Sexta-feira, 16 de Novembro, 2018
Media

A implosão do jornalismo como o conhecíamos e as alternativas para a crise da Imprensa

A presente crise do jornalismo, nos EUA, é não só uma ameaça à democracia como uma questão premente de “segurança nacional”. Quem põe a questão nestes termos fortes é o jornalista americano David Sassoon, que defende como resposta a criação de pequenas empresas de jornalismo não lucrativo e explica os sete motivos da sua viabilidade e vantagens.

Recolhemos esta reflexão do Global Investigative Journalism Network, que por sua vez a reproduz com autorização do site fundado pelo autor, InsideClimate News.

O autor começa por descrever a “implosão do jornalismo como o conhecíamos”, traduzida em “dezenas de milhares de jornalistas que perderam os seus empregos nesta última década”:

“Nos cerca de 1.400 jornais diários existentes nos Estados Unidos, encontram-se a trabalhar 33 mil jornalistas, quando em 2007 eram 55 mil.”

 

David Sassoon propõe depois uma imagem pertinente:

“A Imprensa livre é o órgão da transparência e da responsabilidade. Mantém a democracia livre de toxinas, funcionando como o fígado do nosso corpo político. Sem ele, entramos em disfunção metabólica e afogamo-nos no nosso próprio veneno.”

 

O problema, como diz com alguma ironia, é que, embora a Primeira Emenda [da Constituição dos EUA] identifique o direito a uma Imprensa livre, não garante nem explica como será paga: “Uma Imprensa livre é um atributo fundamental da liberdade mas, sobre a questão de ser um projecto lucrativo, a Constituição é omissa.”  

O autor reconhece que o jornalismo não lucrativo não será uma “cura completa” para tudo o que nos aflige mas, pelo menos, já “provou ser um tónico poderoso para o doente”.

 

Dos seus sete pontos em defesa de um jornalismo não lucrativo, os primeiros cinco explicam como é que este tónico não lucrativo funciona:  1 – A sua única missão é a prática do jornalismo,  2 – Os recursos são usados de modo mais eficiente,  3 – Resiste às pressões que comprometem a independência editorial,  4 – Só sobrevive com elevados padrões de jornalismo,  5 – Desenvolve competências e conhecimentos especializados nos nichos de informação referidos no ponto anterior.

 

Os últimos dois pontos são também dois apelos:  6 – O jornalismo não lucrativo precisa do apoio dos seus leitores e...  7 – Precisa, também, de algum mecenato.

David Sassoon fala da entrada de Jeff Bezos no Washington Post e propõe:

 

“Ao próximo ‘anjo’ com esse dinheiro para gastar em jornalismo, aqui fica uma sugestão:  funde 50 projectos não lucrativos, dê a cada um cinco milhões de dólares em dinheiro de lançamento e deixe-os rodar. Mesmo que só sobreviva um terço ou um quarto deles, seria um grande investimento no futuro do jornalismo americano.”

 

O texto original de David Sassoon, no GIJN, e o site InsideClimate News

Connosco
Bettany Hugues defendeu a importância da memória na construção do futuro e da paz Ver galeria

A historiadora britânica Bettany Hugues, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hugues como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

Para Alberto Dines, “o jornalismo era o próprio sentido da vida” Ver galeria

Cada história é uma vida, e algumas delas são muito especiais. “Alberto Dines foi autor e protagonista de uma dessas trajectórias incomuns: um intelectual visceral, que usou a sua inteligência e lucidez não para disputar uma partida, mas para mudar o jogo.” Sob o título “Uma vida sem ponto final”, um dos seus numerosos discípulos, Bruno Thys, evoca com a saudade de uma relação muito pessoal o percurso e obra de Alberto Dines, falecido em São Paulo em Maio deste ano.

O autor do texto que citamos valoriza uma parte da biografia menos mencionada de Alberto Dines, a que o coloca numa linhagem de judeus emigrados de uma Europa em várias convulsões:

“Dines tornou-se uma das mais cintilantes estrelas de sua geração, a primeira de judeus nascidos no Brasil. (...) Da geração de seus pais, herdou a cultura ancestral. Dines tinha sólida formação humanística e as suas raízes remontam à Haskalá, o iluminismo judaico que floresceu na Europa Ocidental nos séculos XVIII e XIX. Este movimento pregava a interacção da sabedoria judaica com a cultura europeia e produziu nomes como Einstein, Freud, Herzel e Stefan Zweig, o grande biógrafo austríaco, que, muitos anos depois, seria biografado por Dines.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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