Sexta-feira, 25 de Setembro, 2020
Opinião

Jornalistas: nem heróis nem vilões

por Francisco Sarsfield Cabral

No  jornal “Público” de sábado,  J. Pacheco Pereira elogiou Vicente Jorge Silva porque “fez uma coisa rara entre nós – fez obra. Não tanto como jornalista, mas como criador no terreno da comunicação social”. E destacou o papel do jornal madeirense “Comércio do Funchal”, que, apesar da censura, conseguiu criticar o regime então vigente.

Até ao 25 de Abril este jornal logrou, graças a V.J.S., resistir “aos ventos e marés da rigidez ideológica” da oposição, lembrou Pacheco Pereira. Ou seja, Vicente manteve o jornal que dirigia “fora do processo sectário da extrema-esquerda, com muita dificuldade”.

É importante lembrar estes factos, porque eles revelam como era penoso ser jornalista quando existia a censura e a oposição tinha uma cultura “neo-realista hegemónica”. Entre 1970 e 1974 eu trabalhei como jornalista profissional sujeito a censura – creio que seria hoje incapaz de o fazer. 


No mesmo jornal, mas no domingo, Ferreira Fernandes evocou um caso polémico que acontece nos EUA. O jornalista, Bob Woodward, um dos que em 1974 denunciaram Nixon e o levaram a renunciar à Casa Branca, publicou mais um livro sobre Trump. Nesse livro, que se baseia em 18 entrevistas realizadas por B. Woodward a Trump, revela-se que o presidente americano já em fevereiro sabia que o coronavírus era muito perigoso. Só que, em público, Trump desvalorizou a pandemia durante meses, designando-a como uma gripezinha, “para não causar pânico”.


Trump foi irresponsável, mas o jornalista Bob Woodward também, pois deveria ter divulgado mais cedo esta mentira pública do presidente, em vez de esperar pela edição do seu novo livro, intitulado “Raiva”. É certo que Trump é um mentiroso compulsivo; mas, neste caso, desmascará-lo quanto antes teria poupado muitas mortes.


Ferreira Fernandes afirma, a propósito, que “dessacralizar a nossa profissão não nos faria mal nenhum, sobretudo agora que ninguém nos vê como heróis”. De acordo. Mas, sem pretender “branquear” Bob Woodward, também todos temos consciência de que, hoje, o jornalista sofre a concorrência desleal das redes sociais. Aí, cada um escreve o que lhe apetece, muitas vezes sabendo que engana o leitor. E, pior, não faltam leitores da “net” que gostam de ser enganados. Por isso o jornalismo, agora sem censura, está em crise. 


Connosco
Campanha de emergência para os "media" desencadeada em Espanha Ver galeria

A Federação de Associações de Jornalistas de Espanha (FAPE) -- integrada pela APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria --  juntou-se à Federação Internacional de Jornalistas (IFJ), e à UNI Global Union para lançar uma campanha de emergência para os “media”. 

Face à grave crise económica, espoletada pela pandemia, os sindicatos exigem que os governos nacionais intervenham nos “media”, garantindo a qualidade, a ética, a solidariedade, os direitos laborais e as liberdades fundamentais.

Além disso, as associações querem pressionar os governos a introduzir um imposto sobre os serviços digitais , que têm monopolizado as receitas da publicidade nos meios de comunicação.

"A actual crise global de saúde está a agravar as dificuldades enfrentadas pelo sector da imprensa escrita", advertiu Anthony Bellanger, secretário-geral do IFJ. "Os governos devem reagir com urgência. Os ‘media’ são um bem público e um pilar fundamental das nossas democracias”.


A televisão tem passado e futuro democrático Ver galeria

A evolução da tecnologia veio, ao longo dos tempos, servir os “media”, oferecendo-lhes novos mecanismos para transmitir a informação e de alargar as audiências

A televisão, que celebra agora 70 anos no Brasil, é considerada uma das mais importantes “máquinas” dessa mesma evolução, já que se impôs no “modus vivendi” da Humanidade, moldando os seus hábitos e gostos.

Mas, mais do que isso -- recordou Alexander Goulart num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria -- a televisão, que nasceu como simples aparato tecnológico para transmissão de imagens, foi recebendo outros atributos, especialmente de cunho social, político, económico e cultural.

No Brasil, a TV nasceu sob a marca do entretenimento. Em poucos anos, ganhou fama e difundiu-se largamente. “Como uma espécie de hipnose massificante, na visão de muitos críticos, tomou conta das classes e o Brasil real passou a ser representado na tela. Nos anos 60, 70 e 80, a TV  tornou-se o principal “media” brasileiro, agente da unificação e geradora de uma identidade nacional”, recordou o autor.

“O sistema ‘broadcasting’ -- acrescentou, ainda, Goulart --  formando as redes, sobrepôs o nacional ao regional e o Brasil real passou a ser aquele que é reproduzido a partir de um determinado ponto de vista, que informava e entretinha a maioria da população”.


O Clube


Terminada a pausa de Agosto, este site do CPI  retoma a sua actividade e as  actualizações diárias, num contacto regular que faz parte da rotina de consulta dos nossos associados e parceiros, e que  tem vindo a atrair um confortável e crescente número de visitantes em Portugal e um pouco por todo o mundo, com relevo para os países lusófonos.

Sem prejuízo de  algumas alterações de estrutura funcional , o site continuará  acompanhar, a par e passo,  as iniciativas do Clube, bem como o  que de mais relevante  ocorrer no País e fora dele em matéria de jornalismo,  jornalistas e de liberdade de expressão.

Os media enfrentam uma situação complexa e, para muitos,  não se adivinha um desfecho airoso. 

O futuro dos media independentes está tingido de sombras.  E o das associações independentes de jornalistas – como é o caso do Clube Português de Imprensa – não se antevê, também, isento de dificuldades, que saberemos vencer, como vencemos outras ao longo de quase quatro décadas de história, que se completam este ano.

Desde a sua fundação, em 1980, o CPI viveu exclusivamente  com o apoio dos sócios, e de alguns mecenas que quiseram acompanhar os esforços do Clube,  identificado com uma sólida  profissão de fé em defesa do jornalismo e dos jornalistas.



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Agenda
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague
26
Out
Conferência Africana de Jornalismo de Investigação
09:00 @ África do Sul - Joanesburgo