Terça-feira, 19 de Janeiro, 2021
Opinião

Nos 40 anos do CPI

por Francisco Sarsfield Cabral

Comemoram-se este mês quarenta anos desde a fundação deste Clube, em 1980. Vivia-se em Portugal, então, o alívio pela liberdade de expressão – já não havia censura prévia. Mas algumas forças políticas, sobretudo de extrema-esquerda, tinham ocupado órgãos de comunicação social. Foi o caso da Rádio Renascença e do jornal República, por exemplo.

E a maior parte da comunicação social, nomeadamente jornais, permanecia nas mãos do Estado. Muita gente, dentro e fora do jornalismo, ansiava por uma comunicação social mais pluralista e independente do poder político. 

Por isso encontramos entre os fundadores do CPI destacados jornalistas, mas também gestores de empresas de “media”, como Francisco Pinto Balsemão, na altura ministro. O também jornalista F. P. Balsemão foi considerado fundador logo que cessasse funções governativas, pois era um dos principais animadores do projeto. Também Marcelo Rebelo de Sousa teve importante intervenção no aparecimento do CPI. Foi ele quem redigiu os estatutos do Clube.

Também encontramos entre os fundadores do CPI personalidades que não estavam ligadas à comunicação social, mas se preocupavam com a consolidação da democracia em Portugal. Havia, então, a percepção clara de que a democracia necessitava de um jornalismo responsável – sobretudo uma democracia nascente, como era a nossa.

Entre os mais ativos fundadores do CPI encontrava-se o atual Presidente do Clube, Dinis de Abreu. O CPI muito lhe deve, pois só o seu empenho permitiu que esta instituição não tenha, entretanto, sido varrida do espaço público pelos muitos obstáculos que, de há anos para cá, têm dificultado a vida aos profissionais do jornalismo e ao próprio CPI.


O CPI visava acima de tudo a valorização do jornalismo, através de um “fórum” multidisciplinar para reflexão e debate das questões nucleares ao exercício do jornalismo e às boas práticas nos “media”. Chegou a ter um programa semanal na RTP2.

Lançou vários prémios. Promoveu inúmeros debates. Nos primeiros debates foram discutidas, por exemplo, as relações entre a Imprensa e o poder político e económico, a gestão das empresas jornalísticas, o ensino de jornalismo e a carteira profissional dos jornalistas.

O CPI procurou aproximar os jornalistas dos proprietários e gestores dos “media”, tarefa tanto mais importante quanto na Imprensa vários jornais foram, entretanto, privatizados e no horizonte estava o nascimento em Portugal de estações privadas de televisão. O CPI estava consciente de que os jornalistas deveriam ser responsáveis face às circunstâncias empresariais, em particular as financeiras, e os gestores deveriam saber respeitar a independência editorial dos seus órgãos de comunicação social, até como condição de credibilidade.   

O CPI deu uma contribuição para esse objetivo. Tal não significa, porém, que no nosso país seja agora boa a situação dos “media” em matéria de independência dos poderes políticos e económicos. Por outro lado, as crises económicas e financeiras que Portugal atravessou desde 1980 e se acentuaram quando da quase bancarrota do Estado no início da década de 90 do século passado, implicaram severas limitações à ação do CPI. Acresce que a pandemia também não facilita a vida dos jornalistas nem do CPI.

O mecenato quase desapareceu, tornando praticamente impossível encontrar patrocínios para prémios de jornalismo. Inevitavelmente, a atividade do CPI teve que se limitar. Mas não ficou reduzida a zero. Nos últimos anos, apesar das dificuldades, várias iniciativas do Clube tiveram sucesso. Destacaria, de entre elas, o lançamento deste “site”, há cinco anos, bem como os ciclos de jantares-debate, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, agora suspensos por causa da pandemia. 

Numa palavra, o CPI continua a merecer  a atribuição, em 1989, do diploma no qual foi reconhecido como Pessoa Colectiva de Utilidade Pública, conforme despacho assinado pelo então Primeiro Ministro,  Aníbal Cavaco Silva.


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Os dilemas e os desafios que se colocam ao jornalismo migratório Ver galeria

No Brasil, a maioria dos jornalistas que escreve sobre emigração foca-se, somente, nos aspectos positivos da mudança, omitindo as verdadeiras dificuldades de um expatriado, considerou Liliana Tinoco Backert num texto publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

De acordo com a autora, este tipo de artigos passam a mensagem de que basta dominar uma língua estrangeira para se ser bem sucedido lá fora. Contudo, defende Tinoco Backert, a realidade nem sempre é essa.

Quando os jornalistas oferecem destaque a empresários de sucesso, esquecem-se, muitas vezes, das possíveis adversidades enfrentadas pela família desse mesmo profissional, que deixaram as suas rotinas para o acompanhar.

Da mesma forma, o jornalismo de migração brasileiro omite os choques interculturais, as dificuldades de adaptação e a possível exclusão social.

Perante este cenário, a autora incentiva os profissionais dos “media” a criarem projectos focados nestes temas, para informarem, eficazmente, os leitores que estão a ponderar mudar de país.

Aliás, Tinoco Backart -- que chegou a viver na Suíça -- começou a redigir, em 2016, a sua própria coluna sobre movimentos migratórios, que é publicada no portal Swissinfo.ch.

Onde se preconiza a responsabilização das redes sociais Ver galeria

As redes sociais poderão estar a assumir a responsabilidade pela partilha compulsiva de informações falsas e de opiniões que são tomadas como factos, considerou o jornalista Lucas Souza Doutra num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

O autor começa por recordar que o Novo Ano foi marcado por uma polémica na plataforma Twitter, que baniu a conta de Donald Trump. Esta medida foi justificada com os riscos de incitação à violência, afirmações falsas e violação de regras das plataformas.

Segundo indicou Dutra, é certo que a acção pode ter sido motivada por interesses económicos e políticos.

Mas, a curto prazo -- reiterou o autor -- este tipo de moderação pode ser eficaz no condicionamento das “fake news” e começar a traçar um melhor futuro para o ambiente virtual que, nos últimos anos, se tem caracterizado pela distorção e imposição de ideologias, estimulada pelo excesso de segmentação e de algoritmos.

O autor considera, por outro lado, que é urgente responder a algumas questões sobre a regulação do mundo “online”.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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