Sábado, 8 de Maio, 2021
Jantares-debate

O euro para Portugal não é descartável - defendeu António Vitorino

Falando no jantar-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Que Portugal na Europa, que futuro para a União?”, António Vitorino sublinhou a gravidade da presente crise que a UE atravessa, identificou os desequilíbrios e as fracturas que ameaçam o projecto fundador, mas manteve a sua confiança em que os cidadãos saberão sair dos próximos testes eleitorais “com nova vontade de continuarmos a construir a Europa na paz, na solidariedade, na promoção do crescimento económico e do bem-estar das populações”.

António Vitorino começou pelos problemas, reconhecendo que em Portugal e na Europa, hoje, é preciso ser “muito optimista” para ser europeísta, que “a Europa atravessa uma crise séria, que não é como as anteriores”, e que, “desta crise, a saída não é forçosamente um reforço da Europa”.

 

Afirmou a seguir que a construção europeia “parte de um princípio de equilíbrios”, em que, havendo embora ênfase diverso nuns ou noutros elementos, no final todos os Estados-membros se possam sentir “confortáveis com o equilíbrio encontrado”:

 

“A partir do momento em que se começar a alterar o equilíbrio de algumas das componentes, a resultante global pode ser seriamente afectada.”

 

O orador referiu depois as questões que hoje se colocam: se “fomos depressa demais e longe demais”, por exemplo  -  “se o projecto europeu precisava, de facto, de uma moeda única: se o euro era necessário, ou se não terá sido uma precipitação, um passo maior que a perna”. 

Reflectindo sobre este tema, e tendo dito que “não há tabus” para o debate em democracia, António Vitorino defendeu que não é possível sustentar a ideia de que “o euro, hoje, para um país como Portugal, ou para outros países, é descartável, e que seria possível voltar ao ponto onde estávamos antes de termos aderido à moeda única europeia”.

 

Afirmou que, em vez disso, “a questão que se coloca agora em relação ao futuro da Europa é a de que, tanto para Portugal como para o conjunto dos países europeus, não há caminho de retrocesso”.

 

Debruçou-se então sobre “o nosso posicionamento como país no quadro zona euro, à luz daquilo que pode e deve ser feito para que o projecto tenha um resultado positivo”.

 

António Vitorino passou a descrever o que está incompleto na construção do mercado interno, mencionando demoradamente o mercado interno da energia, o dos serviços, o da digitalização da economia e o do sistema de financiamento bancário, entre outros possíveis.

 

E prosseguiu dizendo que “chegamos aqui a um ponto que é um paradoxo” porque, se “há ainda muito que fazer, há que completar o mercado interno, há que completar a arquitectura da união económica e monetária”, mas as opiniões públicas não parecem disponíveis para o aceitar de bom grado.

 

Concretamente, referiu-se ao que se passa “do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, que vai ter obviamente uma repercussão directa na condução da política monetária europeia; já não falo só da política económica, falo da política monetária”.

 

Desse lado virão “efeitos inflacionistas” e, provavelmente já em Dezembro, “um primeiro aumento das taxas de juro de referência da Reserva Federal americana”. E continuou:

 

“A pressão que vai vir do outro lado do Atlântico também vai adicionar-se às pressões internas na Europa, para que o BCE deixe de praticar a política de taxas de juro negativas ou quase, e que passe também a ter uma aproximação mais proactiva sobre a política das taxas de juros, e isso pode ter efeitos negativos na perspectiva de recuperação económica europeia.”

 

“Portanto, estamos a viver um momento onde a evidência mostra que é preciso transferir novas competências para o nível europeu (...)  e, contudo, temos a consciência de que as opiniões públicas hoje não estão preparadas para aceitarem facilmente novas transferências de competências”.

 

António Vitorino recordou, neste ponto, que “o projecto europeu sempre se legitimou através dos resultados, que se traduzem em prosperidade económica, bem-estar e protecção social; mas o que hoje se passa no conjunto das opiniões públicas europeias é um sentimento difuso de que esta fórmula mágica, que durante quase 60 anos produziu essa prosperidade, bem-estar e protecção social, deixou de funcionar como no passado, no mundo globalizado em que vivemos. É aqui que reside talvez a questão mais espantosa: é a ilusão, que esteve presente no Brexit, de que a solução é cada um remar por si próprio”.

 

Para corrigir essa ilusão, chamou a atenção para os números, como disse:

 

“Em 2030, não haverá à mesa do chamado G7 nenhum país europeu. Nem a Alemanha, que será em 2030 a nona economia do mundo. No grupo das economias mais desenvolvidas, que é um grupo que dita regras para a economia mundial, nós podemos correr o risco de não ter nenhum país europeu. Só a União Europeia, como conjunto, é que pode ter o peso e a capacidade suficiente para estar presente no G7, daqui a alguns anos.”

 

A terminar, o orador equacionou o futuro da Europa em três dimensões fundamentais, que contêm em si outras tantas fracturas:

 

Repetiu que “não há caminho de retrocesso para o euro”, mas contou o resto da história, na dinâmica da moeda única entre economias com graus de desenvolvimento muito diferentes entre si:

 

“Nesta dinâmica há ganhadores e perdedores, historicamente foi sempre assim. Na União Europeia negoceiam-se interesses entre os Estados, umas vezes ganham, outras vezes perdem; o problema essencial da UE é que não pode haver quem ganhe sempre e quem perca sempre, porque isso mina a coesão do projecto. O problema é que começa a instalar-se a ideia de que as próprias regras de funcionamento da união económica e monetária geram ganhadores permanentes e perdedores permanentes.”

 

Decorrem daqui “fracturas por grupos regionais, que são a melhor forma de acabar com o projecto europeu. O Sul contra o Norte, ou o Norte contra o Sul, noutras matérias o Leste contra o Oeste ou o Oeste contra o Leste, os pequenos contra os grandes, e esta é que é a dinâmica disruptora do projecto europeu”.

 

António Vitorino insistiu na necessidade de “ultrapassar a desconfiança mútua entre os Estados, sobretudo a desconfiança mútua básica que separa a França e a Alemanha; sem haver uma convergência entre a França e a Alemanha não há progresso no projecto europeu. Não é possível pensar num motor alternativo. Agravado ainda com a saída dos Britânicos”.

 

Sublinhou depois a importância do crescimento económico  -  onde a fractura já visível passa pelo primeiro “bode expiatório” escolhido, que é o comércio internacional: “O que vemos hoje é o crescimento da ideia do proteccionismo, do fechamento das fronteiras, do isolamento dos Estados; e isso tem um custo económico, vai ter… A frase do Brexit, take back control, é uma frase muito forte, mas é uma pura ilusão… É um problema não apenas económico, mas político, porque tem a ver com o tipo de sociedade em que queremos viver.”

 

Em terceiro lugar falou na fractura social, que é “não apenas etária, geracional, mas também do ponto de vista social e das regiões onde as pessoas vivem”, como se verificou tanto no Brexit como nas eleições presidenciais nos EUA.

 

Chamou a atenção para a importância dos quatro actos eleitorais próximos na Europa, o referendo de 4 de Dezembro na Itália, em Março as eleições na Holanda, as presidenciais e as legislativas em França e depois na Alemanha.

 

António Vitorino fez questão de encerrar com uma manifestação de esperança:

 

“Tenho confiança em que o espírito de abertura, de diálogo, de tolerância, em segundo lugar a força da ideia europeia, da interdependência e dos equilíbrios que esta deve gerar, e sobretudo o amor dos europeus à democracia, nos permitirão ultrapassar estes testes eleitorais e deles sairmos desta crise com novo alento e nova vontade de continuarmos a construir a Europa na paz, na solidariedade, na promoção do crescimento económico e do bem-estar das populações.”

Connosco
"The Guardian" festeja 200 anos com jornalismo na primeira linha Ver galeria

O jornal britânico “ The Guardian” celebrou, recentemente, o seu 200º aniversário.

E, como forma de assinalar a efeméride, vários editores de publicações internacionais enviaram uma mensagem de tributo à publicação.

O então “Manchester Guardian” lançou a sua primeira edição em 5 de Maio de 1821, em resposta ao massacre de Peterloo. Desde esse dia, o título publicou mais de 54 mil edições e milhões de artigos jornalísticos, conquistando alguns prémios pelo caminho, incluindo um Pulitzer.

Para Christian Broughton, director do “Independent”, o “Guardian” soube “aproveitar um massacre para iniciar um movimento”.

“O massacre de Peterloo foi um incidente único”, disse Broughton. “Enquanto houver realidades difíceis sobre as quais reportar, continuaremos a precisar de jornalistas a exercerem as suas funções, e leitores que reconheçam o seu valor”.

Por sua vez, Marty Baron, do “Independent”, elogiou o “Guardian” por ser uma “fonte de inspiração para muitos”.

“Quando se completam 200 anos enquanto instituição mediática, isso significa que se está a fornecer um serviço público de qualidade”, afirmou.

Já Fran Unsworth, directora da BBC News, considerou o marco de 200 anos como uma “conquista extraordinária”.

“A história do ‘Guardian’ é uma tapeçaria rica em jornalismo de investigação, com responsabilização do poder político e em atenção aos interesses dos seus leitores”, rematou Unsworth.

Da mesma forma, o editor-executivo do “El País”, Javier Moreno, expressou a sua admiração pelo “jornal lançado no século XIX, em Manchester”, que se “tornou numa referência mundial”.

Outros jornalistas destacaram, por outro lado, os esforços da publicação para construir um modelo de negócio sustentável.

Hillary contra países autoritários que utilizam "media" para propaganda Ver galeria

Por ocasião do 200º aniversário do “Guardian”, a antiga candidata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, concedeu uma entrevista ao jornal britânico, para debater a importância do combate à desinformação.

Conforme recordou o “Guardian”, Hillary Clinton foi candidata presidencial numa altura em que as campanhas “fake news” começaram a ganhar força.

Aliás, de acordo com várias fontes jornalísticas, a campanha de Clinton foi prejudicada por um movimento de Moscovo, que começou a disseminar notícias falsas sobre o passado da candidata nas redes sociais.

Cinco anos depois -- e apesar da mudança de presidência dos EUA-- as campanhas de desinformação e as “teorias da conspiração” ganharam ainda mais força, ameaçando a segurança e o bem-estar dos cidadãos.

Posto isto, Hillary Clinton defende que os “media” têm que alterar a sua estratégia e deixar de “defender que a verdade se encontra algures no meio”, enquanto se preparam para enfrentar o poder das redes sociais.

“As empresas tecnológicas são, agora, muito mais poderosas do que qualquer meio de comunicação tradicional”, reiterou a antiga primeira-dama dos EUA. “Acho que tem de haver um reconhecimento internacional dos perigos da desinformação, bem como da questão do monopólio”, continuou, referindo-se, em concreto, ao caso do Facebook.

Assim, Clinton espera que o actual governo dos EUA imponha novas directrizes a estas empresas.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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Opinião
Se olharmos para o ranking da liberdade de imprensa, elaborado pela organização internacional Repórteres sem Fronteiras (RSF), verificamos que Portugal fecha o top ten em 2020, entre 180 países avaliados, tendo melhorado duas posições desde o ano anterior. É uma classificação confortável, numa lista liderada pela Noruega, onde a vizinha Espanha aparece em 29.º lugar e a Coreia do Norte em último, um exemplo...
Limites da liberdade de expressão
Francisco Sarsfield Cabral
Na internet não deve continuar a prevalecer a lei da selva. O que não é um apelo à censura, muito menos se ela for praticada pelos gestores das empresas tecnológicas. Cabe à política, e não às empresas, assegurar o bem comum. Quem escreve na internet deverá sujeitar-se às condições jurídicas que não permitam atos que são considerados crimes nos media tradicionais.Não há...
Venham mais 40!...
Carlos Barbosa
No Brasil, começou esta aventura, com o Dinis de Abreu!! Foi há 40 anos, estava ele no Diário de Noticias e eu no Correio Manhã, quando resolvemos, com mais uma bela equipa de jornalistas, fundar o Clube Português de Imprensa. Completamente independente e sem qualquer cor politica, o Clube cedo se desenvolveu com reuniões ,almoços, palestras, etc. Tivemos o privilégio de ter os maiores nomes da sociedade civil e política portuguesa...
A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
A ideia fundadora do CPI, pelo menos a que justificou a minha adesão plena à iniciativa, foi o entendimento de que cada media é uma comunidade de interesses convergentes. A dos editores da publicação, a dos produtores, a dos que comercializam. Isto é, uma ideia cooperativa de acionistas, jornalistas e outros trabalhadores. E, obviamente, uma ideia primeira de independência e de liberdade. Esta ideia causou, há quarenta anos, algum...
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11
Mai
A Inteligência Artificial e o Futuro do Jornalismo
14:00 @ Palácio Nacional da Ajuda
18
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Congreso Internacional de Ética de la Comunicación
10:00 @ Universidade Complutense de Madrid
18
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19
Mai
2021 Collaborative Journalism Summit
09:00 @ Conferência "online" do Journalism Fund