Segunda-feira, 29 de Novembro, 2021
Opinião

O jornalismo como profissão de risco

por Dinis de Abreu

Há bem pouco tempo, a Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) publicou um relatório alarmado com a insegurança que atinge um número crescente de jornalistas no exercício da sua actividade.
E denunciou que, só este ano, já foram mortos 35 jornalistas por motivos relacionados com as suas práticas profissionais. Uma lista negra.
A publicação deste documento da FIJ coincidiu com o Dia Internacional das Nações Unidas pelo Fim da Impunidade por Crimes contra Jornalistas, no qual se apelava aos governos para que condenassem e punissem os responsáveis pelos atentados contra os profissionais dos media.
É cedo para avaliar se o apelo caiu ou não em “saco roto”. Mas a julgar pelas evidências de que vamos tendo conhecimento é improvável, em não poucos casos, que os governos venham a actuar com a eficácia desejável na salvaguarda dos jornalistas.
Pelo contrário, os ecos que nos chegam, desde Hong Kong, à China, à Russia, à Ucrânia, à Venezuela, à Nicarágua, à Guiné Bissau, ao Afeganistão, ao Kosovo, ao México, à Somália, ao Iémen, a Myanamar, a Cuba ou mesmo à Polónia numa Europa que já viveu melhores dias, são de molde a aprofundar as preocupações da FIJ e as nossas.
O presidente da FIJ, Younes MJahed, advertiu que está “na hora de acabar com a negligência judicial, a legislação abusiva, e com a falta de medidas governamentais”. Mas quem o ouve?
O jornalismo independente enfrenta dificuldades crescentes, condicionamentos de vária ordem e violência física ou psicológica. É tempo das democracias se unirem contra os abusos. E a insegurança.

Connosco
Jornalismo resiste apesar das restrições editoriais Ver galeria

O jornalismo no Brasil está a atravessar uma fase de grande interesse para o público, devido às disputas políticas e à gestão da crise sanitária, causada pela pandemia.

Contudo, ressalvou Carlos Wagner num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria , as publicações estão a ter dificuldades em acompanhar estes eventos, devido à falta de colaboradores e de materiais de reportagem.

De acordo com o autor, este cenário começou a surgir no início da década de 2000, quando os jornais passaram, lentamente, a desenvolver o seu processo de digitalização.

Até então, continuou Wagner, de forma a garantirem a sua sustentabilidade financeira, os títulos jornalísticos investiam em estratégias de captação de leitores e de publicidade.

Além disso, cada colaborador tinha funções bem definidas, e o principal objectivo era conseguir a melhor manchete, para vender um número significativo de exemplares em cada edição.

Tudo isso mudou com a digitalização: os empresários tiveram dificuldade em adaptar-se aos novos modelos de negócio, foram forçados a fazer cortes orçamentais, e exigiram que os jornalistas produzissem conteúdos multiplataforma.

Desta forma, os colaboradores dos “media” tiveram que passar a dominar diferentes áreas -- desde o texto à fotografia, passando pelo vídeo e pelos gráficos digitais -- trabalhando mais do que nunca, e recebendo um ordenado pouco satisfatório.

 

As “fake news” no Brasil carecem de regulamentação Ver galeria

No Brasil, a maioria dos políticos e dos cidadãos considera que o combate às “fake news” é algo que necessita a intervenção regulatória do Estado, recordou Paulo Victor Melo num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Aliás, conforme apontou o autor, o Projecto de Lei Nº 2630, que institui a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet, está pronto a ser votado pelo Grupo de Trabalho (GT-NET) da Câmara dos Deputados, que foi criado para dar um parecer sobre o tema.

E, perante as “teorias da conspiração” que circulam “online”, e que podem pôr em risco a segurança e o bem-estar dos cidadãos, o articulista considera que o documento deve ser votado o mais depressa possível.

Este documento, indicou Melo, procura encontrar respostas regulatórias para as plataformas digitais, sem interferir com o direito à liberdade de expressão e à liberdade de comunicação.

Além disso, este texto quer garantir uma coordenação entre a responsabilização das empresas tecnológicas e a regulação estatal, de forma a acrescentar concepção “tecnologicamente neutra”, que concentre a atenção nas actividades desenvolvidas pelas plataformas.

O Clube


O associativismo já conheceu melhores dias. Ao contrário do que se observa aqui mesmo ao lado em Espanha, onde a APM – Associacion de la Prensa de Madrid – uma das mais antigas e conceituadas instituições ao serviço dos media, do jornalismo e dos jornalistas - desenvolve uma actividade multidisciplinar e intervém com regularidade no espaço público sobre problemas do sector, em Portugal as organizações de jornalistas são escassas e sobrevivem com não poucas dificuldades.
Há uma certa apatia dos profissionais em relação a associações onde deveriam estar representados, o que contribui para a falta de reconhecimento público da sua importância.
Claro que a precariedade que afecta as redacções e, em particular, os jornalistas mais jovens, não estimula o convívio e, menos ainda, a participação em debates regulares sobre o exercício da profissão e os seus condicionamentos.
E, no entanto, nunca foi tão urgente a análise sobre os desafios complexos que se colocam ao jornalismo, seja no plano ético, seja na interacção com os leitores/consumidores da informação, seja ainda no plano tecnológico, que tem progredido a um ritmo impressionante.
Hoje já se medem competências pelo número de “clicks” e há quem cultive a ideia de que um jornalista deverá ser remunerado em função da audiência que um seu texto mereça junto da comunidade de leitores. Uma perversão.
É para estes e outros temas conexos que o CPI continuará a olhar neste site e fora dele, porque uma democracia não se consolida sem jornais e outros media e um jornalista não pode ser substituído por um qualquer arrivista nas redes sociais.
Por isso teimamos em continuar, passados 40 anos.


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Masterclass : Using data to tell stories
18:00 @ Conferência "Online" leccionada por Juliet Ferguson
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10:00 @ Perúgia, Itália
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12th World Conference of Science Journalists
10:00 @ Medellín, Colômbia