Segunda-feira, 29 de Novembro, 2021
Estudo

No ecossistema digital o jornalismo pode perder o papel de “gatekeeper”

A ascensão das métricas e da análise de dados estatísticos resultou no aparecimento de novos desafios quanto ao papel do jornalismo na sociedade, nomeadamente sobre o seu funcionamento e estatuto num ecossistema mediático contemporâneo, dominado por plataformas.

Confrontado com esta nova realidade, o Obercom publicou um novo relatório, no qual analisa o impacto das métricas no trabalho jornalístico, nas redacções e, ainda, nos modelos de negócio.

Isto porque se, por um lado, as ferramentas possibilitam um conhecimento sem precedentes sobre quem consome notícias, por outro, vieram complexificar o funcionamento orgânico do jornalismo e o trabalho dos jornalistas.

De momento, começou por recordar o Obercom, as principais ferramentas de análise de audiências “online” são a Chartbeat e a Google Analytics.

Através destes mecanismos, as empresas jornalísticas passaram a focar-se, sobretudo, no tempo passado na página, nas visualizações, nas partilhas nas redes sociais e nos visitantes novos/repetentes.

Esta realidade resultou, igualmente, na generalização do “day-parting”, uma técnica que consiste em estruturar os conteúdos de forma a aproveitar ao máximo a atenção dos leitores, tendo em consideração o dia típico de um trabalhador.

Da mesma forma, por via destas estratégias, os jornalistas conseguem adaptar diversos elementos dos seus artigos, fazendo aumentar o número de “clicks”, incrementando o nível de disseminação das peças, e contribuindo para as receitas das publicações.

As métricas têm, também, uma importância operacional a curto prazo -- optimização de conteúdos para aumentar o alcance; Médio prazo – melhor distribuição de conteúdo de acordo com a plataforma e a audiência; e Longo prazo – maior interacção e fidelização das audiências.


Contudo, isto pode resultar, igualmente, nalgumas consequências para a qualidade e pluralidade do jornalismo praticado já que, por norma, os leitores “online” demonstram uma maior preferência por “soft news”.


Da mesma forma, este fenómeno tem vindo a provocar um choque entre as  métricas das audiências e as auto representações dos jornalistas sobre a sua função, uma vez que, tradicionalmente, o processo de decisão é baseado na assunção de que profissionais dos “media” sabem o que é melhor para o público.


Aliás, a consciência da importância das métricas sobre as audiências levanta problemas normativos/éticos, desde logo porque a escolha das notícias deveria ser feita com base em critérios editoriais e em valores-notícia (‘newsworthiness’), que são independentes das preferências dos leitores.


Ademais, num ecossistema digital, em que as decisões são baseadas em dados sobre as audiências “online”, o jornalismo pode perder o seu papel de “gatekeeper”.


Outra das alterações registadas passa pelos critérios utilizados para avaliar o trabalho dum jornalista e o desempenho nas redações.


Agora, a definição dum “bom jornalista”, assim como a estrutura organizacional na redacção, está em transformação, o que pode resultar num jornalismo performativo, concentrado nas audiências e não no processo de produção de notícias em si, trazendo novas formas de pressão sobre os profissionais.


Deste modo, as métricas funcionam como dispositivos disciplinadores, utilizados pelos gestores que premeiam ou punem os jornalistas (ora promovendo-os a cargos de influência, ora forçando-os a redefinir as suas prioridades na cobertura noticiosa). 


Ainda assim, afirma o relatório, a preponderância da quantificação da audiência através das métricas tenderá a aumentar, devido à evolução da automatização e da integração da inteligência artificial em programas de análise de dados.


Podemos, contudo, esperar métricas mais complexas e mais representativas da realidade, que facilitarão a implementação e o sucesso de modelos de negócio baseados nas assinaturas.

Leia o relatório original em “Obercom”

 


Connosco
Jornalismo resiste apesar das restrições editoriais Ver galeria

O jornalismo no Brasil está a atravessar uma fase de grande interesse para o público, devido às disputas políticas e à gestão da crise sanitária, causada pela pandemia.

Contudo, ressalvou Carlos Wagner num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria , as publicações estão a ter dificuldades em acompanhar estes eventos, devido à falta de colaboradores e de materiais de reportagem.

De acordo com o autor, este cenário começou a surgir no início da década de 2000, quando os jornais passaram, lentamente, a desenvolver o seu processo de digitalização.

Até então, continuou Wagner, de forma a garantirem a sua sustentabilidade financeira, os títulos jornalísticos investiam em estratégias de captação de leitores e de publicidade.

Além disso, cada colaborador tinha funções bem definidas, e o principal objectivo era conseguir a melhor manchete, para vender um número significativo de exemplares em cada edição.

Tudo isso mudou com a digitalização: os empresários tiveram dificuldade em adaptar-se aos novos modelos de negócio, foram forçados a fazer cortes orçamentais, e exigiram que os jornalistas produzissem conteúdos multiplataforma.

Desta forma, os colaboradores dos “media” tiveram que passar a dominar diferentes áreas -- desde o texto à fotografia, passando pelo vídeo e pelos gráficos digitais -- trabalhando mais do que nunca, e recebendo um ordenado pouco satisfatório.

 

As “fake news” no Brasil carecem de regulamentação Ver galeria

No Brasil, a maioria dos políticos e dos cidadãos considera que o combate às “fake news” é algo que necessita a intervenção regulatória do Estado, recordou Paulo Victor Melo num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Aliás, conforme apontou o autor, o Projecto de Lei Nº 2630, que institui a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet, está pronto a ser votado pelo Grupo de Trabalho (GT-NET) da Câmara dos Deputados, que foi criado para dar um parecer sobre o tema.

E, perante as “teorias da conspiração” que circulam “online”, e que podem pôr em risco a segurança e o bem-estar dos cidadãos, o articulista considera que o documento deve ser votado o mais depressa possível.

Este documento, indicou Melo, procura encontrar respostas regulatórias para as plataformas digitais, sem interferir com o direito à liberdade de expressão e à liberdade de comunicação.

Além disso, este texto quer garantir uma coordenação entre a responsabilização das empresas tecnológicas e a regulação estatal, de forma a acrescentar concepção “tecnologicamente neutra”, que concentre a atenção nas actividades desenvolvidas pelas plataformas.

O Clube


O associativismo já conheceu melhores dias. Ao contrário do que se observa aqui mesmo ao lado em Espanha, onde a APM – Associacion de la Prensa de Madrid – uma das mais antigas e conceituadas instituições ao serviço dos media, do jornalismo e dos jornalistas - desenvolve uma actividade multidisciplinar e intervém com regularidade no espaço público sobre problemas do sector, em Portugal as organizações de jornalistas são escassas e sobrevivem com não poucas dificuldades.
Há uma certa apatia dos profissionais em relação a associações onde deveriam estar representados, o que contribui para a falta de reconhecimento público da sua importância.
Claro que a precariedade que afecta as redacções e, em particular, os jornalistas mais jovens, não estimula o convívio e, menos ainda, a participação em debates regulares sobre o exercício da profissão e os seus condicionamentos.
E, no entanto, nunca foi tão urgente a análise sobre os desafios complexos que se colocam ao jornalismo, seja no plano ético, seja na interacção com os leitores/consumidores da informação, seja ainda no plano tecnológico, que tem progredido a um ritmo impressionante.
Hoje já se medem competências pelo número de “clicks” e há quem cultive a ideia de que um jornalista deverá ser remunerado em função da audiência que um seu texto mereça junto da comunidade de leitores. Uma perversão.
É para estes e outros temas conexos que o CPI continuará a olhar neste site e fora dele, porque uma democracia não se consolida sem jornais e outros media e um jornalista não pode ser substituído por um qualquer arrivista nas redes sociais.
Por isso teimamos em continuar, passados 40 anos.


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Opinião
Há bem pouco tempo, a Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) publicou um relatório alarmado com a insegurança que atinge um número crescente de jornalistas no exercício da sua actividade. E denunciou que, só este ano, já foram mortos 35 jornalistas por motivos relacionados com as suas práticas profissionais. Uma lista negra.A publicação deste documento da FIJ coincidiu com o Dia Internacional das...
O que une radicais de direita e de esquerda
Francisco Sarsfield Cabral
Contra o que frequentemente se julga, um radical de direita não está a uma distância de 180 graus de um radical de esquerda. Ambos partilham um desprezo pela democracia liberal, que consideram um regime político “mole”, sem “espinha dorsal”. Não aceitam que quem pense de maneira diferente da nossa não seja um inimigo a abater.  No passado dia 1 a Eslovénia sucedeu a Portugal na presidência semestral da UE....
Uma das coisas que mais me intriga e cansa no jornalismo que se faz atualmente em Portugal é a ausência de sentido crítico, a incapacidade de arriscar e de fazer diferente. Estão todos a correr para dar as mesmas notícias e fazer as mesmas perguntas. E, quando conseguem o objetivo, ficam com a sensação de dever cumprido.Vem isto a propósito da não notícia que ocupa lugar diário nos títulos da imprensa, dos...
Venham mais 40!...
Carlos Barbosa
No Brasil, começou esta aventura, com o Dinis de Abreu!! Foi há 40 anos, estava ele no Diário de Noticias e eu no Correio Manhã, quando resolvemos, com mais uma bela equipa de jornalistas, fundar o Clube Português de Imprensa. Completamente independente e sem qualquer cor politica, o Clube cedo se desenvolveu com reuniões ,almoços, palestras, etc. Tivemos o privilégio de ter os maiores nomes da sociedade civil e política portuguesa...
A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
Agenda
09
Fev
Masterclass : Using data to tell stories
18:00 @ Conferência "Online" leccionada por Juliet Ferguson
06
Abr
International Journalism Festival 2022
10:00 @ Perúgia, Itália
27
Jun
12th World Conference of Science Journalists
10:00 @ Medellín, Colômbia