Sábado, 25 de Maio, 2019
Media

A independência dos media quando confrontada com apoios estatais

Devem os meios de comunicação ter apoio oficial dos Estados em que se publicam? Ou a virtude e a independência estão na sua competição uns com os outros e na sobrevivência dos mais fortes, em economia de mercado sem interferência reguladora de qualquer espécie?

Aqui expostas em termos simplistas, estas são as duas “escolas de pensamento” que têm ocupado o espaço de debate público, mais ainda numa época em que tantos jornais têm sucumbido por efeito de um outro elemento imprevisto: a rapidez da inovação tecnológica digital.

Alfonso de la Quintana, professor de Empresa Informativa na Universidade Rey Juan Carlos, assina um elaborado estudo sobre esta matéria, detendo-se no caso espanhol mas referindo-se também ao ocorrido em quatro outros países europeus. O seu trabalho vem publicado em Cuadernos de Periodistas, da APM – Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

O autor começa por distinguir entre dois tipos de rentabilidade da empresa jornalística, a económica e a de influência (ou ideológica), dando exemplos do poder desta última e concluindo que, “tendo em conta esta característica, pode deduzir-se que qualquer Governo ou instituição que ajude um meio de comunicação pode, em troca, exigir alguma lealdade ideológica”.

 

São depois apresentadas as duas “escolas de pensamento” mais conhecidas, a “proteccionista” (dando como exemplo a Imprensa dos antigos países do bloco comunista, ou de países em vias de desenvolvimento), e a “liberal” (“o modelo mais difundido nos EUA e muito presente na actualidade pela escola económica neo-liberal”). 

Alfonso de la Quintana descreve também os vários tipos de ajudas estatais existentes no conjunto de Espanha, citando a respectiva legislação, e as especificamente autonómicas, como a lei basca de Abril de 1997, a lei catalã de Outubro de 1995 e a lei galega de Setembro de 1996.

 

Apresenta depois quatro casos de países europeus em que o Estado tomou medidas de apoio à Imprensa:   

 

1 - o da Suécia, com um dos mais elevados “índices de mortalidade de jornais” (eram 250 em 1950, passaram a ser 146, e as cidades onde há um jornal diário eram 51, são agora 20).

2 - o da Alemanha, (eram 755 em 1950, desceram para 364, e só entre 1974 e 1976 as receitas de publicidade caíram 50%).

3 - o da Grã-Bretanha, onde, segundo o autor, “as ajudas do Estado não são tão numerosas como noutros países porque as empresas jornalísticas britânicas se negam a aceitá-las” e a crise é agravada, entre outros factores, pelo “papel intransigente dos sindicatos, que não permitiram uma redução de pessoal na sobredimensionada mão-de-obra dos jornais”.

4 - e o de França, onde o Governo anunciou a intenção de suprimir um apoio indirecto, de natureza fiscal, que benficiava os salários dos profissionais, levantando contra si a oposição do colectivo dos cerca de 25 mil jornalistas franceses.

 

No final de uma leitura comparada destes exemplos, Alfonso de la Quintana conclui:  

 

“É preciso ajudar com transparência e de maneira pontual as empresas jornalísticas, para fomentar a liberdade, em momentos altamente críticos. As ajudas devem ser independentes, sem poder exigir-se em troca uma prestação ideológica ou económica.” 

 

O texto original, em Cuadernos de Periodistas

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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