Terça-feira, 19 de Janeiro, 2021
Opinião

Notas breves

por José Leite Pereira

1 - Assistir a entrevistas na televisão tornou-se um ato penoso. As entrevistas fizeram-se para que alguém possa transmitir a terceiros o que entende dever ser transmitido. Ao jornalista cabe o papel de intermediário e intérprete do que julga ser a curiosidade do público.
A entrevista é um ato de esclarecimento. Diferente de um texto de opinião ou de uma comunicação pura e simples exatamente por causa da presença do intermediário na comunicação. Mas isso não faz do jornalista figura central.
O que de há uns anos para cá vem acontecendo com as entrevistas televisivas é que se transformaram em combates entre entrevistador e entrevistado. Combates ainda por cima desiguais: a maior parte das vezes os jornalistas bombardeiam os entrevistados e nem tempo lhes dão para responder. O espetador pouco interessado estará na opinião do jornalista e, não raras vezes, fica mais clara a opinião deste do que a do pobre entrevistado que, a cada resposta que ensaia, é imediatamente bombardeado com nova pergunta.
Não sei qual foi o momento em que se perderam as boas práticas nas TV. Mas perderam-se. Os mais velhos lembrar-se-ão das entrevistas calmas, serenas e acutilantes de Joaquim Letria, das conversas pausadas de Carlos Pinto Coelho e de outros mais.
Nenhum deles, seguramente, andou a fazer fretes aos seus entrevistados. Nenhum deles precisou nunca de alardear os seus conhecimentos. O seu “peso” sentia-se, mas não perturbava. A maior parte dos entrevistadores das televisões interfere e prejudica a fluidez do discurso do entrevistado. Acresce que, ao quererem ser protagonistas, expõem-se ao ridículo e fragilizam a sua posição de intermediários na comunicação.
Não é por acaso que começam a fazer caminho debates sem moderação onde, acreditem, o tom é mais calmo e genericamente mais esclarecedor do que com a presença das “super vedetas” da entrevista.
Também houve um momento qualquer em que os entrevistadores resolveram passar a um tratamento informal e coloquial com os seus entrevistados. Mas fizeram-no da pior forma.
O Presidente da República é sempre o Presidente da República. E se a entrevista for ao candidato a Presidente, passará a ser o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, com ou sem Prof., nunca Marcelo, apenas. Ana Gomes será sempre Ana Gomes, com ou sem o dr., mas nunca Ana. São regras elementares que se aplicam também aos políticos.
Há dias, Marcelo Rebelo de Sousa tratava os seus entrevistadores por “o Ricardo” e “o Bernardo”. A intimidade entre figuras não existe na televisão. Dito pelo candidato a Presidente acentua a sua superioridade perante os entrevistadores – o que lhe fica mal. Dito pelos entrevistadores parece querer diminuir a figura do entrevistado – o que é feio.

2 – Quando, há anos, caiu a Ponte de Entre-os-Rios, o ministro da tutela foi rápido a pedir a demissão. Porquê? Porque era o que estava no posto mais alto da hierarquia e, embora não fosse tido nem achado no acidente pensou que seria um erro continuar no cargo, simplesmente porque estar no topo da hierarquia tem consequências. 

Eduardo Cabrita pensa de maneira diferente e recusa a demissão depois do SEF ter assassinado um cidadão ucraniano. Vai tão longe na sua defesa que proclama, sem um pingo de vergonha, que foi o único a fazer alguma coisa. É certo. Foi porque era ele o ministro. O mal é que agiu tarde e por para isso ter sido empurrado por alguma comunicação social – essa sim atenta. 

Uma conferência de Imprensa lamentável pelo que revelou de falta de ética do ministro não foi suficiente para o primeiro ministro o demitir. Nem sempre os ministros saem quando se põem a jeito. O chefe do Governo é que define o timing e, por muito que isso possa custar a António Costa, o ministro Eduardo Cabrita tem os dias contados. É só deixar passar a agitação das águas e esperar pela oportunidade de uma remodelação. 


3 – Quando alguém é chamado a Belém ou pede para ser recebido presta, normalmente, declarações depois da audiência, nem que seja para dizer não querer revelar o conteúdo da conversa mantida com o Presidente da República. 

Recentemente, o diretor da PSP disse o que devia e não devia à saída de Belém deixando em maus lençóis o mesmo ministro Eduardo Cabrita. 

Pode ser só má educação e falta de chá. Mas militares e polícias estão treinados para dizerem só o que devem dizer e nunca se desviam.  Tendo este dito demais, é lógico que nos interroguemos porquê, com que intenção e para o interesse de quem? Esperemos que cenas dos próximos capítulos lancem luz sobre esta questão.


Connosco
Os dilemas e os desafios que se colocam ao jornalismo migratório Ver galeria

No Brasil, a maioria dos jornalistas que escreve sobre emigração foca-se, somente, nos aspectos positivos da mudança, omitindo as verdadeiras dificuldades de um expatriado, considerou Liliana Tinoco Backert num texto publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

De acordo com a autora, este tipo de artigos passam a mensagem de que basta dominar uma língua estrangeira para se ser bem sucedido lá fora. Contudo, defende Tinoco Backert, a realidade nem sempre é essa.

Quando os jornalistas oferecem destaque a empresários de sucesso, esquecem-se, muitas vezes, das possíveis adversidades enfrentadas pela família desse mesmo profissional, que deixaram as suas rotinas para o acompanhar.

Da mesma forma, o jornalismo de migração brasileiro omite os choques interculturais, as dificuldades de adaptação e a possível exclusão social.

Perante este cenário, a autora incentiva os profissionais dos “media” a criarem projectos focados nestes temas, para informarem, eficazmente, os leitores que estão a ponderar mudar de país.

Aliás, Tinoco Backart -- que chegou a viver na Suíça -- começou a redigir, em 2016, a sua própria coluna sobre movimentos migratórios, que é publicada no portal Swissinfo.ch.

Onde se preconiza a responsabilização das redes sociais Ver galeria

As redes sociais poderão estar a assumir a responsabilidade pela partilha compulsiva de informações falsas e de opiniões que são tomadas como factos, considerou o jornalista Lucas Souza Doutra num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

O autor começa por recordar que o Novo Ano foi marcado por uma polémica na plataforma Twitter, que baniu a conta de Donald Trump. Esta medida foi justificada com os riscos de incitação à violência, afirmações falsas e violação de regras das plataformas.

Segundo indicou Dutra, é certo que a acção pode ter sido motivada por interesses económicos e políticos.

Mas, a curto prazo -- reiterou o autor -- este tipo de moderação pode ser eficaz no condicionamento das “fake news” e começar a traçar um melhor futuro para o ambiente virtual que, nos últimos anos, se tem caracterizado pela distorção e imposição de ideologias, estimulada pelo excesso de segmentação e de algoritmos.

O autor considera, por outro lado, que é urgente responder a algumas questões sobre a regulação do mundo “online”.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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