Quarta-feira, 22 de Setembro, 2021
Opinião

Não é notícia, é preguiça

por Raquel Abecasis

Uma das coisas que mais me intriga e cansa no jornalismo que se faz atualmente em Portugal é a ausência de sentido crítico, a incapacidade de arriscar e de fazer diferente. Estão todos a correr para dar as mesmas notícias e fazer as mesmas perguntas. E, quando conseguem o objetivo, ficam com a sensação de dever cumprido.
Vem isto a propósito da não notícia que ocupa lugar diário nos títulos da imprensa, dos noticiários das rádios e das televisões. Todos os dias somos brindados com o número mágico das mortes por Covid. 1 morto, 7 mortos, 3 mortos.
Os números dos últimos meses demonstram por si só que o tema já não é notícia, é preguiça de procurar notícias realmente interessantes. Nestes mesmos dias terão morrido o triplo das pessoas com ataque cardíaco, cancro ou outra doença letal.
O mais intrigante nesta escolha editorial é que os mesmos meios de comunicação que ampliam os números das mortes por Covid, escrevem nas páginas ao lado, nas colunas de opinião, que isto não faz sentido, que os números provam que o maior risco passou e que temos de nos habituar a viver com esta, como com outras doenças.

O jornalismo é essencial a uma sociedade democrática. A tal ponto que não é possível haver democracia sem jornalismo livre. O jornalista tem o direito de informar, mas também o dever de entregar essa informação de forma objetiva e enquadrada.

Compete ao jornalismo dotar os leitores, ouvintes ou espetadores dos elementos necessários à formulação de juízos críticos e informados sobre a atualidade. É também isto que ajuda a fazer escolhas informadas.

Vivemos a queixar-nos das fragilidades da nossa democracia, da falta de alternativas políticas e não atribuímos tanta importância à falta de alternativas nos meios de comunicação social. Mas devíamos, porque este é um dos sintomas mais evidentes de um regime que não está de boa saúde.

O Covid é só um exemplo, mas há muitos mais que nos demonstram como o jornalismo faz pouca diferença no país em que vivemos. Falta sentido crítico. Falta investigação. Faltam agendas próprias. Faltam, e muito, perguntas incómodas aos poderes instituídos. Falta assumir o risco de fazer diferente.

É por tudo isto que a Covid e as suas exíguas mortes continuam a ser notícia de primeira página. Afinal de contas é muito mais fácil chegar à redação e já saber quais vão ser as notícias. Difícil é deixar a rotina de lado e encarar cada dia como um desafio à procura das notícias que melhor possam servir o nosso cliente, a nossa audiência.

Estou convencida de que o primeiro órgão de informação que quebrar esta rotina mórbida e inútil do relato diário dos mortos por Covid terá como recompensa um incremento de audiência. Mostra sentido crítico. Para além de que presta um serviço inestimável ao país e ao jornalismo.

(Texto publicado originalmente no Observador)


Connosco
World Press Photo em exposição no Parque dos Poetas em Oeiras Ver galeria

A 64.ª edição da World Press Photo estará patente no Parque dos Poetas, Entrada do Templo da Poesia, até ao dia 15 de Outubro, com entrada gratuita

Além da visita à exposição, haverá “workshops” de fotografia aos sábados, com fotojornalistas de renome. Estão já confirmados, nesta iniciativa, Arlindo Camacho, Rita Ferro Alvim, Gonçalo F. Santos e Marcos Borga.

Criado em 1955 pela organização homónima, o concurso World Press Photo premeia, anualmente, fotografias que dão a conhecer ao público questões e momentos cruciais e fracturantes, que marcam a actualidade de povos e de sociedades em todo o mundo.

Neste ano, o concurso recebeu 4 315 fotógrafos de 130 países, com 74 470 imagens inscritas. Os vencedores do concurso anual de fotografia World Press Photo são 45 fotógrafos de 28 países: Argentina, Arménia, Austrália, Bangladesh, Bielorrússia, Brasil, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos da América, França, Grécia, Holanda, Índia, Indonésia, Itália, Irão, Irlanda, México, Myanmar, Peru, Filipinas, Polónia, Portugal, Rússia, Eslovénia, Espanha, Suécia e Suíça.

Publicações "online" devem diversificar oferta de conteúdos para captar jovens Ver galeria

Com a chegada da era digital, os jornais “online” passaram a focar-se na retenção de uma audiência jovem, como forma de conquistar a sua lealdade enquanto consumidores de notícias e de garantir a sustentabilidade financeira a longo prazo.

Apesar de todos os esforços, os jovens têm-se demonstrado reticentes quanto à subscrição de serviços noticiosos digitais, preferindo a consulta de informação através das redes sociais.

Agora, um estudo realizado pela Agência de Imprensa Alemã DPA, em conjunto com Associação Alemã de Editores Digitais e Editores de Jornais (BDZV), revelou o principal motivo deste fenómeno: os jovens não gostam de ser tratados como um grupo homogéneo.

Isto significa, conforme indica o documento, que, de forma a alcançarem o seu objectivo, as publicações “online” devem diversificar a sua oferta de conteúdos, indo ao encontro dos diferentes tópicos e problemáticas sociais.

Além disso, a pesquisa, atesta que há grandes diferenças dentro da mesma faixa etária. “Adolescentes e jovens têm hábitos de consumo, interesses, exigências e necessidades diferentes em relação ao conteúdo das notícias. Dentro da mesma faixa etária, as orientações são muito diferentes ”.

“Mais concretamente -- acrescenta o relatório -- enquanto alguns usam quase exclusivamente fontes jornalísticas para satisfazer a sua grande sede de informação (...), outros utilizadores preferem os conteúdos de comunicadores individuais, como actores e influenciadores”.

O estudo revela, da mesma forma, que os jovens sentem necessidade de ter uma relação próxima com as fontes de informação, como se as publicações falassem, especificamente, sobre os problemas que enfrentam no dia a dia.

O Clube


Recomeçamos. A pausa de agosto foi um tempo de análise e de reflexão sobre as delicadas circunstâncias que rodeiam e condicionam os media portugueses e as associações representativas do sector.
Enquanto as redacções encolhem e os jornais lutam pela sobrevivência, as grandes plataformas digitais tornam-se omnipresentes e absorvem a melhor publicidade.
Um estudo da ERC revela que dois terços dos inquiridos utiliza a internet, mas que, depois das televisões, as redes sociais aparecem já como fonte noticiosa preferencial, suplantando os jornais impressos.


A dificuldade da imprensa, com tiragens minguadas, influenciou a principal distribuidora de jornais e revistas no sentido de lançar uma taxa diária a cobrar aos quiosques e outros postos de venda.
Por agora, a cobrança está suspensa, no seguimento de uma providência cautelar aceite pelo tribunal, mas nada garante que o desfecho não venha a penalizar mais ainda a circulação da Imprensa.
A fragilidade das empresas de media agravou a sua dependência, e tornou-as gradualmente mais permeáveis aos desígnios do poder político.
Seja no audiovisual, seja nas publicações impressas, observa-se uma crescente uniformidade noticiosa, a par de uma actuação comprometida com as prioridades da agenda do Executivo.
Neste contexto, as associações do sector não têm a vida facilitada, quer pelo enfraquecimento do mecenato, quer pela apatia já antiga que se nota nos jornalistas no tocante ao associativismo.
Com 40 anos feitos de actividade ininterrupta, o Clube Português de Imprensa tem neste site uma forma de ligação privilegiada com associados e outros profissionais do sector, bem como com os estudantes dos cursos de jornalismo, apoiado em parcerias que são preciosas fontes complementares de informação e de análise.
Por aqui continuamos, com a consciência do desafio e do risco envolventes, e com a noção de partilha e de serviço que nos anima desde o início.


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