Quarta-feira, 2 de Dezembro, 2020
Opinião

Em casa de ferreiro, espeto de pau?

por Manuel Falcão

No final de 2016 a Newspaper Association Of America, que representava cerca de 2000 publicações nos Estados Unidos e no Canadá, anunciou a sua transformação em News Media Alliance, reflectindo a evolução do sector e passando a incorporar as diversas plataformas em que os grupos produtores de informação qualificada se desdobraram ao longo dos últimos anos, coexistindo o papel com os formatos digitais, mas também video, streaming, etc. 

Esta evolução organizativa tem permitido duas coisas: reflectir melhor as necessidades das empresas de mídia que vivem em diversas plataformas e, ao mesmo tempo, aumentar a sua capacidade negocial, nomeadamente com o duopólio Google-Facebook, e, também, melhorar a sua própria oferta comercial, adequando-a aos novos tempos e à alteração de hábitos dos consumidores. 

No fundo trata-se de espelhar a evolução para formatos on line, nomeadamente, os que são consumidos em dispositivos móveis. A News Media Alliance publica estudos, promove conferências e debates e sobretudo tem um papel activo no acompanhamento da evolução tecnológica, ajudando os seus mais de 2000 membros a permanecerem a par das tendências e inovações. 


Já não faz sentido vender só uma página de jornal ou revista quando a empresa tem um site, uma aplicação e eventualmente um canal audio ou video. Todos os suportes contribuem para aumentar o alcance e cobertura de um determinado título e faz cada vez mais sentido vender a sua capacidade de comunicação em bloco, com uma proposta que seja atraente para os anunciantes. 

“A indústria de notícias e de mídia tem razões para estar optimista, todos os indicadores apontam para o facto de haver cada vez mais pessoas a querer notícias e informação” – afirmou o presidente da News Media Alliance, David Chavern, salientando : ”Devemos estar focados nas novas formas de contactar e alcançar as necessidades das audiências e dos anunciantes e sublinhar que a publicidade em sites de notícias  e nas publicações em papel continua a ser uma das formas mais eficazes para as marcas alcançarem os seus alvos e é importante que os anúncios sejam cada vez mais adaptados transversalmente a todas as plataformas, tornando-os menos intrusivos e conseguindo aumentar o envolvimento com os consumidores”.
 

Como sublinha a News Media Alliance todas as indústrias defrontam-se periodicamente com alterações tecnológicas e disrupções nos seus mercados e o desafio é que as organizações que produzem conteúdos noticiosos de qualidade possam sair mais fortes destes novos tempos. 

Para o conseguir é cada vez mais importante conhecer bem as audiências, fazer estudos que permitam perceber o que as pessoas querem ler, quais os vazios de informação que existem á espera de serem preenchidos e, claro, aproveitar todos os recursos para tornar a proposta informativa de cada organização mais conhecida e atraente, captando novos utilizadores.  

Costuma dizer-se que “em casa de ferreiro, espeto de pau” – e muitos grupos de comunicação vivem nesse paradoxo, não encarando as suas marcas como produtos que o público precisa de conhecer e que devem corresponder aos seus anseios.

Longe vai o tempo em que bastava que os ardinas gritassem as manchetes. Agora cada meio tem que conquistar leitores mostrando o factor de diferença que pode oferecer. Quando toda a gente puxa a mesma notícia para manchete perde-se posicionamento. E isso é o pior que pode acontecer, seja no papel ou no digital. 


Connosco
Crescimento das assinaturas digitais não compensa as perdas na circulação impressa Ver galeria

A pandemia veio agravar a crise dos “media”, já que modificou os hábitos de consumo dos cidadãos e demonstrou a necessidade de alterar o modelo de negócio tradicional, assente, sobretudo, em receitas publicitárias.

Perante este novo contexto, o Obercom analisou as diferenças registadas, entre 2019 e 2020, na imprensa portuguesa, de forma a traçar um possível futuro para o sector, tendo em conta a aceleração das marcas digitais.

Para tal, foram analisadas doze publicações -- “Correio da Manhã”, “Jornal de Notícias”, “Diário de Notícias”, “Público”, “Expresso”, “Visão”, “Sábado”, “Jornal de Negócios”, “Jornal Económico”, “Record”, “O Jogo” e “Courrier Internacional”.

Em primeira instância, constatou-se que, tanto o volume de circulação paga, como o volume de tiragens, tem sofrido quedas sustentadas ao longo dos últimos anos. O volume de tiragens também diminuiu, acompanhando o ritmo de quebra das vendas em banca.

Em relação ao índice de Eficiência das publicações -- que resulta do rácio entre tiragens e circulação impressa paga -- verifica-se que os semanários “Expresso” e “Visão” são aqueles que apresentam os valores mais altos. Em posição contrária estão o “Jornal Económico” e o “Jornal de Negócios”.

No que respeita ao digital, o crescimento das assinaturas não tem sido suficiente para colmatar as perdas no papel.

Movimento de jornalistas franceses contra nova Lei de Segurança Ver galeria

Nos últimos meses, a liberdade de imprensa em França tornou-se um tema de debate, devido à aprovação da Lei de Segurança Global, recordou o jornalista Rui Martins num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Entre outros pontos, a Lei de Segurança Global estabelece restrições à divulgação de imagens dos membros das forças policiais e militares, o que, para os franceses, constitui um acto de censura.

Segundo indicou Martins, este “controlo de imagem”, previsto no artigo 24, é subtil e mal intencionado, já que visa proteger as autoridades, em caso de utilização excessiva da força.

Até porque, de acordo com o documento, será punido o fotógrafo, o operador de imagem ou o cidadão que captar e difundir imagens das forças da autoridade. A pena pode ir até aos 45 mil euros e um ano de prisão.

Além disso, não havendo prova visual, os autores de tais denúncias poderiam ser processados.

Perante este quadro, um grupo de editores executivos franceses reafirmou, em comunicado, o seu compromisso com a lei da liberdade de imprensa de 1881 e garantem que estarão vigilantes para assegurar o seu cumprimento.

A defesa do anonimato dos polícias franceses foi, ainda, questionada pelas próprias televisões francesas, que mostraram imagens de agentes ingleses e alemães, com suas identificações bem visíveis nos próprios uniformes.

O Clube


Faz cinco anos que começámos este
site, desenhado por Nuno Palma, webdesigner e docente universitário, que desde então colabora connosco.

O projecto foi lançado com uma modéstia de recursos que não mudou entretanto, porque escasseiam os mecenas e os poucos que se nos juntaram também se defrontaram com orçamentos penalizados, seja pela conjuntura económica, seja, mais recentemente, pela crise sanitária. 

Neste contexto, a sobrevivência é um desafio diário, e um lustre de existência deste site é uma profissão de fé e uma teimosia.

O site constitui a respiração do CPI, fora de portas, e a nível global. Os primeiros passos foram dados sem qualquer publicidade. Aparecemos online e por aqui ficámos, procurando habilitar diariamente quem nos visita com a melhor informação sobre as actividades do Clube e o pulsar dos media e do jornalismo, sem restrições de credo, nem obediências de capela. Com rigor e independência.

Fomos recompensados. Só no último ano, de acordo com medições de audiência da Google Analytics, crescemos mais de 50% em sessões efectuadas e mais de 60% em utilizadores regulares. É algo de que nos orgulhamos.



ver mais >
Opinião
Agenda
04
Dez
O coronavírus e o Caos estatístico
10:00 @ Conferência "online" da Universidade de Bournemouth
09
Dez
11
Dez
19
Dez
Estratégias de Facebook
10:00 @ Cenjor