Sexta-feira, 27 de Novembro, 2020
Opinião

Jornalistas: nem heróis nem vilões

por Francisco Sarsfield Cabral

No  jornal “Público” de sábado,  J. Pacheco Pereira elogiou Vicente Jorge Silva porque “fez uma coisa rara entre nós – fez obra. Não tanto como jornalista, mas como criador no terreno da comunicação social”. E destacou o papel do jornal madeirense “Comércio do Funchal”, que, apesar da censura, conseguiu criticar o regime então vigente.

Até ao 25 de Abril este jornal logrou, graças a V.J.S., resistir “aos ventos e marés da rigidez ideológica” da oposição, lembrou Pacheco Pereira. Ou seja, Vicente manteve o jornal que dirigia “fora do processo sectário da extrema-esquerda, com muita dificuldade”.

É importante lembrar estes factos, porque eles revelam como era penoso ser jornalista quando existia a censura e a oposição tinha uma cultura “neo-realista hegemónica”. Entre 1970 e 1974 eu trabalhei como jornalista profissional sujeito a censura – creio que seria hoje incapaz de o fazer. 


No mesmo jornal, mas no domingo, Ferreira Fernandes evocou um caso polémico que acontece nos EUA. O jornalista, Bob Woodward, um dos que em 1974 denunciaram Nixon e o levaram a renunciar à Casa Branca, publicou mais um livro sobre Trump. Nesse livro, que se baseia em 18 entrevistas realizadas por B. Woodward a Trump, revela-se que o presidente americano já em fevereiro sabia que o coronavírus era muito perigoso. Só que, em público, Trump desvalorizou a pandemia durante meses, designando-a como uma gripezinha, “para não causar pânico”.


Trump foi irresponsável, mas o jornalista Bob Woodward também, pois deveria ter divulgado mais cedo esta mentira pública do presidente, em vez de esperar pela edição do seu novo livro, intitulado “Raiva”. É certo que Trump é um mentiroso compulsivo; mas, neste caso, desmascará-lo quanto antes teria poupado muitas mortes.


Ferreira Fernandes afirma, a propósito, que “dessacralizar a nossa profissão não nos faria mal nenhum, sobretudo agora que ninguém nos vê como heróis”. De acordo. Mas, sem pretender “branquear” Bob Woodward, também todos temos consciência de que, hoje, o jornalista sofre a concorrência desleal das redes sociais. Aí, cada um escreve o que lhe apetece, muitas vezes sabendo que engana o leitor. E, pior, não faltam leitores da “net” que gostam de ser enganados. Por isso o jornalismo, agora sem censura, está em crise. 


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Onde se preconiza o jornalismo social e notícias felizes Ver galeria

O Presidente da Associação de Imprensa de Madrid -- com a qual o CPI mantém um acordo de parceria -- considera essencial que os “media” continuem a promover a dimensão social do jornalismo.

No discurso inaugural do Congresso da Comunicação Especializada na Sociedade da Informação, Juan Caño recordou que, com a crise pandémica, esta função "tem sido exercida de forma exemplar por vários meios de comunicação social", que, durante meses, não se esqueceram de "encorajar a população a superar a calamidade”.

Porém, ultimamente, começou a registar-se um “cansaço dos media', perante demasiada informação", recordou Caño. 

Este fenómeno tem vindo a ocorrer "à medida que a informação se foi tornando repetitiva e deixou de oferecer soluções viáveis", acrescentou.

Esta afirmação é sustentada pelo Relatório Anual da Profissão Jornalística 2020 da APM -- a ser publicado a 16 de Dezembro -- que revela que 43% dos espanhóis considerou excessiva a cobertura da pandemia.


Jornalismo deve acolher estratégias financeiras sustentáveis Ver galeria

O jornalismo deve ser encarado como um produto, para que os “media” possam prosperar de forma sustentável, defendeu o jornalista Rich Gordon num artigo publicado no “site” do Knight Center.

De acordo com o autor, os profissionais dos “media” rejeitam, por norma, esta ideia, já que para a maioria defende o jornalismo como sendo, única e exclusivamente, um serviço público.

E, embora Gordon acredite que esta deve ser a principal premissa dos jornalistas, considera, igualmente, essencial que a imprensa siga as tendências de mercado.

Como tal, reuniu, numa lista, seis razões pelos quais os “media” devem encarar os seus conteúdos como um produto.

Em primeiro lugar, Gordon recorda que os “websites”, os jornais, as “newsletters” são “mercadorias” -- os cidadãos decidem se querem ou não consumi-las, perante uma imensidão de escolhas. Além disso, a popularidade destes produtos depende do seu nível de inovação e de qualidade.

Este tipo de mentalidade existe há dois séculos -- os jornais do século XIX seguiam as exigências do mercado, a lei da oferta e da procura. A estratégia consistia em distribuir o máximo de jornais, a um preço reduzido, esperando conseguir o apoio de anunciantes.

O Clube


Faz cinco anos que começámos este
site, desenhado por Nuno Palma, webdesigner e docente universitário, que desde então colabora connosco.

O projecto foi lançado com uma modéstia de recursos que não mudou entretanto, porque escasseiam os mecenas e os poucos que se nos juntaram também se defrontaram com orçamentos penalizados, seja pela conjuntura económica, seja, mais recentemente, pela crise sanitária. 

Neste contexto, a sobrevivência é um desafio diário, e um lustre de existência deste site é uma profissão de fé e uma teimosia.

O site constitui a respiração do CPI, fora de portas, e a nível global. Os primeiros passos foram dados sem qualquer publicidade. Aparecemos online e por aqui ficámos, procurando habilitar diariamente quem nos visita com a melhor informação sobre as actividades do Clube e o pulsar dos media e do jornalismo, sem restrições de credo, nem obediências de capela. Com rigor e independência.

Fomos recompensados. Só no último ano, de acordo com medições de audiência da Google Analytics, crescemos mais de 50% em sessões efectuadas e mais de 60% em utilizadores regulares. É algo de que nos orgulhamos.



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