Quarta-feira, 2 de Dezembro, 2020
Media

A "cultura do clique" ou o valor da notícia na era digital

A questão de saber qual é “o valor da notícia na era digital”, tema central do texto publicado pelo Observatório de Imprensa do Brasil, com o qual o CPI mantém parceria, equaciona o constante conflito entre o mercado e a sociedade. O artigo em causa cita Suzana Singer, ex-Ombudsman (Provedora do Leitor) da Folha de S. Paulo, e aborda ainda o dilema entre 'transformar o que é importante em interessante’.”

O autor é o jornalista Luís Humberto Rocha Carrijo que começa o seu artigo por uma breve descrição da revolução digital, cujas “inovações democratizaram, em tese, o acesso das pessoas ao conhecimento e mudou a forma de se consumir notícias: a audiência agora quer tudo em excesso de maneira instantânea”.

Mas houve outras consequências para a comunicação: a sua “função social de fortalecer a liberdade de expressão, educar e provocar reflexão, promovendo de maneira equânime diferentes pontos de vista, (...) foi colocada em xeque em nome da sobrevivência económica, com implicações na forma de se produzir notícias”.

 

As receitas da publicidade emigraram para outras plataformas e canais, e os meios de comunicação passaram a estar mais dependentes da procura voluntária pelo seu público. Citando “o conceituado jornalista britânico, Peter Oborne, ex-Daily Telegraph, a introdução da ‘cultura do clique’, no qual o mérito da reportagem está na quantidade de visitas online e não na importância do assunto, está consolidada”. (...) 

“O linguista francês Patrick Charaudeau aponta para mais uma das mutações na cobertura noticiosa por conta da pressão dos accionistas por maiores lucros. Ele explica que, às voltas de um problema de ordem económica, os veículos de comunicação precisam dirigir-se a um grande número de pessoas, satisfazendo um público com diferentes graus de saberes. Daí, a necessidade de se construir uma linguagem que desperte o interesse do maior número possível de destinatários. (...)  Com a vulgarização do texto, passou-se a correr também o risco de o conteúdo ser deformado.” 

Segue-se uma reflexão sobre a “Publicidade Nativa”, que “nada mais é do que uma forma de propaganda revestida de reportagem que segue o mesmo padrão gráfico e editorial do veículo de comunicação que o divulga. (...)  O leitor será induzido a pensar que aquela reportagem patrocinada é isenta e de interesse público. Logo, veremos conteúdos patrocinados encomendados por grandes grupos económicos envolvidos em corrupção”. 

A conclusão do artigo declara com toda a franqueza:

(...)  “Esse novo pensamento deve partir da premissa de que os órgãos de comunicação não conseguem sozinhos produzir conteúdos relevantes em quantidade que atenda a demanda sem a ajuda dos Relações Públicas e de seus clientes. Eles estão cada vez mais dependentes de quem realmente constrói a agenda noticiosa: as fontes de informação. As organizações devem deixar de priorizar as informações comoditizadas e passar a dar melhor tratamento a conteúdos, de forma a também tornar interessante o que é importante e, se possível, conferir importância ao que é apenas atraente.” 

O autor, Luís Humberto Carrijo, é também o proprietário da Agência Rapport, cujo projecto é apresentado, no respectivo site.


O artigo citado, no Observatório da Imprensa

Connosco
Crescimento das assinaturas digitais não compensa as perdas na circulação impressa Ver galeria

A pandemia veio agravar a crise dos “media”, já que modificou os hábitos de consumo dos cidadãos e demonstrou a necessidade de alterar o modelo de negócio tradicional, assente, sobretudo, em receitas publicitárias.

Perante este novo contexto, o Obercom analisou as diferenças registadas, entre 2019 e 2020, na imprensa portuguesa, de forma a traçar um possível futuro para o sector, tendo em conta a aceleração das marcas digitais.

Para tal, foram analisadas doze publicações -- “Correio da Manhã”, “Jornal de Notícias”, “Diário de Notícias”, “Público”, “Expresso”, “Visão”, “Sábado”, “Jornal de Negócios”, “Jornal Económico”, “Record”, “O Jogo” e “Courrier Internacional”.

Em primeira instância, constatou-se que, tanto o volume de circulação paga, como o volume de tiragens, tem sofrido quedas sustentadas ao longo dos últimos anos. O volume de tiragens também diminuiu, acompanhando o ritmo de quebra das vendas em banca.

Em relação ao índice de Eficiência das publicações -- que resulta do rácio entre tiragens e circulação impressa paga -- verifica-se que os semanários “Expresso” e “Visão” são aqueles que apresentam os valores mais altos. Em posição contrária estão o “Jornal Económico” e o “Jornal de Negócios”.

No que respeita ao digital, o crescimento das assinaturas não tem sido suficiente para colmatar as perdas no papel.

Movimento de jornalistas franceses contra nova Lei de Segurança Ver galeria

Nos últimos meses, a liberdade de imprensa em França tornou-se um tema de debate, devido à aprovação da Lei de Segurança Global, recordou o jornalista Rui Martins num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Entre outros pontos, a Lei de Segurança Global estabelece restrições à divulgação de imagens dos membros das forças policiais e militares, o que, para os franceses, constitui um acto de censura.

Segundo indicou Martins, este “controlo de imagem”, previsto no artigo 24, é subtil e mal intencionado, já que visa proteger as autoridades, em caso de utilização excessiva da força.

Até porque, de acordo com o documento, será punido o fotógrafo, o operador de imagem ou o cidadão que captar e difundir imagens das forças da autoridade. A pena pode ir até aos 45 mil euros e um ano de prisão.

Além disso, não havendo prova visual, os autores de tais denúncias poderiam ser processados.

Perante este quadro, um grupo de editores executivos franceses reafirmou, em comunicado, o seu compromisso com a lei da liberdade de imprensa de 1881 e garantem que estarão vigilantes para assegurar o seu cumprimento.

A defesa do anonimato dos polícias franceses foi, ainda, questionada pelas próprias televisões francesas, que mostraram imagens de agentes ingleses e alemães, com suas identificações bem visíveis nos próprios uniformes.

O Clube


Faz cinco anos que começámos este
site, desenhado por Nuno Palma, webdesigner e docente universitário, que desde então colabora connosco.

O projecto foi lançado com uma modéstia de recursos que não mudou entretanto, porque escasseiam os mecenas e os poucos que se nos juntaram também se defrontaram com orçamentos penalizados, seja pela conjuntura económica, seja, mais recentemente, pela crise sanitária. 

Neste contexto, a sobrevivência é um desafio diário, e um lustre de existência deste site é uma profissão de fé e uma teimosia.

O site constitui a respiração do CPI, fora de portas, e a nível global. Os primeiros passos foram dados sem qualquer publicidade. Aparecemos online e por aqui ficámos, procurando habilitar diariamente quem nos visita com a melhor informação sobre as actividades do Clube e o pulsar dos media e do jornalismo, sem restrições de credo, nem obediências de capela. Com rigor e independência.

Fomos recompensados. Só no último ano, de acordo com medições de audiência da Google Analytics, crescemos mais de 50% em sessões efectuadas e mais de 60% em utilizadores regulares. É algo de que nos orgulhamos.



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