Sexta-feira, 7 de Agosto, 2020
Opinião

Uma crise sem precedentes

por Dinis de Abreu

No meio de transferências milionárias, ao jeito do futebol de alta competição, em que se envolveram dois operadores privados de televisão, a paisagem mediática portuguesa, em vésperas da primeira  “silly season” da “nova normalidade”, está longe de respirar saúde e desafogo.

Se a Imprensa regional e local vive em permanente ansiedade, devido ao sufoco financeiro que espartilha a maioria dos seus anunciantes habituais -  com predomínio de pequenas e médias empresas -, os jornais de circulação nacional não vivem dias melhores.

Salvam-se, por enquanto, aqueles que estão integrados em grupos empresariais, que conseguem ainda absorver os prejuízos e nem todos.

Os “media” afectos ao Estado – RTP, RDP e Lusa – são, por natureza,  os menos vulneráveis à crise, e, por isso  mesmo,  fazem suspirar alguns que, por via ideológica ou genuína necessidade,  já encaram o auxilio  público como derradeira opção ou “tábua de salvação”.

Nota-se uma abulia e o alastrar de um conformismo em muitos meios, quer na Imprensa, quer no audiovisual, surgindo, não raramente,  alinhados com a agenda politica governamental, de uma forma acrítica. 


A precarização nas redacções tem progredido, à medida em que as universidades colocam no mercado mais jovens licenciados,  candidatos a jornalistas,  sem espaço para exercerem. 

A escassez de procura contrasta com o excesso da oferta, diminuindo as oportunidades de emprego e agravando as incertezas. 

A circulação da Imprensa ressentiu-se mais ainda durante as restrições impostas pelo estado de emergência, penalizando  as vendas em banca, com o consequente enfraquecimento dos  hábitos de  leitura de jornais e revistas.

As rádios, face à  paragem forçada da maior parte das actividades  no País, também sofreram consideráveis perdas de audiência. Em casa, com os automóveis à porta, os portugueses preferem as televisões e a internet. 

E, mesmo assim, os operadores de televisão também se queixaram da deserção da publicidade, captada, em muitos casos, pelas plataformas globais.

O panorama actual é sombrio e exige criatividade e bom senso,  o que parece faltar quando se ouve falar em milhões investidos na contratação de “vedetas” efémeras. 

Esta crise sanitária, cujo desfecho ainda não se divisa, está a  deixar um rasto doloroso. O vírus afundou, também,  a economia. E embora os políticos acenem com a “bazuca” do dinheiro europeu, há danos irreparáveis. E os “media” não estarão entre os mais poupados por esta crise em precedentes.



Connosco
A missão dos jornalistas é "controlar" o Estado para evitar a tirania em tempo de crise Ver galeria

As catástrofes sociais, paradoxalmente, podem ser benéficas para os jornalistas e para as empresas mediáticas, já que reforçam a importância de um serviço noticioso de qualidade para a segurança dos cidadãos, bem como  para o escrutínio do poder, defendeu José António Zarzalejos num artigo publicado nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, perante uma situação catastrófica, os jornalistas anulam os discursos “anti media”, que visam descredibilizar o papel da imprensa, rotulando-a como difusora de “fake news”.

Ora, se a missão dos “media” fosse, de facto, enganar a sociedade, os jornalistas não teriam contribuído para a segurança dos cidadãos durante a pandemia, mas, sim, para o reforço de “teorias da conspiração” e outras formas de desinformação.

Sem os jornalistas, como agentes determinantes no espaço público -- defendeu o autor -- a pandemia teria sido completamente desregulada e ter-se-ia tornado uma praga incontrolável. 


Turquia controla nas redes sociais e condiciona liberdade Ver galeria

O parlamento turco aprovou um projecto de lei que reforça o controlo das autoridades nas redes sociais, um diploma controverso, que suscitou preocupações entre os defensores da liberdade de expressão.

A lei exige que as principais redes sociais, incluindo Twitter e Facebook, tenham um representante na Turquia e que cumpram as ordens dos tribunais turcos, no que toca à remoção de  conteúdos, sob pena de multas pesadas.

Segundo o Presidente, Recep Tayyip Erdogan, as medidas são necessárias para combater o cibercrime e proteger os utilizadores de “injúrias”, salvaguardando, também, o “direito à privacidade”.

A lei deu os primeiros passos em Abril, mas acabou por ser retirada da agenda política. No início de Julho, o Presidente da Turquia insistiu na necessidade de “pôr ordem” nas redes sociais, depois de a filha e o genro terem sido alvo de insultos no Twitter.

O gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos defendeu, entretanto, que a nova legislação “vai minar o direito das pessoas a comunicar anonimamente”.


O Clube


À medida que prossegue o desconfinamento, apesar da  persistência de sinais que não nos libertam do sobressalto, a vida tem retomado a normalidade possível – ou a nova normalidade. 

Este site tem-se mantido activo, com actualizações diárias mesmo durante o período da emergência e da calamidade, recorrendo ao teletrabalho dos colaboradores do Clube. 

A recompensa, como já mencionámos, foi um expressivo crescimento de contactos, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares,  com mais 50,5% de sessões , comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Com este conforto,  e a diminuição habitual da actividade em Agosto, é a altura do CPI e deste site fazerem uma pausa de férias, com reencontro marcado, para o próximo dia 31, com os seus associados, parceiros, mecenas e  outros frequentadores regulares.

Cá estaremos para continuar a dar conta das iniciativas do Clube e de tudo o que de mais relevante se passar, em Portugal e no mundo, relacionado connosco,  em matéria de “media”, jornalismo e jornalistas. 

Atravessamos um período particularmente complexo  e cheio de incertezas. Mais uma razão para falarmos de nós e dos problemas que se colocam às redacções, cada vez mais condicionadas pelas vulnerabilidades das empresas editoras e pelos seus compromissos de  sobrevivência que, não raramente, agravam a sua dependência. 

Com uma crise sanitária e económica de contornos invulgares, que este Agosto sirva de reflexão nas férias possíveis. E até ao nosso regresso.



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Agenda
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague
26
Out
Conferência Africana de Jornalismo de Investigação
09:00 @ África do Sul - Joanesburgo
10
Nov
Digital Media Europe 2020
10:00 @ Áustria - Viena