Terça-feira, 19 de Janeiro, 2021
Efeméride

Celebrar 40 anos antes de escrever o futuro

Dinis de Abreu

A acta fundacional do CPI - Clube Português de Imprensa foi assinada a 17 de dezembro de 1980. Entre os fundadores, contam-se personalidades incontornáveis do jornalismo e da sociedade portuguesa, desde Norberto Lopes e Raul Rego, a Francisco Pinto Balsemão ou ao actual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. 

O Clube nasceu para agregar jornalistas e outros profissionais do sector , além de gestores de empresas de media, algo em que foi absolutamente inovador,  numa época em  que uns e outros se olhavam com desconfiança, mal cicatrizadas ainda as feridas abertas pelo processo revolucionário, surgido em 25 de Abril de  1974.

O Clube nasceu, ainda, para contrariar uma certa apatia associativa, e fomentar o debate e a reflexão sobre os problemas que então, como hoje, se colocavam e colocam aos jornalistas e ao jornalismo.

A década de 80, que acolheu o CPI, foi prodigiosa. Num relance, e sem preocupações  cronológicas, assinalam-se   acontecimentos tão marcantes como  o tratado de adesão à CEE, a queda do Muro de Berlim, o desastre de Camarate ( que vitimou Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa e cujo mistério persiste até hoje, sobre se foi atentado ou acidente), a declaração conjunta  para a devolução de Macau à China, ou, ainda, o grande  incêndio no Chiado, a chegada da televisão a cores ou a vitória de Carlos Lopes na maratona olímpica de Los Angeles. 

Foi também nesta década, mais precisamente em 1985, que o Clube lançou os seus prémios de jornalismo em várias modalidades, num modelo de que foi pioneiro em Portugal. 


Visavam distinguir primeiro a reportagem – Imprensa, rádio e televisão -, ou a fotorreportagem. Mas não abdicavam de escolher, igualmente, os melhores entre os mais jovens – as revelações -, incluindo estudantes de ciências de Comunicação e de jornalismo, ou os recém-chegados ao jornalismo económico, uma especialidade que estava a despontar. 

Foram numerosos os jornalistas premiados, constituindo um precioso incentivo nas suas carreiras profissionais. A crise apossou-se, entretanto,  das redacções, muito antes de ser declarada a pandemia nos primeiros meses deste ano.

O associativismo marcou passo, o perfil das redacções mudou radicalmente, a boémia tradicional extinguiu-se e deu lugar a uma relação cada vez mais estreita e dependente com a Internet e as redes sociais. 

O jornalismo praticado hoje, e não apenas em Portugal, tem menos contacto com a realidade circundante, sai pouco para ver e testemunhar o que se passa fora do perímetro do jornal, e absorve, muitas vezes,   acriticamente, o que é debitado em blogues, ou nas plataformas virtuais na moda. 

A paisagem mediática mudou muito nestes 40 anos.  A Imprensa entrou em declínio, com vários títulos a desaparecer, e os que restam sobrevivem com não poucas dificuldades. Mesmo jornais com história correm riscos sérios, se não encontrarem alternativas que captem mais leitores e os fidelizem. 

Mais lentamente, tanto a rádio como a televisão, estão a conhecer um fenómeno de crescente erosão. As audiências ressentem-se e a transferência de espectadores e ouvintes para outros meios não para de aumentar.  As versões digitais não compensam o que se perde em papel ou nos suportes de transmissão hertziana.  

No audiovisual, o advento do satélite e do cabo, este servido pela fibra óptica, tornou quase obsoletos os emissores convencionais, destruindo, a pouco e pouco, o conceito de “grelha” de programas, substituindo-a pela televisão e rádio “a la carte”. Cada um elabora o seu “menú”.

Perante tantas e  tão profundas mudanças, naturalmente  que o Clube também precisou de adaptar-se, criando novas formas de chegar aos associados e, em geral, a todos os interessados  que se habituaram a estar connosco, presencialmente, em iniciativas como  os ciclos de jantares-debate, feitos em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário,  ou à distância, através deste “site”.

Nos anos 80, quando o Clube deu os primeiros passos e cresceu, houve uma espantosa aceleração das comunicações e do modo   de comunicar. Foi uma fase que constituiu um poderoso desafio, embora nem sempre virtuoso.   

A par do progresso tecnológico, agravou-se a “crónica negra” dos jornalistas perseguidos, presos e assassinados pelo mundo fora, sem que os poderes instalados dessem mostras de querer travar essa escalada. 

Os atentados à liberdade de Imprensa ganharam novos adeptos, mesmo na Europa e no continente americano, e as mordaças, a vários pretextos, concorrem já, em alguns casos, com a imposição das máscaras sanitárias... 

Não faltam mesmo os teorizadores que advogam, com desenvoltura, restrições à liberdade de Imprensa, em nome do serviço público. Vivem-se tempos complexos.  

Sobram, por isso, as razões para o Clube não baixar os braços. Em homenagem à memória de fundadores que partiram, e por sentirmos que quem nos elegeu, como associado ou frequentador regular deste site, se sente assim mais acompanhado. Falta-nos ainda escrever o futuro. 
 
****
 
Connosco
Guia possível com directrizes para jornalistas em manifestações Ver galeria

Sabe-se que, em algumas manifestações, os jornalistas acabam por ser agredidos pelas autoridades, que os tomam como cidadãos em protesto.

Este tipo de acção põe em causa não só a liberdade de imprensa, como, igualmente, a integridade física dos profissionais.

Perante este cenário, o instituto Poynter reuniu um conjunto de directrizes destinadas a proteger jornalistas, no decurso de manifestações, que tenham necessidade de cobrir.

De acordo com o guia, a conduta dos jornalistas é essencial. Assim, de forma a não serem visados pelas autoridades, o instituto Poynter sugere que os colaboradores dos “media” permaneçam calmos e utilizem indumentárias que os distingam dos manifestantes.Neste sentido, os jornalistas devem estar devidamente identificados, com as respectivas credenciais à vista.

É, igualmente, importante, que os profissionais não atraiam as atenções, quer através de luzes fluorescentes , quer de outro tipo de material de grande porte.

De qualquer forma, é importante que as câmaras estejam sempre a gravar. Assim, os jornalistas guardam sempre provas de qualquer incidente. Como tal, os profissionais devem certificar-se de que sabem operacionalizar os vários equipamentos.

Além disso, os colaboradores dos “media” devem recordar-se de que não são obrigados a entregar o material de reportagem às autoridades. Em caso de dúvida, será conveniente ter o contacto de um advogado.

Os dilemas e os desafios que se colocam ao jornalismo migratório Ver galeria

No Brasil, a maioria dos jornalistas que escreve sobre emigração foca-se, somente, nos aspectos positivos da mudança, omitindo as verdadeiras dificuldades de um expatriado, considerou Liliana Tinoco Backert num texto publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

De acordo com a autora, este tipo de artigos passam a mensagem de que basta dominar uma língua estrangeira para se ser bem sucedido lá fora. Contudo, defende Tinoco Backert, a realidade nem sempre é essa.

Quando os jornalistas oferecem destaque a empresários de sucesso, esquecem-se, muitas vezes, das possíveis adversidades enfrentadas pela família desse mesmo profissional, que deixaram as suas rotinas para o acompanhar.

Da mesma forma, o jornalismo de migração brasileiro omite os choques interculturais, as dificuldades de adaptação e a possível exclusão social.

Perante este cenário, a autora incentiva os profissionais dos “media” a criarem projectos focados nestes temas, para informarem, eficazmente, os leitores que estão a ponderar mudar de país.

Aliás, Tinoco Backart -- que chegou a viver na Suíça -- começou a redigir, em 2016, a sua própria coluna sobre movimentos migratórios, que é publicada no portal Swissinfo.ch.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


ver mais >
Opinião
Nos 40 anos do CPI
Francisco Sarsfield Cabral
Comemoram-se este mês quarenta anos desde a fundação deste Clube, em 1980. Vivia-se em Portugal, então, o alívio pela liberdade de expressão – já não havia censura prévia. Mas algumas forças políticas, sobretudo de extrema-esquerda, tinham ocupado órgãos de comunicação social. Foi o caso da Rádio Renascença e do jornal República, por exemplo. E a maior parte da...
Venham mais 40!...
Carlos Barbosa
No Brasil, começou esta aventura, com o Dinis de Abreu!! Foi há 40 anos, estava ele no Diário de Noticias e eu no Correio Manhã, quando resolvemos, com mais uma bela equipa de jornalistas, fundar o Clube Português de Imprensa. Completamente independente e sem qualquer cor politica, o Clube cedo se desenvolveu com reuniões ,almoços, palestras, etc. Tivemos o privilégio de ter os maiores nomes da sociedade civil e política portuguesa...
A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
A ideia fundadora do CPI, pelo menos a que justificou a minha adesão plena à iniciativa, foi o entendimento de que cada media é uma comunidade de interesses convergentes. A dos editores da publicação, a dos produtores, a dos que comercializam. Isto é, uma ideia cooperativa de acionistas, jornalistas e outros trabalhadores. E, obviamente, uma ideia primeira de independência e de liberdade. Esta ideia causou, há quarenta anos, algum...
Notas breves
José Leite Pereira
1 - Assistir a entrevistas na televisão tornou-se um ato penoso. As entrevistas fizeram-se para que alguém possa transmitir a terceiros o que entende dever ser transmitido. Ao jornalista cabe o papel de intermediário e intérprete do que julga ser a curiosidade do público. A entrevista é um ato de esclarecimento. Diferente de um texto de opinião ou de uma comunicação pura e simples exatamente por causa da presença do...
Agenda
27
Jan
Investigação e Escrita de Não-ficção
11:00 @ Cenjor -- Sessões síncronas "online"
01
Fev
Iniciação à Fotografia
10:00 @ Cenjor
23
Fev
Westminster Forum Projects: O futuro da BBC
10:00 @ Conferência "online"
28
Set
World News Media Congress
09:00 @ Taipei, Taiwan