles, Sean Parker, que, ao criar a sua Fundação em Junho de 2015, publicou um manifesto no Washington Post chamado “Philanthropy for Hackers”, no qual afirmou:

“A utopia tecnológica dos hackers já transformou as nossas vidas. Mas o seu maior contributo para a sociedade ainda está para realizar, se quisermos manter o espírito criativo e intelectual que nos trouxe até aqui.”

“Esse contributo, ainda por realizar, diz respeito à interligação entre as novas formas de trabalho e potencialidades da tecnologia e os principais problemas sociais, com que o mundo a cada dia se debate e aos quais não é também alheia a revolução tecnológica.” (...)

 

Neste contexto, Isabel Mota afirmou ser sua convicção “que o movimento fundacional em Portugal tem potencial para fazer mais e melhor” e que “não existe correlação evidente entre riqueza e filantropia no caso de Portugal”.

 

A concluir, sublinhou “a enorme responsabilidade que a nosssa geração tem pela frente, em função da crescente desigualdade dentro e entre países, do impacto das tecnologias, designadamente no mercado de trabalho, e do ritmo vertiginoso em que se processam as mudanças”:

 

“Um relatório recente, do European Foundation Center, com base em inquéritos de diferentes organizações internacionais, aponta para consequências políticas muito graves no mundo ocidental. As principais consequências são: angústia, perda de confiança nas elites, perda de confiança nas instituições democráticas, e, mais preocupante do que tudo, perda de esperança no futuro.”

 

“E aí só me ocorre uma ideia perante isto: a cultura, os valores humanistas, o nosso legado civilizacional, são simultaneamente o nosso refúgio, mas também têm que ser a nossa fonte de inspiração; mas sobretudo eu penso que o inconformismo dos mais jovens é a melhor garantia de que um renovado equilíbrio e um novo contrato social serão possíveis, e que o futuro ainda não está escrito.”

Connosco
Relatório do Obercom analisa tendências futuras dos “media” Ver galeria

Com a pandemia, a maioria dos jornalistas passou a ter que trabalhar em regime remoto, abandonando o espaço de redacção e o contacto directo com colegas de profissão.

Isto fez com que os colaboradores dos “media” passassem a depender dos seus dispositivos electrónicos para assegurar a comunicação com os editores, além de conjugarem a vida pessoal e profissional num único local.

Se, por um lado, alguns dos jornalistas apreciaram a flexibilidade deste novo regime, por outro lado, um número considerável de profissionais disse estar descontente com o “continuum” família/trabalho.

O caso da imprensa portuguesa foi, agora, analisado por um relatório do “Obercom”, cujos investigadores quiseram perceber qual a opinião dos jornalistas nacionais, quanto à possibilidade de o teletrabalho se transformar no “novo normal”.

O relatório analisou, ainda, outras questões relacionadas com o futuro do jornalismo português, como a diversidade nas redacções e “atracção e retenção de talentos em tempos de incerteza”.

Para este relatório foram consideradas as respostas de 98 inquiridos.

De acordo com o estudo, em Portugal, o teletrabalho é percepcionado como algo que teve consequências negativas para o jornalismo, em particular no que diz respeito ao trabalho colaborativo (75% dos inquiridos discordam que o trabalho remoto tenha facilitado a construção e manutenção de relações em equipa). Neste sentido, os inquiridos dizem, ainda, ter sentido quebras na sua eficiência e criatividade.

A percepção sobre os efeitos negativos do teletrabalho está, também, em concordância com a vontade expressa pelos jornalistas de regressar às redacções.

Dicas (possíveis) para a protecção “online” dos jornalistas Ver galeria

Após a revelação do “Projecto Pegasus”, e de que cerca de 180 jornalistas poderiam ter sido vigiados por um “software” móvel, a associação Repórteres sem Fronteiras (RSF) publicou uma lista de recomendações para profissionais dos “media”, com o objectivo de garantir um maior nível de segurança para todos os potenciais visados.

Neste sentido, os RSF recomendaram que os profissionais incluídos na lista de jornalistas vigiados trocassem, de imediato, os seus dispositivos móveis, para continuarem a comunicar sem que as suas informações pessoais fossem partilhadas com terceiros.

Da mesma forma, a associação recordou a importância de desconectar todas as contas das redes sociais, bem como da alteração de palavras-passe.

Caso não seja possível trocar de “smartphone”, os RSF aconselham os jornalistas a reiniciarem os dispositivos, já que isto pode travar o funcionamento dos “softwares”.

Após estes primeiros passos, recomenda-se que os jornalistas reforcem o nível de segurança dos dispositivos tecnológicos, activando uma palavra-passe com quatro dígitos distintos, que não tenha qualquer relação com dados pessoais, tais como a data de nascimento.

Um maior nível de segurança passa, também, pela actualização frequente dos sistemas operativos, e pela instalação de um serviço antivírus.

Quanto às redes sociais, os RSF aconselham que os jornalistas activem o acesso em dois passos: palavra-passe e identificação facial, por exemplo.

A associação recomenda, ainda, que os profissionais dos “media” não utilizem redes wi-fi suspeitas, e que nunca carreguem em “links” de fontes desconhecidas.

Para os jornalistas que trabalham na área da investigação, a melhor solução é optar por um telemóvel antigo, que não tenha acesso à internet, acrescentam os RSF.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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Opinião
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Carlos Barbosa
No Brasil, começou esta aventura, com o Dinis de Abreu!! Foi há 40 anos, estava ele no Diário de Noticias e eu no Correio Manhã, quando resolvemos, com mais uma bela equipa de jornalistas, fundar o Clube Português de Imprensa. Completamente independente e sem qualquer cor politica, o Clube cedo se desenvolveu com reuniões ,almoços, palestras, etc. Tivemos o privilégio de ter os maiores nomes da sociedade civil e política portuguesa...
A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
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