Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
Media

A escolha das notícias entre o algoritmo e o editor

Colocada a questão de saber se preferem que as notícias sejam seleccionadas por um algoritmo ou por um editor, muitos leitores, especialmente os mais novos e mais envolvidos na tecnologia, escolhem o algoritmo. O argumento que os move é a suposta independência e neutralidade dos algoritmos, por contraste com os pressupostos editoriais ou políticos dos editores humanos. Estes dados são revelados num estudo do Reuters Institute, intitulado Brand and Trust in a Fragmented News Environment, que complementa o recente relatório 2016 Digital News Report, a que fazemos referência noutro local deste site.

O debate é muito actual e está longe de concluído. O artigo de Emma Goodman, que aqui citamos, tem o cuidado de descrever a linha de fractura e os motivos contraditórios das escolhas feitas. Mas descreve também, de modo geral, uma geração jovem mais dependente, e uma geração adulta mais desconfiada, do trabalho oculto dos algoritmos na preparação da nossa ementa diária de noticiário. 

O trabalho de base deste relatório assenta em debates de grupo realizados no Reino Unido, EUA, Alemanha e Espanha, com utentes jovens (entre os 20 e os 34 anos) e mais velhos (entre os 35 e 54), para entender de que modo se comportam no terreno da distribuição de notícias, onde os agregadores e as redes sociais são intermediários cada vez mais importantes. 

“O estudo revela que a confiança nas notícias está associada à relação com uma variedade de fontes e, como já tinha descoberto o Digital News Report, que muitas pessoas começam a sentir-se como editoras das notícias que consomem, misturando e reunindo uma quantidade de fontes diferentes e gerindo proactivamente as suas várias origens.” 

“Os que preferem ter editores, principalmente os mais velhos e menos à vontade com a tecnologia, apreciam a competência dos humanos e o modo maleável como é apresentada. Estes mais velhos, particularmente na Alemanha, mostram-se também preocupados com a possibilidade de os seus dados pessoais serem usados para fazer escolhas de conteúdos.” (...) 

“Muitos docentes de jornalismo e outros têm escrito sobre como é problemático que os algoritmos sejam entendidos como neutrais, quando nunca podem realmente ser: eles são sempre criados de acordo com princípios específicos. Os algoritmos sobre os quais as empresas de tecnologia constroem os seus negócios também nunca serão transparentes e, como não são entidades de utilidade pública, nunca serão responsabilizados. Como escreveu Emily Bell no Guardian: ‘O Facebook não se considera responsável pela dieta de Informação do mundo, mesmo que seja isto, precisamente, em que se está a tornar’.” 


 O artigo de Emma Goodman, no site do Reuters Institute

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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Opinião
Sobre a liberdade de expressão em Portugal
Francisco Sarsfield Cabral
O caso da participação num programa matinal da TVI de um racista, já condenado e tendo cumprido pena de prisão, Mário Machado, suscitou polémica. Ainda bem, porque as questões em causa são importantes. Mas, como é costume, o debate rapidamente derivou para um confronto entre a esquerda indignada por se ter dado tempo de antena a um criminoso fascista e a direita defendendo a liberdade de expressão e a dualidade de...
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