Terça-feira, 19 de Janeiro, 2021
Opinião

Uma comunidade de interesses convergentes

por José Manuel Barroso

A ideia fundadora do CPI, pelo menos a que justificou a minha adesão plena à iniciativa, foi o entendimento de que cada media é uma comunidade de interesses convergentes. A dos editores da publicação, a dos produtores, a dos que comercializam. Isto é, uma ideia cooperativa de acionistas, jornalistas e outros trabalhadores. E, obviamente, uma ideia primeira de independência e de liberdade.

Esta ideia causou, há quarenta anos, algum ‘escândalo’ nalguns que tinham uma visão de corpos separados, de interesses apenas sindicais, e de luta sindical sistemática e obrigatoriamente transferida para o interior das empresas. Na verdade, e foi isso que aconteceu, era possível e desejável e útil discutir e partilhar e cuidar da preservação da saúde econômica e noticiosa das empresas de media. Sem descurar a liberdade e independência informativas. Lutando por ambas.

Há quarenta anos, o mundo da informação noticiosa era bem desenhado: a da escrita e a da imagem. A competição tinha fronteiras bem definidas. Hoje é um mundo nebuloso, onde tudo e todos entram. E onde tudo se cruza: notícias, informação, redes sociais, fakenews e intenso comércio de escândalos e de polémicas.

A cooperação ordenada e definida de antes foi substituída pela necessidade de sobrevivência. O respeito por certas normas deontológicas (o da vida privada, por exemplo) foi penetrado pelo ‘se é escândalo, vende’. A crise dos media tradicionais tornou mais visível o domínio do comercial sobre o verdadeiro da notícia rigorosa e a pressa de títulos bombásticos sobre o tempo da verificação dos factos e das fontes.

Sou dos que pensa que vivemos num tempo de limitação de liberdades: a dos cidadãos, desarmados perante meras suspeitas tornadas julgamentos antes de eventual e verdadeiro julgamento; e a dos jornalistas e do jornalismo, pressionados pelo mundo libertino das redes sociais e pela necessidade de com ele concorrer. Pressionados a ‘julgar’ através de alertas de TV e de títulos de escândalo de jornal.

Vivemos já não num tempo de cooperação, independente, mas de cooperação, como a ideia que presidiu ao CPI, mas sim num de pressão condicionante de todos. E de desrespeito de fronteiras. O jornalismo independente e sério não ganhou com isso.

 

Connosco
Guia possível com directrizes para jornalistas em manifestações Ver galeria

Sabe-se que, em algumas manifestações, os jornalistas acabam por ser agredidos pelas autoridades, que os tomam como cidadãos em protesto.

Este tipo de acção põe em causa não só a liberdade de imprensa, como, igualmente, a integridade física dos profissionais.

Perante este cenário, o instituto Poynter reuniu um conjunto de directrizes destinadas a proteger jornalistas, no decurso de manifestações, que tenham necessidade de cobrir.

De acordo com o guia, a conduta dos jornalistas é essencial. Assim, de forma a não serem visados pelas autoridades, o instituto Poynter sugere que os colaboradores dos “media” permaneçam calmos e utilizem indumentárias que os distingam dos manifestantes.Neste sentido, os jornalistas devem estar devidamente identificados, com as respectivas credenciais à vista.

É, igualmente, importante, que os profissionais não atraiam as atenções, quer através de luzes fluorescentes , quer de outro tipo de material de grande porte.

De qualquer forma, é importante que as câmaras estejam sempre a gravar. Assim, os jornalistas guardam sempre provas de qualquer incidente. Como tal, os profissionais devem certificar-se de que sabem operacionalizar os vários equipamentos.

Além disso, os colaboradores dos “media” devem recordar-se de que não são obrigados a entregar o material de reportagem às autoridades. Em caso de dúvida, será conveniente ter o contacto de um advogado.

Os dilemas e os desafios que se colocam ao jornalismo migratório Ver galeria

No Brasil, a maioria dos jornalistas que escreve sobre emigração foca-se, somente, nos aspectos positivos da mudança, omitindo as verdadeiras dificuldades de um expatriado, considerou Liliana Tinoco Backert num texto publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

De acordo com a autora, este tipo de artigos passam a mensagem de que basta dominar uma língua estrangeira para se ser bem sucedido lá fora. Contudo, defende Tinoco Backert, a realidade nem sempre é essa.

Quando os jornalistas oferecem destaque a empresários de sucesso, esquecem-se, muitas vezes, das possíveis adversidades enfrentadas pela família desse mesmo profissional, que deixaram as suas rotinas para o acompanhar.

Da mesma forma, o jornalismo de migração brasileiro omite os choques interculturais, as dificuldades de adaptação e a possível exclusão social.

Perante este cenário, a autora incentiva os profissionais dos “media” a criarem projectos focados nestes temas, para informarem, eficazmente, os leitores que estão a ponderar mudar de país.

Aliás, Tinoco Backart -- que chegou a viver na Suíça -- começou a redigir, em 2016, a sua própria coluna sobre movimentos migratórios, que é publicada no portal Swissinfo.ch.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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