Sexta-feira, 22 de Março, 2019
Media

Jornalismo cultural dependente da "ditadura da agenda"

A abundância de material informativo a chegar, sem ser pedido, à mesa do jornalista, é uma coisa boa ou má? Depende da origem e do que se trata. Mas, sendo boa, não deve substituir a iniciativa de reportagem do próprio; e, vinda da inciativa de outrem, deve sempre ser sujeita à verificação da sua oportunidade, justeza e intenção do remetente.

Esta reflexão é feita, pelo jornalista Franthiesco Ballerini, a propósito da “ditadura da agenda” no jornalismo cultural, em que o redactor abdica da reportagem e da investigação do que realmente interessa, para ficar acomodado “dentro da redacção, debaixo do ar condicionado, à mercê das centenas de sugestões de pautas recebidas por e-mail”.

O que ele descreve pode acontecer no jornalismo cultural como no de outras áreas, e no Brasil como aqui ou noutros países. Decorre, em parte, da suposta “oferta gratuita” trazida pelos novos meios tecnológicos, e em parte da pressão do “press-release recebido das centenas de assessorias de imprensa existentes”.

Este jornalismo “pronto a usar” não é inocente, e deve ser avaliado criticamente, tanto pelos profissionais como por leitores “mais exigentes”, como afirma o autor. Porque finalmente, e citando George Orwell, “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade.”

O artigo vem publicado no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria. 

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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