Quarta-feira, 2 de Dezembro, 2020
Opinião

A pandemia e o risco de um jornalismo vigiado

por Dinis de Abreu

As eleições americanas, bem como a pandemia provocada pelo  covid-19, têm sido dois poderosos ímanes na  cobertura mediática, e campo fértil para  o exercício do jornalismo, desde o que é   servido com rigor, àquele que obedece  apenas aos cânones  ideológicos de quem escreve.

Houve tempo em que se cultivava o sagrado principio da separação da opinião e da informação na escrita jornalística, quer nas redacções, quer   nas Universidades dedicadas ao ensino do jornalismo e das ciências de comunicação.

Hoje é vulgar observar-se a dificuldade de o jornalista separar o “trigo do joio”, confundindo amiúde no mesmo texto o que é factual com aquilo que é a sua posição própria. 

Pior: há jornais onde se torna difícil distinguir o que é noticioso daquilo que é o comentário do autor da peça. 

Este modelo tem vindo a ganhar terreno, e é frequente vê-lo apoiado em teorias da “defesa de causas”, sejam sociais, políticas ou, simplesmente, ambientalistas, na lógica da vaga das alterações climáticas. 

As eleições presidenciais americanas reforçaram essa tendência, até porque o Presidente quase cessante  nunca “morreu de amores” pelos media, conseguindo tê-los contra si, em vigorosa oposição, com raras excepções.


A pandemia contribuiu, também, para que se valorizassem mais em certos países os seus efeitos nefastos do que noutros. Sabemos ao pormenor a evolução da doença nos Estados Unidos, no Brasil, e na maior parte da Europa, mas pouco ou quase nada do que se passa na China profunda, ou de um modo geral em África, ou, ainda,  na Venezuela, em Cuba ou na Coreia do Norte.

Dir-se-á que é essa a linha divisória natural entre as democracias ocidentais e as ditaduras. Mas mesmo nas democracias há assimetrias que conviria não escamotear, consoante a natureza do poder instalado.

Se em ditadura o papel do jornalista é ingrato, cabendo-lhe a atitude de  resistência se não se tiver conformado, em democracia pertence-lhe o papel activo de ser uma testemunha fiel dos acontecimentos e de  actuar em nome da verdade, sem se deixar intimidar ou armadilhar.

Há formas de censura encapotada e de autocensura que não são menos perniciosas para uma informação livre. Vivemos um desses momentos decisivos. Nos Estados Unidos assistiu-se já a comportamentos censórios ou discriminatórios, até em jornais de referência. 

Em Portugal, a coberto da crise sanitária, já se ensaiam alguns passos no mesmo sentido. O certo é que o estado de contingência, de calamidade ou de emergência não legitima quaisquer restrições à liberdade de Imprensa ou de expressão. 
 

Mas já se ouviram os “iluminados” do costume, sempre do lado correcto da História, a defenderem a “boa censura”. E é útil não esquecer que, já em 2011, a organização Repórteres sem Fronteiras reconhecia que “nunca tantos países foram afectados com Censura, prisões e perseguições de internautas como agora”. 

Em menos de uma década, a situação piorou. Hoje, com os principais media controlados ou “amansados”, a Internet é o novo objectivo da “brigada de patrulheiros”,  por ser uma janela aberta para o mundo. Não haja ilusões. Há um novo vírus que vigia e ataca o jornalismo sério.
Connosco
Crescimento das assinaturas digitais não compensa as perdas na circulação impressa Ver galeria

A pandemia veio agravar a crise dos “media”, já que modificou os hábitos de consumo dos cidadãos e demonstrou a necessidade de alterar o modelo de negócio tradicional, assente, sobretudo, em receitas publicitárias.

Perante este novo contexto, o Obercom analisou as diferenças registadas, entre 2019 e 2020, na imprensa portuguesa, de forma a traçar um possível futuro para o sector, tendo em conta a aceleração das marcas digitais.

Para tal, foram analisadas doze publicações -- “Correio da Manhã”, “Jornal de Notícias”, “Diário de Notícias”, “Público”, “Expresso”, “Visão”, “Sábado”, “Jornal de Negócios”, “Jornal Económico”, “Record”, “O Jogo” e “Courrier Internacional”.

Em primeira instância, constatou-se que, tanto o volume de circulação paga, como o volume de tiragens, tem sofrido quedas sustentadas ao longo dos últimos anos. O volume de tiragens também diminuiu, acompanhando o ritmo de quebra das vendas em banca.

Em relação ao índice de Eficiência das publicações -- que resulta do rácio entre tiragens e circulação impressa paga -- verifica-se que os semanários “Expresso” e “Visão” são aqueles que apresentam os valores mais altos. Em posição contrária estão o “Jornal Económico” e o “Jornal de Negócios”.

No que respeita ao digital, o crescimento das assinaturas não tem sido suficiente para colmatar as perdas no papel.

Movimento de jornalistas franceses contra nova Lei de Segurança Ver galeria

Nos últimos meses, a liberdade de imprensa em França tornou-se um tema de debate, devido à aprovação da Lei de Segurança Global, recordou o jornalista Rui Martins num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Entre outros pontos, a Lei de Segurança Global estabelece restrições à divulgação de imagens dos membros das forças policiais e militares, o que, para os franceses, constitui um acto de censura.

Segundo indicou Martins, este “controlo de imagem”, previsto no artigo 24, é subtil e mal intencionado, já que visa proteger as autoridades, em caso de utilização excessiva da força.

Até porque, de acordo com o documento, será punido o fotógrafo, o operador de imagem ou o cidadão que captar e difundir imagens das forças da autoridade. A pena pode ir até aos 45 mil euros e um ano de prisão.

Além disso, não havendo prova visual, os autores de tais denúncias poderiam ser processados.

Perante este quadro, um grupo de editores executivos franceses reafirmou, em comunicado, o seu compromisso com a lei da liberdade de imprensa de 1881 e garantem que estarão vigilantes para assegurar o seu cumprimento.

A defesa do anonimato dos polícias franceses foi, ainda, questionada pelas próprias televisões francesas, que mostraram imagens de agentes ingleses e alemães, com suas identificações bem visíveis nos próprios uniformes.

O Clube


Faz cinco anos que começámos este
site, desenhado por Nuno Palma, webdesigner e docente universitário, que desde então colabora connosco.

O projecto foi lançado com uma modéstia de recursos que não mudou entretanto, porque escasseiam os mecenas e os poucos que se nos juntaram também se defrontaram com orçamentos penalizados, seja pela conjuntura económica, seja, mais recentemente, pela crise sanitária. 

Neste contexto, a sobrevivência é um desafio diário, e um lustre de existência deste site é uma profissão de fé e uma teimosia.

O site constitui a respiração do CPI, fora de portas, e a nível global. Os primeiros passos foram dados sem qualquer publicidade. Aparecemos online e por aqui ficámos, procurando habilitar diariamente quem nos visita com a melhor informação sobre as actividades do Clube e o pulsar dos media e do jornalismo, sem restrições de credo, nem obediências de capela. Com rigor e independência.

Fomos recompensados. Só no último ano, de acordo com medições de audiência da Google Analytics, crescemos mais de 50% em sessões efectuadas e mais de 60% em utilizadores regulares. É algo de que nos orgulhamos.



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