Sábado, 4 de Julho, 2020
Jantares-debate

Para Guilherme d’Oliveira Martins, "a Europa é mais necessária do que nunca"

No segundo jantar-debate do novo ciclo “Que Portugal na Europa, que futuro para a União?” promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, foi nosso convidado Guilherme d’Oliveira Martins, que fez uma reflexão aprofundada sobre os problemas e os perigos presentes, mas concluindo com uma mensagem de esperança sobre as virtualidades do nosso País. Como sintetizou:

“Se me perguntarem se estou optimista ou pessimista relativamente à Europa, eu direi que não estou optimista. Mas se me perguntarem se estou optimista ou pessimista relativamente a Portugal, eu direi que estou optimista, se cuidarmos bem do nosso jardim. Portugal tem inequívocas potencialidades”. Contudo, para o conferencista  “A Europa é mais necessária do que nunca. A fragmentação traz o risco do conflito desregulado".

Guilherme d’Oliveira Martins começou por afirmar que “o projecto europeu conhece hoje um dos períodos mais difíceis da sua história de 60 anos. A decisão recente do Reino Unido criou importantes incertezas políticas e económicas. Por outro lado, a economia europeia vive uma situação de estagnação: só agora estamos com o mesmo Produto que tínhamos em 2008”. (...)

“O crescimento na Europa é, por isso, muito fraco, a liderança política está enfraquecida, os partidos populistas têm um apoio significativo e preocupante (...) e os egoísmos nacionais regressam e a memória histórica da guerra desvanece-se.” 

Este tema marcou especialmente a sua apresentação dos riscos da presente situação europeia:

“Não esqueço aquilo que Joseph Rovain disse, ao sair, em Maio de 1945, de um campo de concentração: 'Vou lembrar e esquecer; lembrar, para que não volte a acontecer; esquecer, para que não haja o ressentimento e a vingança'.”  (...) 

“A guerra de 1914 nasceu num momento em que todos os críticos e analistas diziam: não vai haver guerra… não pode haver guerra, uma vez que o Imperador da Alemanha é neto da Rainha Vitória; por outro lado, diziam os partidários das vanguardas proletárias: no dia em que houver guerra, os soldados, que são proletários, abraçar-se-ão na frente de batalha. Sabemos o que aconteceu.” 

“A guerra começou em Agosto de 1914 e os analistas que tinham dito que não podia haver guerra disseram então que, já que há guerra, ela será rápida e os soldados estarão de volta no Natal. Mas essa guerra durou 30 anos porque, em 1918, aparentemente terminou, mas em 1919 os tratados de Versailles deram origem à humilhação dos vencidos” e, como previra Johan Maynard Keynes, voltou a haver guerra. 

Como afirmou, seguidamente, o orador, “não podemos esquecer as guerras civis europeias, como não podemos esquecer a diversidade, os conflitos, as tensões… e se em 1945 houve a lucidez de não repetir os erros de Versailles, o certo é que ninguém pode esquecer que houve o Plano Marshall, que houve a possibilidade de a Europa se recuperar economicamente graças a um investimento maciço, (...) um apoio significativo que permitiu as condições de paz de que nós hoje ainda somos beneficiários”.

 

Desenvolvendo este pensamento, citou um texto muito recente de Jacques Delors, em que são propostos “três objectivos, aparentemente modestos, mas muito exigentes”:

1º - Preservar a Europa como um espaço de paz;  2º - Garantir que haja desenvolvimento sustentado na Europa;  3º - Preservar a diversidade cultural europeia, neste cadinho complexo de várias influências, de várias culturas. 

“Jacques Delors dizia, simultaneamente, que a União Económica e Monetária está mal preparada para a crise que pode vir aí… A acção do Banco Central Europeu revelou-se importante, mas insuficiente, e não foi aproveitada devidamente. A estagnação europeia deve-se ao fechamento da economia no mercado interno, resistência à inovação e à criatividade, fragmentação política, insuficiência das medidas de coesão económica e social.” 

“Ainda há muito pouco tempo vimos discutirem-se sanções para os países da coesão e do défice, e ninguém ousou dizer o que quer que fosse relativamente à aplicação integral do mecanismo europeu de coesão, que obriga a que os países que geram excedentes tenham que os partilhar.” 

 

Guilherme d’Oliveira Martins sublinhou a necessidade de reconhecer que “a legitimidade europeia é uma legitimidade dupla, é a dos Estados e é a dos cidadãos europeus”. 

Mais adiante afirmou:

“A União Económica e Monetária deverá fundar-se numa partilha de riscos, numa partilha de soberanias e num quadro coerente daquilo que muitas vezes se tem designado, mas sem consequência, de governo económico da União. Mas nada disto, nenhuma destas três ordens de providências, medidas de emergência, convergência e crescimento, partilha de riscos, soberanias partilhadas, se não houver uma maior proximidade relativamente aos cidadãos, melhor participação, uma democracia supra-nacional, com reforço da participação dos Parlamentos nacionais.”

 

Recordou, a propósito, que “Carlos I de Inglaterra foi decapitado porque não consultou o Parlamento no lançamento de novos impostos. (...)  E a partir de 1688 o Parlamento passou a ser obrigatoriamente convocado uma vez por ano, para consentir nas receitas e para autorizar as despesas”. 

“Naturalmente por deformação profissional, sendo eu professor de Finanças Públicas, é óbvio que não esqueço que a origem dos Parlamentos está no consentimento dos impostos. E reparem que esta questão é absolutamente crucial: como é que pode haver coesão económica e social com um Orçamento comunitário de 1% do PIB europeu? Os cálculos estão feitos, 3% já seria algo de muito, muito insuficiente, mas seria o mínimo dos mínimos na actual circunstância.”  (...)  

 

Para além disso, defendeu a instituição de um Senado Europeu, “um Senado onde todos os Estados estejam representados igualitariamente, e que, através de um entendimento com o Parlamento Europeu, possa justamente haver esta dupla legitimidade, para que os cidadãos se sintam representados”. 

 

Outra lacuna que sublinhou, citando de novo Jacques Delors, foi a de que, afinal, “o Euro continua incompleto; o Euro é fundamental, não se desvalorize o seu papel político, mas está incompleto. Porquê? Os Estados viram-se privados de mecanismos de ajustamento, mas a União Europeia não passou a dispor de mecanismos alternativos de estabilização. E no fundo, esta é a questão. Todos sabemos que a solução não é ter a capacidade de desvalorizar a moeda nacional, nem é o modelo de desvalorizações competitivas, não. Mas é, isso sim, em cada Estado a preservação de mecanismos de ajustamento, que devem ser complementados pelos mecanismos alternativos de estabilização, através da partilha de soberanias”.  (...)

 

“A Europa é mais necessária do que nunca. A fragmentação traz o risco do conflito desregulado. Vivemos, afinal, num sistema de polaridades difusas, que tanto gera a ameaça do terrorismo, tanto gera 11 de Setembro de 2001, como gera a incapacidade de encontrar soluções que permitam afinal a coesão, que permitam o progresso.”

 

Sobre Portugal, Guilherme d’Oliveira Martins afirmou que “é um país médio com responsabilidades de grande potência. Não é um país pequeno, sabemo-lo bem. Mas mesmo que fôssemos, temos sempre as responsabilidades de ter uma dimensão e uma projecção global. A língua portuguesa será falada, no final deste século, por 400 milhões de falantes. É hoje, já, a língua mais falada no hemisfério Sul. Só cinco línguas vão crescer significativamente nas próximas décadas: o mandarim, o hindi, o inglês, o espanhol e o português. Isso é significativo, mas corresponde a uma responsabilidade. Os falantes do português vão, sobretudo no Brasil, crescer até 2070, e entre 2070 e 2100 vão crescer sobretudo na zona do planalto do Huambo até Benguela, sendo que os dois pólos do Atlântico Sul vão ser muito significativos relativamente à presença da língua portuguesa”.

 

O orador definiu o Português como “língua de várias culturas, cultura de várias línguas. Quem conhece Goa sabe que em Goa não há cultura portuguesa, há indo-portuguesa. Quem conhece o Japão sabe que 250 vocábulos de uso comum são de origem portuguesa. Esta questão da língua é particularmente importante e está a ser compreendida em termos geo-estratégicos”.

 

Sublinhou também o valor económico da língua portuguesa, afirmando que “os estudos que existem hoje, relativamente ao valor económico da língua portuguesa, todos pecam por ter um valor por defeito. O valor da língua é extraordinariamente importante, e não é só da língua, por isso temos que evitar uma tentação, que é a atitude um pouco paternalista a propósito da língua, como se fôssemos de algum modo os pais, os proprietários dessa língua. Não, é uma língua de várias culturas e é uma cultura de várias línguas. E é essa a sua força, é essa a sua capacidade”.

 

Guilherme d’Oliveira Martins encerrou a sua palestra com apelos a “uma aposta clara num conceito aberto e amplo de sustentabilidade, não só a sustentabilidade financeira, mas também a económica, a demográfica, social, ambiental”;  “uma aposta forte na inovação e na criaitivdade”, considerando que “temos hoje a geração jovem mais qualificada em todos os momentos da nossa História”;  e “sobriedade económica, solidariedade e subsidiaridade”, considerando que “a economia é para as pessoas”.


 

E concluiu:

Vêem por que razão é que eu estou optimista relativamente a Portugal? É que eu acho que temos energias suficientes, acho que temos capacidades suficientes para poder responder aos desafios. Eles são exigentes. Mas a História nos diz que nós sempre fomos melhores na provação do que no sucesso.”

Connosco
Lei de transparência aprovada no Brasil encontra resistências Ver galeria

Os “fact-checkers” brasileiros uniram-se contra a aprovação da “Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet”.

Segundo aqueles profissionais, esta lei aumenta o poder do Senado perante os “media”, porque lhes permite distinguir, oficialmente, o que é informação do que é “fake news”

O texto estabelece, ainda, que as autoridades podem rastrear mensagens replicadas nas redes sociais.

Em entrevista ao instituto Poynter, Natália Leal, coordenadora da empresa de “fact-checking” Agência Lupa, constatou, ainda, que o documento permite ao Governo definir o que é a verificação de factos, e levantar condicionantes às suas actividades. Até porque, alguma figuras políticas, que apoiaram a aprovação da lei, consideram que o “fact-checking” não é mais do que um posicionamento ideológico.


A distribuidora Presstalis reaparece como France Messagerie Ver galeria

A Presstalis -- principal distribuidora de imprensa em França -- foi salva, depois de o Tribunal de Comércio de Paris ratificar a oferta de aquisição, apresentada pela Cooperativa de jornais diários franceses. 

A empresa, que foi rebaptizada de "France Messagerie", passará a empregar cerca de 300 pessoas, o que representa uma redução da força laboral para um terço.

"A prioridade da France Messagerie é, agora, construir relações de confiança, transparentes e duradouras com todos os actores do sector", sublinhou, num comunicado à imprensa Louis Dreyfus, Presidente da Cooperativa dos jornais diários, France Messagerie e do Conselho de Administração do Grupo Le Monde.

O “rebranding” da distribuidora é, contudo, apenas um primeiro passo, já que a empresa deverá fundir as operações com a Messageries Lyonnaises de Presse (MLP), no prazo de três anos.


O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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Agenda
27
Jul
Jornalismo ético como garantia de democracia
09:30 @ Universidade de Madrid
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague