Sábado, 20 de Abril, 2019
Prémio

Prémio Europeu Helena Vaz da Silva entregue a Eduardo Lourenço e ao "cartoonista" Plantu em cerimónia na Gulbenkian

Os melhores valores da Europa, definidos como a liberdade, a democracia, o acolhimento e coexistência de culturas, estiveram no foco de todas as intervenções proferidas na cerimónia de entrega do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva deste ano, promovido pelo Centro Nacional de Cultura, em cooperação com a Europa Nostra e parceria com o Clube Português de Imprensa, que contemplou o filósofo e historiador português Eduardo Lourenço e o caricaturista francês Plantu. Também foi sublinhada a oportunidade da sua invocação, precisamente numa época em que são mais ameaçados, e a intuição premonitória da sua fundadora, Helena Vaz da Silva, cuja personalidade e obra foram recordadas com emoção.

Na sua qualidade de Presidente do Júri do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, coube a Guilherme d’Oliveira Martins fazer o discurso de homenagem a Eduardo Lourenço, recordando que  “foi Helena que publicou na inesquecível revista Raiz e Utopia o ensaio Psicanálise Mítica do Destino Português”, e que, mais tarde, numa adenda a esse texto fundamental do Labirinto da Saudade, bem ficaram demonstradas “as razões que levaram agora o júri do Prémio Europa Nostra a reconhecer o papel decisivo de Eduardo Lourenço para a preservação de um conceito dinâmico de Património Cultural”. 

Mais adiante, afirmou:

“Num mundo aberto e imprevisível  – o ensaísta, na linha de Michel Montaigne, deve estar à escuta do impensado e até do impensável, talvez sob a forma de um profetismo às avessas que o conduz ‘a revisitar o passado para melhor e mais livremente assumir a surpresa, a contradição, o desafio e o tumulto do presente’. (...)” 

“Assim, Eduardo Lourenço não segue nem a visão conservadora, nem a visão mítica e profética, nem a visão racionalista, nem a visão marxista. Dir-se-ia que é o repensamento crítico que está em causa  – e há duas figuras que marcam essa atitude: Alexandre Herculano e Antero de Quental. O ensaísta não se fecha numa interpretação redutora. Alexandre Herculano pôe a tónica na vontade contra o acaso. Antero de Quental propõe a superação perene das causas da decadência.” 

E Guilherme d’Oliveira Martins concluíu:

“Portugal não pode deixar de se rever nesta noção que Eduardo Lourenço propõe, a de partir da dialética mito/realidade, autognose real e desejada, para se centrar na perspectiva crítica do património – como realidade viva que não pode esquecer a origem do mito.” (...)

"Helena Vaz da Silva, na publicação que promoveu em Raiz e Utopia, intuíu a importância desta reflexão – e não poderia, por isso, ser mais oportuno e justo este prémio. O sentido crítico de um cartoonista de qualidade e exigência como Plantu encontra-se com a linhagem de Montaigne, bem  representada aqui por Eduardo Lourenço." 

Em resposta, Eduardo Lourenço iniciou a sua alocução com um cumprimento dirigido a “alguém que está presente, a nível simbólico, na ordem política do nosso planeta, tão modestamente sentado naquela cadeira”  - apontando para António Guterres, que foi alvo de um aplauso espontâneo de todos os presentes. 

Dirigindo-se a Guilherme d’Oliveira Martins, agradeceu o prémio como testemunho de uma “paixão europeísta” comum a ambos, e presente, antes do mais, na sua fundadora. Recordou o seu conhecimento pessoal de Helena Vaz da Silva na Livraria Morais, perto de António Alçada Baptista, na sua tentativa de trazer para Portugal um tipo de preocupações culturais que se traduziu “numa obra que nós todos conhecemos”. 

Sobre Helena, recordou um momento muito particular, numa sua visita a Cannes, em que visitaram o antigo convento beneditino da ilha de Lérins, que definiu como “um sítio mágico”, que mesmo a proximidade de Cannes, no tempo do festival, “não conseguiram mundanizá-lo de todo”.

“Visitámo-lo como se estivéssemos num outro continente e num outro mundo, e de algum modo estávamos, como se passeássemos ao mesmo tempo numa ilha grega…” 

Eduardo Lourenço situou nesse encontro a recordação mais viva de Helena Vaz da Silva: “Quem não a conhecesse não adivinharia a sua serena audácia, o seu gosto do mundo e dos outros, a sua curiosidade insaciável, o seu contentamento descontente, ou descontentamento exigente, entre aqueles que tinham a sorte de a ter conhecido. (…) Na verdade, essa mulher solar não precisava de conquistar nada. As coisas vieram sempre ao seu encontro, como se esperassem por ela, sem dúvida porque antes ela as sonhara, e sonhava delas. Assim a recordo, sobre o fundo do mar, que por acaso era o de Ulisses e o de Helena, seu predestinado nome.” 

Coube ao Presidente Executivo da Europa Nostra, Denis de Kergorlay, fazer o louvor de Jean Plantureux, que assina e é conhecido por todos como Plantu, e que disse “pertencer a esta categoria de pessoas que se podem classificar como idealistas-humanistas”, em cujo meio se move como um “federador”. 

“Os teus inimigos, nos teus desenhos  -  disse, dirigindo-se ao laureado  -  são sempre os memos, os que não são humanistas-idealistas, quer dizer os ditadores, os intolerantes, os populistas, os sectários, no domínio da política ou da religião.” 

Sublinhou a sua capacidade para passar todas as fronteiras e se tornar realmente universal, fazendo parte de um “exército que combate contra a estupidez humana, o egoísmo, as ditaduras”.

A arma de destruição maciça que ele traz sempre consigo, que que lhe permite passar por todos os controlos de aeroporto sem qualquer problema é, como explicou, a sua caneta de ponta de feltro e uma folha de papel. E é assim que dá a volta ao mundo “prosseguindo a sua missão”. 

“Quem não tivesse uma cultura profunda não poderia comunicar, por um simples desenho, com tanta força e para um público tão vasto.”

Recordou que na noite anterior, numa visita à Casa do Fado, Plantu deixou incontáveis guardanapos de papel com desenhos seus. E mantém este ritmo sem deixar de enviar todos os dias, do lugar onde estiver, o seu cartoon diário para a redacção do Le Monde

A concluir, cumprimentou-o por defender “os valores da nossa Europa: os da democracia, dos direitos humanos e do respeito pela pessoa humana”. Mesmo quando os seus desenhos descrevem a violência, para a denunciar, deixam sempre lugar à esperança, que aparece frequentemente na forma da pomba da paz e nas pequenas estrelas “que nos lembram que a Europa existe, e que é portadora de valores, e que nós estamos aqui para os defender”.

 

Em resposta, Plantu socorreu-se da sua arte, reproduzindo em projecção alguns dos desenhos trazidos para a exposição montada no átrio da Fundação, junto do auditório onde decorria a cerimónia, e numa segunda fase improvisando ele próprio, à medida que falava, desenhos espontâneos, que podiam ser vistos pelo mesmo processo. 

As relações entre Portugal, a França e a Europa a que pertencem, ocuparam grande parte desta palestra ilustrada, que manteve permanentes a atenção e o humor da assistência. No final, Plantu distribuíu a vários dos presentes, nomeadamente Eduardo Lourenço, António Guterres, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente da Fundação Gulbenkian, Artur Santos Silva e outros, caricaturas que entretanto fizera deles. 

Um tema a que voltou repetidas vezes, e sempre com o exemplo vivo dos seus trabalhos expostos, foi o da necessidade de tolerância e coexistência pacífica entre as três grandes religiões monoteístas que se sucedem no Médio Oriente e na Europa  - Judaísmo, Cristianismo e Islão -  bem como de pôr termo à espiral de retaliação recíproca que prolonga todas as guerras, de travar a construção de novas fronteiras de exclusão e de acolher os refugiados expulsos das suas casas destruídas, precisamente, pela guerra.

 

Encerrou a cerimónia o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que começou por saudar os vencedores do Prémio Europa Nostra, na Diocese de Santarém e no Parque da Peneda-Gerês, como exemplos de preservação do património cultural e do património natural. Cumprimentou, a seguir, António Guterres, como futuro Secretário-Geral das Nações Unidas, “uma honra e motivo de orgulho para nós, portugueses, e sobretudo uma oportunidade e uma esperança para o mundo”. 

Tendo prescindido do discurso que trouxera, o Presidente da República propôs-se então fazer uma breve reflexão sobre este momento “de triunfo da Europa, da liberdade e da democracia”. 

Definiu o Prémio Helena Vaz da Silva, criado em 2010, como “um prémio prospectivo”, porque, “quando foi criado, nós não esperaríamos aquilo que é hoje a situação vivida na Europa”, que nessa altura olhava para o futuro “numa onda de esperança, de optimismo e de qualidade”. 

“Infelizmente, temos hoje sobre a Europa sombras de divisão, de querelas, de nacionalismos, de xenofobias, de populismos, de fronteiras, de muralhas que tornaram este Prémio visionário, pioneiro e precursor. Ele quis preservar o património cultural da Europa, e nós precisamos de lutar todos os dias por esse património, por essa herança comum, virada para o futuro, embora baseada no passado.” 

Marcelo Rebelo de Sousa evocou depois a figura de Helena Vaz da Silva, sublinhando precisamente a sua “paixão europeia” e o facto de ter feito “da sua vida, à sua maneira, uma forma de projectar essa paixão pela Europa”  -  em primeiro lugar a Europa francófona (Mounier, Morin), depois alargada aos anglo-saxónicos, depois a projecção da Europa no mundo… 

Considerou, por estes motivos, muito feliz a escolha do júri deste ano, de Eduardo Lourenço, “um intelectual excepcional”, interrogando-se sobre o que é ser-se português e europeu, “visto o português a partir da Europa e a Europa a partir de Portugal, e os dois em conjunto, umas vezes parecendo estrangeirado, outras vezes parecendo um português que se projecta na Europa e no mundo, figura do Universo mas, sobretudo, um grande defensor dos ideais europeus”. 

Elogiou depois a arte de Jean Plantureux, lembrando que “as nossas gerações, de muitos que aqui estão, foram marcadas por Plantu”, porque “Portugal, antes da democracia, vivia a política olhando para França; recebia de França, nos anos 60 e 70, até à revolução de 74, as últimas notícias, os últimos desenhos, as últimas edições”, para uns o Le Monde, para outros o Nouvel Obs, mas com o Le Monde a simbolizar, de certo modo, “a liberdade, a democracia e a Europa que se queria atingir”. E Plantu aparecia lá “como o retrato, simultaneamente crítico, irónico  - mas nunca negativo, mesmo quando muito crítico, como foi bem acentuado -  sempre com um ideal de esperança, sempre com uma janela aberta para o futuro”. 

O Presidente da República recordou que, nesse tempo, “a França era ainda, para nós, o centro da Europa  - éramos francófonos -   mesmo quando, verdadeiramente, a França já não era o centro da Europa; mas isso não importava: para nós era, e Plantu e o Le Monde representavam, à sua maneira, essa Europa a que devíamos chegar”. 

“E, por isso, a nossa intimidade com Plantu é antiga e fiel. (…) Também ele lutou, e luta todos os dias, pela Europa, uma outra Europa, sem barreiras, sem fronteiras, uma Europa da tolerância, do diálogo, da riqueza cultural, da abertura civilizacional, uma Europa da democracia e da liberdade.” 

A terminar, Marcelo Rebelo de Sousa reafirmou, invocando a sua qualidade de Presidente da República Portuguesa, “a nossa fé na Europa, (...)  mesmo quando estamos críticos em relação à Europa que existe, à intolerância dessa Europa perante migrações e refugiados, à sua incompreensão em relação a vizinhos, e muitas vezes vizinhos próximos, à sua incapacidade de se recriar e se renovar, e de corresponder à esperança que esteve na sua génese.” (…)

____________________________

 

A entrega do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural e do Prémio Europa Nostra 2016 a dois projectos portugueses de reabilitação e desenvolvimento sustentável decorreu no Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo como mestre de cerimónias Sneska Quaedvlieg-Mihailovic, Secretária-Geral da Europa Nostra, que é representada em Portugal pelo Centro Nacional de Cultura.

 

A sessão foi inaugurada por Artur Santos Silva, Presidente da Fundação Gulbenkian, que falou das intervenções da instituição no estudo, preservação e restauro do património de origem e influência portuguesa no mundo e ao próprio Parque Gulbenkian, classificado em 2011 como monumento nacional.

Saudou, depois, Jean Plantureux e Eduardo Lourenço como “duas grandes personalidades da Europa” e, em especial, o segundo como “o maior pensador português do nosso tempo, a quem devemos uma profunda reflexão sobre a nosssa identidade, o nosso labirinto e a afirmação de Portugal no mundo”. Descreveu as suas qualidades humanas e de investigador e ensaísta, afirmando que “o convívio com Eduardo Lourenço é uma permanente descoberta  - raro sentido de humor, sagacidade que sempre nos surpreende, impressionante lucidez, coragem intelectual. (…) Sempre a olhar Portugal de fora para dentro, que é de onde se vê tudo - como ele próprio se justifica.”

Falou ainda, na introdução, a Presidente do Centro Nacional de Cultura, Maria Calado, que recordou Helena Vaz da Silva e o seu lema da “afirmação da cultura como instrumento para a felicidade, como uma arma para o civismo, como uma via para o entendimento dos povos”.

Por impedimento da presença do titular, foi lida pelo Secretário de Estado da Cultura, Miguel Honrado, uma mensagem do Ministro Luís Filipe Castro Mendes.

 

Os projectos contemplados com os Prémios Europa Nostra 2016, de reabilitação da Catedral e Museu Diocesano de Santarém, e de desenvolvimento sustentável numa área do Parque Nacional da Peneda-Gerês, foram apresentados, respectivamente, pela conservadora Eva Raquel Neves e pela gestora de projectos Rita Ferreiro.

 

A cerimónia de atribuição do 4º Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural foi introduzida por Dinis de Abreu, Presidente do Clube Português de Imprensa, que fez um breve enquadramento histórico desta realização, e cuja intervenção se encontra noutro local deste site

Seguiram-se então os discursos de louvor dos dois galardoados e a sessão de entrega dos prémios, conforme fica descrito acima.

 

Connosco
Agravam-se as restrições à liberdade de Imprensa - segundo os RSF Ver galeria

A situação da liberdade de Imprensa continua a degradar-se em muitos países, por todo o mundo. O ódio aos jornalistas degenerou em violência, o que leva a um aumento do medo na profissão.
É esta a síntese inicial da edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade da Imprensa, dos Repórteres sem Fronteiras, agora divulgada.

“Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”  - afirma Christophe Deloire, secretário-geral da referida ONG.

“O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança a actividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam o controlo sobre os meios de comunicação.” De acordo com este relatório, apenas 24% dos 180 países e territórios analisados apresentam uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”.

A Noruega mantém, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro lugar no ranking, com a Finlândia na segunda posição e a Suécia na terceira. Portugal subiu para o 12º lugar, ficando imediatamente acima da Alemanha, da Islândia e da Irlanda.
José Ribeiro e Castro: "Sofremos de uma periferia mental" Ver galeria

Portugal precisa de fazer três reformas atrasadas, e a primeira é a reforma eleitoral, para “devolver a democracia à cidadania, resgatar e salvar a democracia do declínio em que está e que nós sentimos, eleição após eleição”  -  afirmou José Ribeiro e Castro no ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Portugal: Que País vai a votos?”.

As outras duas são a do território, num País que é “um deserto administrativo”, e a do Estado, para o tornar “mais barato e eficiente” e realmente “dimensionado às capacidades do País”.

Segundo o nosso convidado, Portugal precisa ainda de dois propósitos, o mais urgente do combate à pobreza, o mais ambicioso de “atingir a média europeia em vinte anos”.

Finalmente, precisamos de realizar estes projectos assumindo a nossa condição europeia, em relação à qual continuamos a sofrer de uma “periferia mental”, que "é pior do que a geográfica, porque aqui não há auto-estrada que valha".
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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