Sábado, 28 de Novembro, 2020
Opinião

A pandemia e o risco de um jornalismo vigiado

por Dinis de Abreu

As eleições americanas, bem como a pandemia provocada pelo  covid-19, têm sido dois poderosos ímanes na  cobertura mediática, e campo fértil para  o exercício do jornalismo, desde o que é   servido com rigor, àquele que obedece  apenas aos cânones  ideológicos de quem escreve.

Houve tempo em que se cultivava o sagrado principio da separação da opinião e da informação na escrita jornalística, quer nas redacções, quer   nas Universidades dedicadas ao ensino do jornalismo e das ciências de comunicação.

Hoje é vulgar observar-se a dificuldade de o jornalista separar o “trigo do joio”, confundindo amiúde no mesmo texto o que é factual com aquilo que é a sua posição própria. 

Pior: há jornais onde se torna difícil distinguir o que é noticioso daquilo que é o comentário do autor da peça. 

Este modelo tem vindo a ganhar terreno, e é frequente vê-lo apoiado em teorias da “defesa de causas”, sejam sociais, políticas ou, simplesmente, ambientalistas, na lógica da vaga das alterações climáticas. 

As eleições presidenciais americanas reforçaram essa tendência, até porque o Presidente quase cessante  nunca “morreu de amores” pelos media, conseguindo tê-los contra si, em vigorosa oposição, com raras excepções.


A pandemia contribuiu, também, para que se valorizassem mais em certos países os seus efeitos nefastos do que noutros. Sabemos ao pormenor a evolução da doença nos Estados Unidos, no Brasil, e na maior parte da Europa, mas pouco ou quase nada do que se passa na China profunda, ou de um modo geral em África, ou, ainda,  na Venezuela, em Cuba ou na Coreia do Norte.

Dir-se-á que é essa a linha divisória natural entre as democracias ocidentais e as ditaduras. Mas mesmo nas democracias há assimetrias que conviria não escamotear, consoante a natureza do poder instalado.

Se em ditadura o papel do jornalista é ingrato, cabendo-lhe a atitude de  resistência se não se tiver conformado, em democracia pertence-lhe o papel activo de ser uma testemunha fiel dos acontecimentos e de  actuar em nome da verdade, sem se deixar intimidar ou armadilhar.

Há formas de censura encapotada e de autocensura que não são menos perniciosas para uma informação livre. Vivemos um desses momentos decisivos. Nos Estados Unidos assistiu-se já a comportamentos censórios ou discriminatórios, até em jornais de referência. 

Em Portugal, a coberto da crise sanitária, já se ensaiam alguns passos no mesmo sentido. O certo é que o estado de contingência, de calamidade ou de emergência não legitima quaisquer restrições à liberdade de Imprensa ou de expressão. 
 

Mas já se ouviram os “iluminados” do costume, sempre do lado correcto da História, a defenderem a “boa censura”. E é útil não esquecer que, já em 2011, a organização Repórteres sem Fronteiras reconhecia que “nunca tantos países foram afectados com Censura, prisões e perseguições de internautas como agora”. 

Em menos de uma década, a situação piorou. Hoje, com os principais media controlados ou “amansados”, a Internet é o novo objectivo da “brigada de patrulheiros”,  por ser uma janela aberta para o mundo. Não haja ilusões. Há um novo vírus que vigia e ataca o jornalismo sério.
Connosco
Onde se preconiza o jornalismo social e notícias felizes Ver galeria

O Presidente da Associação de Imprensa de Madrid -- com a qual o CPI mantém um acordo de parceria -- considera essencial que os “media” continuem a promover a dimensão social do jornalismo.

No discurso inaugural do Congresso da Comunicação Especializada na Sociedade da Informação, Juan Caño recordou que, com a crise pandémica, esta função "tem sido exercida de forma exemplar por vários meios de comunicação social", que, durante meses, não se esqueceram de "encorajar a população a superar a calamidade”.

Porém, ultimamente, começou a registar-se um “cansaço dos media', perante demasiada informação", recordou Caño. 

Este fenómeno tem vindo a ocorrer "à medida que a informação se foi tornando repetitiva e deixou de oferecer soluções viáveis", acrescentou.

Esta afirmação é sustentada pelo Relatório Anual da Profissão Jornalística 2020 da APM -- a ser publicado a 16 de Dezembro -- que revela que 43% dos espanhóis considerou excessiva a cobertura da pandemia.


Jornalismo deve acolher estratégias financeiras sustentáveis Ver galeria

O jornalismo deve ser encarado como um produto, para que os “media” possam prosperar de forma sustentável, defendeu o jornalista Rich Gordon num artigo publicado no “site” do Knight Center.

De acordo com o autor, os profissionais dos “media” rejeitam, por norma, esta ideia, já que para a maioria defende o jornalismo como sendo, única e exclusivamente, um serviço público.

E, embora Gordon acredite que esta deve ser a principal premissa dos jornalistas, considera, igualmente, essencial que a imprensa siga as tendências de mercado.

Como tal, reuniu, numa lista, seis razões pelos quais os “media” devem encarar os seus conteúdos como um produto.

Em primeiro lugar, Gordon recorda que os “websites”, os jornais, as “newsletters” são “mercadorias” -- os cidadãos decidem se querem ou não consumi-las, perante uma imensidão de escolhas. Além disso, a popularidade destes produtos depende do seu nível de inovação e de qualidade.

Este tipo de mentalidade existe há dois séculos -- os jornais do século XIX seguiam as exigências do mercado, a lei da oferta e da procura. A estratégia consistia em distribuir o máximo de jornais, a um preço reduzido, esperando conseguir o apoio de anunciantes.

O Clube


Faz cinco anos que começámos este
site, desenhado por Nuno Palma, webdesigner e docente universitário, que desde então colabora connosco.

O projecto foi lançado com uma modéstia de recursos que não mudou entretanto, porque escasseiam os mecenas e os poucos que se nos juntaram também se defrontaram com orçamentos penalizados, seja pela conjuntura económica, seja, mais recentemente, pela crise sanitária. 

Neste contexto, a sobrevivência é um desafio diário, e um lustre de existência deste site é uma profissão de fé e uma teimosia.

O site constitui a respiração do CPI, fora de portas, e a nível global. Os primeiros passos foram dados sem qualquer publicidade. Aparecemos online e por aqui ficámos, procurando habilitar diariamente quem nos visita com a melhor informação sobre as actividades do Clube e o pulsar dos media e do jornalismo, sem restrições de credo, nem obediências de capela. Com rigor e independência.

Fomos recompensados. Só no último ano, de acordo com medições de audiência da Google Analytics, crescemos mais de 50% em sessões efectuadas e mais de 60% em utilizadores regulares. É algo de que nos orgulhamos.



ver mais >
Opinião
Agenda
02
Dez
Género e "media": desafios de Pequim
10:00 @ Conferência Internacional "Online" da SOPCOM
04
Dez
O coronavírus e o Caos estatístico
10:00 @ Conferência "online" da Universidade de Bournemouth
09
Dez
11
Dez