null, 11 de Abril, 2021
Efeméride

O Clube como plataforma aberta e fórum de debate enriquecedor


Graça Franco

Passaram 40 anos e o que levou à formação do Clube de Imprensa mantém-se estranhamente actual. O sector que ansiava pela possibilidade de uma auto-regulação eficaz continua a identificar o problema, da sua falta, como uma das maiores falhas impeditivas da melhoria da qualidade da liberdade de expressão e pluralismo e das respectivas consequências sobre a qualidade da democracia. O regime que à data da fundação dava ainda os seus primeiros passos, minados pelo fantasma de 48 anos de tentativas de manipulação, silenciamento e censura.

Além do Sindicato dos Jornalistas cuja carga ideológica era, ao tempo, incrivelmente limitadora surgiam, no terreno, vários grupos de jornalistas preocupados em impor novas estruturas de debate, designadamente,  sobre os temas que envolviam a independência do jornalismo, dos poderes políticos e económicos, a qualidade, e a necessidade de públicos e privados acabarem a prestar verdadeiro serviço público. Isenção, objectividade, crise financeira deram mote a múltiplas tertúlias de incrível valor para a melhoria da vida democrática e combate ao corporativismo instalado.

Nessa altura eu estava a dar os primeiros passos no jornalismo, mas partilhava com os mais velhos essas preocupações. Fui assim desafiada pelos vários grupos e tornei-me sócia fundadora do Clube de Imprensa e do Clube de Jornalistas, nascidos praticamente ao mesmo tempo, e uns anos mais tarde do próprio Observatório de Imprensa. Sendo instituições, todas elas de utilidade pública, o Clube Português de Imprensa acabou por se distinguir pela positiva como plataforma aberta aos que não sendo jornalistas pertenciam a órgãos de gestão ou propriedade de jornais. 


Essa coexistência entre a visão de gestores e jornalistas acabou por dar ao Clube uma característica muito própria, tornando-se um fórum de debate particularmente enriquecedor. Desde o início o Clube notabilizou-se em duas vertentes de intervenção: a promoção de encontros debate com as chamadas “fontes de informação”, permitindo a reflexão sobre pontos de interesse geral ou especial complexidade, geralmente no registo de “off record” e a promoção de jornalismo de qualidade com a atribuição dos prémios em várias categorias, a que mais recentemente se juntou o Prémio Carreira. Outros se lhe seguiram com sucesso, mas é justo atribuir ao CPI o pioneirismo absoluto na matéria.

Tivemos, nesta longa actividade, uma linha de comum continuidade, sem a qual o Clube em vez de mostrar uma renovada vitalidade nos últimos anos certamente já teria desaparecido. A inestimável disponibilidade e dedicação do seu director de sempre, o nosso Dinis de Abreu,  que acabou a prolongar a sua passagem pela direcção do Diário de Noticias, o grande jornal de referência na altura, nos mandatos sistematicamente renovados por aclamação e louvor como dirigente do CPI.

Os últimos anos foram ricos de parcerias com o Automóvel Clube de Portugal (parceiro de quase sempre), o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário,  que permitiram ao CPI uma dimensão de convívio cultural particularmente simpático. Ao público clássico de jornalistas e gestores da comunicação vieram somar-se os interessados pelos vários temas em debate. Uma mais-valia.

Num ponto, contudo, falhamos: não se construiu o consenso necessário ao avanço que a maioria defendia para a constituição de uma estrutura do  tipo ordem profissional ( o que eu não lamento, especialmente porque sempre fiz parte da minoria que via a criação da Ordem com algum cepticismo). Como segundo insucesso reconheçamos que não se conseguiu o rejuvenescimento necessário a garantir o futuro da estrutura.

É esse o grande desafio do momento: não deixar que o clube envelheça com os seus criadores. Eu que estava a dar os meus primeiros passados no jornalismo estou agora a aproximar-me dos últimos na profissão. O mundo mudou, entretanto, mas a necessidade de continuar a debater as questões éticas que se impõem e a função que os media são chamados a desempenhar, não só não acabaram como ganharam contornos de ainda muito maior importância. 

No mundo digital, “os cães do guarda da democracia” são mais do que nunca necessários e, convenhamos, são cada vez menos. Os tempos que vivemos no início desta aventura na perspectiva nacional podiam designar-se como tempos interessantes, mas os que actualmente enfrentamos são, na perspectiva da velha expressão chinesa,  tempos  muitíssimo mais “interessantes”. 

Devemos estar gratos por podermos fazer parte destes tempos e seria muito bom que, agora, que os que criaram o CPI sintam  mais do que nunca a plenitude da sua necessidade e utilidade,  não deixando de lutar pelo seu rejuvenescimento. Admitamos com humildade que há entre a nova geração gente infinitamente mais preparada para analisar e construir o futuro. Um futuro que, em múltiplos casos, já se fez presente.

*Presidente da Assembleia Geral do CPI


Connosco
O contributo dos “ombudsman” para restaurar a confiança nos “media” Ver galeria

Nos últimos anos, os cidadãos têm manifestado um baixo nível de confiança nos “media”, alegando que a imprensa é tendenciosa e que dissemina “fake news”.

Ainda assim, de acordo com um estudo publicado na plataforma “Gallup”, 70% dos norte-americanos acredita que a credibilidade dos “media” poderá ser recuperada.

Este tema foi analisado na tese de mestrado de Dan Salamone, para a Universidade do Missouri, que investigou sobre a importância dos “ombudsman” na criação de uma boa relação com os leitores.

Salamone recordou, neste âmbito, que os “ombudsman”, ou provedores do leitor, começaram a surgir na década de 1960, e atingiram o pico da sua relevância na década de 1980.

Contudo, hoje em dia, existem poucos provedores nos Estados Unidos.

Por isso mesmo, Salamone entrevistou oito profissionais que já exerceram esta função, para que estes esclarecessem qual o papel dos “ombudsman” e qual a sua importância no espaço mediático.

“O ‘ombudsman’ era considerado uma pessoa independente e autónoma , ao mesmo nível do editor-executivo, mas sem funções noticiosas” afirmou Mark Prendergast, que foi provedor do “Stars and Stripes” entre 2009 e 2012.

Já Clark Hoyt, provedor do “New York Times” entre 2007 e 2010, disse que “trabalhava para o público”, ao explicar as funções do jornalismo e os valores da instituição.

Por sua vez, Elizabeth Jensen, provedora da National Public Radio, entre 2015 e 2019 afirmou que o seu papel era “recolher os factos”, “estabelecer contacto com os leitores”, “representar o público” e garantir a transparência.

Os restantes provedores entrevistados referiram, igualmente, os valores da transparência e da representação dos leitores no interior da redacção, bem como a sua própria independência.

 

Directiva editorial da TDM provoca controvérsia em Macau Ver galeria

Dois deputados de Macau pediram, na Assembleia Legislativa (AL), que o Governo rectificasse as directivas patrióticas impostas às redacções de língua portuguesa e inglesa da TDM -Teledifusão de Macau.

“O Governo deve exigir à TDM a revisão imediata dessas directrizes controversas, e tentar, com boa vontade, restabelecer a relação laboral com os trabalhadores que se demitiram em defesa da liberdade de imprensa”, disse Ng Kuok Cheong, referindo-se à actual situação na emissora pública de Macau, que levou à demissão de seis jornalistas portuguesas.

De forma a evitar que a imagem de Macau e da própria China seja afectada junto da comunidade internacional, aquele deputado pró-democracia afirmou, ainda, que o Governo deve “garantir a liberdade de imprensa no serviço público de radiodifusão, para salvaguardar os direitos e liberdades fundamentais dos residentes”.

No mesmo debate, o deputado Sulu Sou frisou que o Governo tem de assumir a responsabilidade e “rectificar os requisitos internos da TDM que violem a lei, fiscalizando a Comissão Executiva nomeada pelo Chefe do Executivo para tomar medidas práticas” que salvaguardem e promovam “ a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e a liberdade de edição, tal como estipulado na Lei Básica e na Lei de Imprensa”.

O mais jovem deputado de Macau, que marcou presença numa manifestação de apoio à liberdade de imprensa na região em frente à sede da TDM, pediu, igualmente, aos responsáveis da Radiodifusão de Macau que “assumam a promessa de que a TDM e os seus profissionais da comunicação social não sejam aproveitados como instrumento de divulgação do Governo”.

Já o deputado Wu Chou Kit, também no plenário, discordou dos apelos dos dois colegas pró-democratas, e afirmou que o Governo não deve interferir “nem deve ser solicitado a interferir com os assuntos internos da empresa e com a independência dos meios de comunicação social”.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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Opinião
Se olharmos para o ranking da liberdade de imprensa, elaborado pela organização internacional Repórteres sem Fronteiras (RSF), verificamos que Portugal fecha o top ten em 2020, entre 180 países avaliados, tendo melhorado duas posições desde o ano anterior. É uma classificação confortável, numa lista liderada pela Noruega, onde a vizinha Espanha aparece em 29.º lugar e a Coreia do Norte em último, um exemplo...
Limites da liberdade de expressão
Francisco Sarsfield Cabral
Na internet não deve continuar a prevalecer a lei da selva. O que não é um apelo à censura, muito menos se ela for praticada pelos gestores das empresas tecnológicas. Cabe à política, e não às empresas, assegurar o bem comum. Quem escreve na internet deverá sujeitar-se às condições jurídicas que não permitam atos que são considerados crimes nos media tradicionais.Não há...
Venham mais 40!...
Carlos Barbosa
No Brasil, começou esta aventura, com o Dinis de Abreu!! Foi há 40 anos, estava ele no Diário de Noticias e eu no Correio Manhã, quando resolvemos, com mais uma bela equipa de jornalistas, fundar o Clube Português de Imprensa. Completamente independente e sem qualquer cor politica, o Clube cedo se desenvolveu com reuniões ,almoços, palestras, etc. Tivemos o privilégio de ter os maiores nomes da sociedade civil e política portuguesa...
A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
A ideia fundadora do CPI, pelo menos a que justificou a minha adesão plena à iniciativa, foi o entendimento de que cada media é uma comunidade de interesses convergentes. A dos editores da publicação, a dos produtores, a dos que comercializam. Isto é, uma ideia cooperativa de acionistas, jornalistas e outros trabalhadores. E, obviamente, uma ideia primeira de independência e de liberdade. Esta ideia causou, há quarenta anos, algum...
Agenda
12
Abr
Jornalismo de Dados
18:00 @ Cenjor
15
Abr
IV Jornada de Comunicación AECC
10:00 @ Conferência "Online" da Asociación Española de Comunicación Científica
16
Abr
16
Abr
20
Abr
How Silicon Valley Is Transforming News Business
10:00 @ Conferência "Online"