Terça-feira, 19 de Janeiro, 2021
Opinião

Tanto tempo, tanta mudança

por Silva Pires

A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube e importantes na criação das novas referências que mantêm viva a chama do vício de informar.
Afinal, além dos mais velhos, quantos se lembrarão destes grandes mestres e do papel que desempenharam na vida da Imprensa escrita, num tempo em que os jornais tinham outro peso na sociedade e a escrita era também um exercício de habilidades para fintar os coronéis do Palácio Foz?
Pergunto-me se será saudosista a constatação? Admito que sim! Nunca nada continua igual. A mudança é o rumo natural das coisas. Mas esta viagem que nos trouxe à actualidade e só permite conjecturar sobre o futuro, assume contornos ainda não há muito inadmissíveis.
Há 40 anos, alguém previa que a Imprensa escrita pudesse levar tamanha volta? * Seguramente, não! E recorro à lembrança de alguns debates promovidos pela IFRA, já nos anos 90,em que participei com profissionais de toda a Europa, quando se discutia ainda o melhor formato, a mais eficaz apresentação gráfica – também aproveitando a reinvenção da infografia –, e até a sua ligação à estrutura da notícia. Era o jornal do futuro! Tão diferente que nos Estados Unidos houve quem nem resistisse às regras editoriais do inovador USA Today e a uma política que impunha diversas “entradas” por notícia. (“Os mais velhos não se adaptaram”, disse-me um editor do diário na Redacção de Washington.)

Pairavam então já algumas ameaças, a preocupação era tornar o jornal num produto mais vivo, mais apelativo, colorido como a televisão, capaz de ser tão interventivo quanto ela, mas também mais profundo, rigoroso e sério.
De todo o modo, numa sociedade reconhecidamente em mudança acelerada depois da revolução tecnológica, não passava por aquelas cabeças, eu incluído, um momento como este em que, simplesmente, está em causa a sobrevivência do jornal como sempre o conhecemos. E para quem não se lembra, primeiro morreu da tipografia, com todos os custos inerentes, depois foram o advento do offset, a informatização das redacções e outra realidade na organização do trabalho, enfim os primórdios da Internet e todo o seu mundo novo.
Gosto pouco de jogar e não faço apostas quanto ao futuro da Imprensa escrita. Vivemos num país que sempre teve poucos leitores e agora tem também cada vez menos jornais e sempre com menor expressão. E a maioria com outras preocupações ditadas por aquilo que verdadeiramente manda e já não preocupa só os gestores: as audiências, os números.
Por isso, lágrimas e sangue já transbordaram despudoradamente do papel dos jornais populares para as televisões, como as estórias do “cor de rosa”; a Imprensa desportiva, outrora pujante, perdeu leitores, numa queda abissal, e campo de manobra para as estações dos clubes. Daí, “televisionar-se” ela própria. Entre as outras publicações especializadas, vão umas atrás das outras para a enorme lista dos títulos encerrados. Ao mesmo tempo, vão surgindo outras edições, essencialmente no formato de revista, que resultam em “sol de pouca dura”, na tentativa de conquistar leitores para interesses vagos e diversos. Já olharam para os escaparates dos quiosques?
Neste quadro, quando as redes sociais se tornaram necessidade do quotidiano para milhares de pessoas e sobretudo uma religião para os mais jovens, que já nem a TV veem, pelo menos em directo, era de admitir que os jornais digitais encontrassem um espaço e a receita capaz torná-los produtos rentáveis. Todos sabemos não ser assim, uma surpresa ao constatarmos que os potenciais anunciantes, capazes de garantir receitas importantes, até canalizam as suas acções promocionais para o digital. Mas, hoje, vale mais um qualquer “influencer”, com milhões de seguidores, do que um jornal… mesmo digital.
Este exercício pessimista, infelizmente carregado de realismo, tem de preocupar aqueles que fizeram do jornalismo profissão. Aqueles, da minha geração, que não viam o seu jornal como emprego de passagem, trampolim para outra actividade mais bem paga e, porventura, menos exigente na disponibilidade. Mas também aqueles que o exercem agora, com dedicação e competência noutra realidade.
Verdade que, hoje, um emprego na Imprensa já não é para a vida. Por ser outra a concorrência e as ambições terem de ser vistas como normais – e até desejáveis. Mas mesmo para usar o jornalismo como um trampolim – e as tentações parecem ser muitas: na política, na publicidade, nas empresas de comunicação e outras, nos clubes de futebol – tem de haver regras. Ora, hoje elas são poucas, no meu entender. Desde logo, as regras deontológicas: e até temos um Código. Mas também os princípios do mais simples bom senso.
E volto ao princípio e à falta de memória. Que passa pelos antigos. Estejam ou não remetidos a prateleiras douradas, cabe-lhes um papel do qual, acho, muitos de demitiram. Eles têm de ser, antes de mais, também os profissionais capazes intervir para corrigir as barbaridades que se veem, ouvem leem, e, pasme-se, repetem-se.
Corrigir não ofende, perguntar também não. Espero que, para quem não conheça as máximas, as universidades possam dar uma ajuda. Nas Redacções, tem de ser uma obrigação. Porque todos erramos…
Era assim quando os jornalistas não tinham a formação académica da geração actual, melhor preparada, espera-se que mais informada, apta para produzir uma informação com mais qualidade. Ora, entre os novos há profissionais competentes, nos jornais na televisão e na rádio, alguns mesmo brilhantes, as novas referências; outros prontos para lhes seguir as pisadas e que devem der incentivados. São profissionais que gostam de conviver com os mais antigos, capazes de levantar dúvidas sobre questões deontológicas, procedimentos e regras, curiosos sobre o passado e preocupados com o futuro.
Falo por experiência própria e o exemplo que me alertou para esta realidade deixou-me surpreendido e muito feliz. Deixou-me a certeza de haver jovens profissionais preocupados com o rigor e coisas tão simples como a credibilidade da fonte ou a necessidade do contraditório, a defesa da imagem, não dando o nome ou a cara pelo que pode estar fora dos princípios da profissão. Eu sei que é o bê-á-bá, mas, por muito daquilo que vimos, ouvimos e lemos chegamos a interrogarmo-nos sobre o que é ensinado em sede de especialização.
Por mim, continuo preocupado com o futuro e 40 anos depois, já não sendo inovador, entendo que continua a fazer sentido o objectivo do Clube Português de Imprensa: “um forum multidisciplinar para reflexão e debate das questões nucleares ao exercício do jornalismo e às boas práticas nos media”.
Faz cada vez mais falta! Até para incentivar o trabalho de qualidade que muitos fazem e combater algum desvario que passa sem reparo.
É que, como aqui escreve Graça Franco, a propósito do Conselho Deontológico e da informação sobre a Covid-19, em Portugal pratica-se “às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo.”
Daí, a importância de não deixar de respeitar e promover a defesa da memória. E de promover e incentivar as novas referências, garantes de uma informação de qualidade e, seguramente, decisivos na construção da memória de amanhã.
É preciso não perder a memória!


*Há 40 anos tinha chegado a televisão a cores, o duplo emprego começava a deixar de ser prática no jornalismo português, a actualidade vivia-se ao ritmo das campainhas dos telexes, finalmente já todos escreviam à máquina, o frasco de cola e a tesoura estavam as secretárias das redacções, o fax era uma novidade, trabalhávamos ao lado de tipógrafos, linotipistas, montadores ,quando a composição era a quente e os jornais se fechavam sobre o mármore num ambiente em que cheirava a tinta, publicavam-se três vespertinos, os desportivos eram trissemanários, a venda ainda passava pelos ardinas, os jornais custavam 10$00 e subiram para 12$50, o “Exame Prévio” (versão da censura de Marcello Caetano) tinha acabado há seis anos… “

Connosco
Guia possível com directrizes para jornalistas em manifestações Ver galeria

Sabe-se que, em algumas manifestações, os jornalistas acabam por ser agredidos pelas autoridades, que os tomam como cidadãos em protesto.

Este tipo de acção põe em causa não só a liberdade de imprensa, como, igualmente, a integridade física dos profissionais.

Perante este cenário, o instituto Poynter reuniu um conjunto de directrizes destinadas a proteger jornalistas, no decurso de manifestações, que tenham necessidade de cobrir.

De acordo com o guia, a conduta dos jornalistas é essencial. Assim, de forma a não serem visados pelas autoridades, o instituto Poynter sugere que os colaboradores dos “media” permaneçam calmos e utilizem indumentárias que os distingam dos manifestantes.Neste sentido, os jornalistas devem estar devidamente identificados, com as respectivas credenciais à vista.

É, igualmente, importante, que os profissionais não atraiam as atenções, quer através de luzes fluorescentes , quer de outro tipo de material de grande porte.

De qualquer forma, é importante que as câmaras estejam sempre a gravar. Assim, os jornalistas guardam sempre provas de qualquer incidente. Como tal, os profissionais devem certificar-se de que sabem operacionalizar os vários equipamentos.

Além disso, os colaboradores dos “media” devem recordar-se de que não são obrigados a entregar o material de reportagem às autoridades. Em caso de dúvida, será conveniente ter o contacto de um advogado.

Os dilemas e os desafios que se colocam ao jornalismo migratório Ver galeria

No Brasil, a maioria dos jornalistas que escreve sobre emigração foca-se, somente, nos aspectos positivos da mudança, omitindo as verdadeiras dificuldades de um expatriado, considerou Liliana Tinoco Backert num texto publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

De acordo com a autora, este tipo de artigos passam a mensagem de que basta dominar uma língua estrangeira para se ser bem sucedido lá fora. Contudo, defende Tinoco Backert, a realidade nem sempre é essa.

Quando os jornalistas oferecem destaque a empresários de sucesso, esquecem-se, muitas vezes, das possíveis adversidades enfrentadas pela família desse mesmo profissional, que deixaram as suas rotinas para o acompanhar.

Da mesma forma, o jornalismo de migração brasileiro omite os choques interculturais, as dificuldades de adaptação e a possível exclusão social.

Perante este cenário, a autora incentiva os profissionais dos “media” a criarem projectos focados nestes temas, para informarem, eficazmente, os leitores que estão a ponderar mudar de país.

Aliás, Tinoco Backart -- que chegou a viver na Suíça -- começou a redigir, em 2016, a sua própria coluna sobre movimentos migratórios, que é publicada no portal Swissinfo.ch.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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