Nos últimos meses, os “media” -- particularmente os locais -- têm sido monopolizados pela pandemia, deixando de focar-se noutros temas importantes para a sociedade. Contudo, isto não é, necessariamente, uma mudança negativa.
Quem o diz é a jornalista alemã Ulrike Schleicher que, em entrevista ao “Observatório da Imprensa” -- associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria -- reflectiu sobre as principais mudanças registadas no mundo jornalístico.
O trabalho de Schleicher inclui uma experiência internacional de quatro anos em Israel, onde viveu e contribuiu para os “media” alemães com informações sobre a vida local e as questões que envolvem a Faixa de Gaza.
Segundo recordou a jornalista, a liberdade da imprensa alemã registou o seu primeiro impulso com a queda do Muro de Berlim, que abriu um debate plural sobre questões políticas. A Alemanha passou a ser considerado um dos países mais liberais do Mundo e isso é espelhado na cobertura das crises étnicas e de refugiados.
“Em geral, ainda existe uma grande vontade de defender os direitos humanos. Cheguei a cobrir a vida difícil dos indígenas no Peru e muito mais. Tenho, contudo, a sensação de que a cobertura dos direitos humanos perdeu importância devido às mudanças climáticas. E, claro, em tempos de Coronavírus, tudo o resto ficou em segundo plano”, considerou.
Aquela profissional considera, contudo,que, durante o período de pandemia, os “media” locais devem continuar a focar-se em “situações bizarras”, relacionadas com as medidas governamentais.
“Moro no estado de Baden-Wuerttemberg, mas a apenas 50 metros — do outro lado do rio Donau — fica o estado da Baviera. (...) Durante o confinamento que aconteceu na primavera, não era permitido aos cidadãos da Baviera fazer caminhadas acompanhados de amigos, apenas familiares podiam andar juntos. Mas em Baden-Wuerttemberg, as pessoas podiam andar com alguém que não fosse da família, não importava quem”, apontou.
“Quando cobrimos isto, temos que explicar e entender as peculiaridades do federalismo alemão. (...) cobrimos a política local, a economia, a administração, as questões sociais relacionadas à construção de moradia, ruas, ferrovias. Tentamos representar as pessoas que moram nas cidades, tanto nativos como estrangeiros, bem como os oprimidos e aqueles que estão comprometidos em apoiar os outros. Cobrimos as celebrações oficiais e falamos sobre tradição e inovação”.
A jornalista lamenta, porém, que a maioria das notícias locais seja, agora, apresentada em formato digital, que não abre espaço para a verdadeira reflexão.
A pandemia veio agravar a crise dos “media”, já que modificou os hábitos de consumo dos cidadãos e demonstrou a necessidade de alterar o modelo de negócio tradicional, assente, sobretudo, em receitas publicitárias.
Perante este novo contexto, o Obercom analisou as diferenças registadas, entre 2019 e 2020, na imprensa portuguesa, de forma a traçar um possível futuro para o sector, tendo em conta a aceleração das marcas digitais.
Para tal, foram analisadas doze publicações -- “Correio da Manhã”, “Jornal de Notícias”, “Diário de Notícias”, “Público”, “Expresso”, “Visão”, “Sábado”, “Jornal de Negócios”, “Jornal Económico”, “Record”, “O Jogo” e “Courrier Internacional”.
Em primeira instância, constatou-se que, tanto o volume de circulação paga, como o volume de tiragens, tem sofrido quedas sustentadas ao longo dos últimos anos. O volume de tiragens também diminuiu, acompanhando o ritmo de quebra das vendas em banca.
Em relação ao índice de Eficiência das publicações -- que resulta do rácio entre tiragens e circulação impressa paga -- verifica-se que os semanários “Expresso” e “Visão” são aqueles que apresentam os valores mais altos. Em posição contrária estão o “Jornal Económico” e o “Jornal de Negócios”.
No que respeita ao digital, o crescimento das assinaturas não tem sido suficiente para colmatar as perdas no papel.
Nos últimos meses, a liberdade de imprensa em França tornou-se um tema de debate, devido à aprovação da Lei de Segurança Global, recordou o jornalista Rui Martins num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.
Entre outros pontos, a Lei de Segurança Global estabelece restrições à divulgação de imagens dos membros das forças policiais e militares, o que, para os franceses, constitui um acto de censura.
Segundo indicou Martins, este “controlo de imagem”, previsto no artigo 24, é subtil e mal intencionado, já que visa proteger as autoridades, em caso de utilização excessiva da força.
Até porque, de acordo com o documento, será punido o fotógrafo, o operador de imagem ou o cidadão que captar e difundir imagens das forças da autoridade. A pena pode ir até aos 45 mil euros e um ano de prisão.
Além disso, não havendo prova visual, os autores de tais denúncias poderiam ser processados.
Perante este quadro, um grupo de editores executivos franceses reafirmou, em comunicado, o seu compromisso com a lei da liberdade de imprensa de 1881 e garantem que estarão vigilantes para assegurar o seu cumprimento.
A defesa do anonimato dos polícias franceses foi, ainda, questionada pelas próprias televisões francesas, que mostraram imagens de agentes ingleses e alemães, com suas identificações bem visíveis nos próprios uniformes.
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