Sexta-feira, 22 de Março, 2019
Media

A escolha das notícias entre o algoritmo e o editor

Colocada a questão de saber se preferem que as notícias sejam seleccionadas por um algoritmo ou por um editor, muitos leitores, especialmente os mais novos e mais envolvidos na tecnologia, escolhem o algoritmo. O argumento que os move é a suposta independência e neutralidade dos algoritmos, por contraste com os pressupostos editoriais ou políticos dos editores humanos. Estes dados são revelados num estudo do Reuters Institute, intitulado Brand and Trust in a Fragmented News Environment, que complementa o recente relatório 2016 Digital News Report, a que fazemos referência noutro local deste site.

O debate é muito actual e está longe de concluído. O artigo de Emma Goodman, que aqui citamos, tem o cuidado de descrever a linha de fractura e os motivos contraditórios das escolhas feitas. Mas descreve também, de modo geral, uma geração jovem mais dependente, e uma geração adulta mais desconfiada, do trabalho oculto dos algoritmos na preparação da nossa ementa diária de noticiário. 

O trabalho de base deste relatório assenta em debates de grupo realizados no Reino Unido, EUA, Alemanha e Espanha, com utentes jovens (entre os 20 e os 34 anos) e mais velhos (entre os 35 e 54), para entender de que modo se comportam no terreno da distribuição de notícias, onde os agregadores e as redes sociais são intermediários cada vez mais importantes. 

“O estudo revela que a confiança nas notícias está associada à relação com uma variedade de fontes e, como já tinha descoberto o Digital News Report, que muitas pessoas começam a sentir-se como editoras das notícias que consomem, misturando e reunindo uma quantidade de fontes diferentes e gerindo proactivamente as suas várias origens.” 

“Os que preferem ter editores, principalmente os mais velhos e menos à vontade com a tecnologia, apreciam a competência dos humanos e o modo maleável como é apresentada. Estes mais velhos, particularmente na Alemanha, mostram-se também preocupados com a possibilidade de os seus dados pessoais serem usados para fazer escolhas de conteúdos.” (...) 

“Muitos docentes de jornalismo e outros têm escrito sobre como é problemático que os algoritmos sejam entendidos como neutrais, quando nunca podem realmente ser: eles são sempre criados de acordo com princípios específicos. Os algoritmos sobre os quais as empresas de tecnologia constroem os seus negócios também nunca serão transparentes e, como não são entidades de utilidade pública, nunca serão responsabilizados. Como escreveu Emily Bell no Guardian: ‘O Facebook não se considera responsável pela dieta de Informação do mundo, mesmo que seja isto, precisamente, em que se está a tornar’.” 


 O artigo de Emma Goodman, no site do Reuters Institute

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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