Quinta-feira, 29 de Outubro, 2020
Media

Onde se defende a independência do operador público espanhol

A pandemia de covid-19 fez com que os cidadãos voltassem a interessar-se pelo consumo de informação, como forma de se manterem actualizados e seguros.

O jornalismo assumiu-se, assim, como um dos principais responsáveis pela saúde pública, desmentindo notícias falsas, e aconselhando os consumidores segundo as directivas das autoridades.

Todos os “media” registaram um crescimento exponencial na sua audiência, mas foram os operadores públicos que conquistaram a confiança generalizada da população, recordou Rafael Díaz Arias num texto publicado nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM -- associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Iniciou-se, assim, uma aceleração do digitalização dos operadores públicos, um processo que é, só por si, complexo e moroso. Contudo, em Espanha, a transição multiplataforma confronta-se, ainda, com assuntos pendentes: garantir a  independência dos operadores públicos, bem como a sua administração democrática, o que depende do consenso social e político.

Para clarificar esta problemática, o autor distinguiu o serviço prestado pelos jornalistas de empresas privados e pelos de empresas públicas.

Só por si, o jornalismo deve ser considerado um serviço público, já que tem a função de informar a população, de forma desinteressada. Este serviço pode ser prestado por empresas privadas ou por empresas reguladas pelo Estado (empresas públicas). 


Enquanto as empresas privadas podem fechar, por falta de receitas, o funcionamento das empresas públicas deverá ser garantido pelo Estado, zelando, sempre, pelo direitos fundamentais da democracia. Existe serviço público em muitos países, mas os europeus destacam-se pela sua qualidade, pluralidade e isenção.


Tendo em conta a sua missão, estes operadores têm tentado acompanhar a evolução dos tempos, desenvolvendo processos de transição digital. 


A transição não tem sido fácil e não está concluída em nenhum país,. Em primeiro lugar, tem sido “uma navegação num mar tempestuoso”;  sem um plano claro.


Do ponto de vista regulamentar, os novos serviços têm de ultrapassar um teste de valor acrescentado público, ou seja, mostrar que satisfazem, realmente, novas necessidades sociais, não cobertas pelo mercado.


Neste âmbito, é essencial reconquistar o público mais jovem: atender às suas necessidades, preocupações, gostos e adaptar-se aos seus hábitos de consumo, utilizando as suas redes e plataformas, mas inovando na linguagem e elevando a qualidade dos conteúdos. 

Porém, o processo em Espanha tem sido diferente, porque a independência democrática do serviço público é, ainda, uma questão pendente. 


O operador público é instrumentalizado pelos partidos e não existe uma entidade reguladora independente e especializada.


De acordo com o autor, todos os governos põem a RTVE ao serviço das suas estratégias, fazendo do serviço audiovisual público uma arma na luta partidária. 


Entre reformas e contrarreformas das leis audiovisuais, foi-se acentuando a dependência institucional da RTVE, o que agudizou a polarização política e os cortes económicos, a degradação da credibilidade da informação, as audiências e a capacidade produtiva.


Por falta de consenso parlamentar quanto à presidência da televisão pública espanhola,  o Governo acabou por nomear Rosa María Mateo como administradora única provisória, uma posição que concentra os poderes do presidente com os do Conselho de Administração.


Está, agora, um concurso público a decorrer, a fim de encontrar um novo administrador.


Perante este quadro, o autor considera essencial que se proceda a uma regeneração do serviço audiovisual público espanhol.


Tomando por base a opinião de especialistas em “media”, Arias reitera que seria importante reconstruir a  RTVE, enquanto serviço independente e multiplataforma.


A médio prazo, é essencial repensar a direcção. O Conselho de Administração deve ser a manifestação do pluralismo social e dos grupos de interesse ,que convergem no serviço público, Da mesma forma, os poderes executivos devem ser transferidos para um director-geral, escolhido pelo Conselho de Administração com base no mérito e responsável perante este.


O autor defende, ainda, a criação de uma autoridade reguladora independente e especializada, que garanta a transparência e pluralidade dos serviços audiovisuais.


Além disso, a cultura política tem de sofrer reformas. Caso contrário, o serviço público de rádio e televisão continuará a proceder segundo os interesses governamentais.



Leia o artigo original em Cuadernos de Periodistas”

 

 
Connosco
A cobertura noticiosa nas eleições americanas vistas em países com censura Ver galeria

As campanhas eleitorais norte-americanas têm sido acompanhada um pouco por todo o mundo, já que os cidadãos estão interessados em conhecer as possíveis consequências destas eleições presidenciais.

Perante este quadro, o “Nieman Lab” tentou descobrir quais são as premissas que dominam os “media” mundiais, de forma a apurarem qual o discernimento dos cidadãos, perante os candidatos democrata e republicano.

Após um mês de análise, com recurso a inteligência artificial, o “Nieman Lab” concluiu que a cobertura noticiosa das eleições tem sido, particularmente, intensa no Irão, na Rússia e na China, onde os “media” criticam as acções de Donald Trump.

Os principais temas abordados, pela comunicação social destes países, são os debates presidenciais, a gestão do novo coronavírus e as  políticas de imigração.

Depois do primeiro debate presidencial, a imprensa chinesa questionou a utilidade deste evento para o eleitorado, e criticou a conduta do actual Presidente.

Jornal britânico quer provar que imprensa não tem os dias contados... Ver galeria

Dez anos após o lançamento do jornal britânico “i”, o editor-executivo Oliver Duff diz ter provas suficientes para afirmar que o “formato impresso” vai “prosperar durante muito mais tempo do que a maioria dos especialistas defende”.

Em declarações à “Press Gazette”, Duff afirmou que os jornais impressos têm-se mostrado “resilientes” e inovadores”. 

Além disso, aquele responsável considera que os leitores valorizam este formato por ser “táctil”, ter “curadoria”, e conter muitos “elementos surpresa”, que contribuem para a formação de uma comunidade de cidadãos com valores semelhantes.

Segundo recordou Duff, nos primeiros meses de circulação, o “i” não foi bem recebido pela maioria dos críticos dos “media”, mas conquistou uma base de leitores fiéis, que foram dando “feedback” sobre aquilo que pretendiam consumir.

O “i” tornou-se assim um jornal reconhecido pela sua objectividade factual e isenção política. 

De forma a conquistarem o interesse dos leitores, os colaboradores fazem análises profundas de situações disruptivas e tentam criticar, apenas, “aquilo que tem de ser criticado”.


O Clube


Terminada a pausa de Agosto, este site do CPI  retoma a sua actividade e as  actualizações diárias, num contacto regular que faz parte da rotina de consulta dos nossos associados e parceiros, e que  tem vindo a atrair um confortável e crescente número de visitantes em Portugal e um pouco por todo o mundo, com relevo para os países lusófonos.

Sem prejuízo de  algumas alterações de estrutura funcional , o site continuará  acompanhar, a par e passo,  as iniciativas do Clube, bem como o  que de mais relevante  ocorrer no País e fora dele em matéria de jornalismo,  jornalistas e de liberdade de expressão.

Os media enfrentam uma situação complexa e, para muitos,  não se adivinha um desfecho airoso. 

O futuro dos media independentes está tingido de sombras.  E o das associações independentes de jornalistas – como é o caso do Clube Português de Imprensa – não se antevê, também, isento de dificuldades, que saberemos vencer, como vencemos outras ao longo de quase quatro décadas de história, que se completam este ano.

Desde a sua fundação, em 1980, o CPI viveu exclusivamente  com o apoio dos sócios, e de alguns mecenas que quiseram acompanhar os esforços do Clube,  identificado com uma sólida  profissão de fé em defesa do jornalismo e dos jornalistas.



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Agenda
10
Nov
Digital Media Europe 2020
10:00 @ Áustria - Viena
11
Nov
O valor e o futuro dos "media" públicos
13:00 @ Sessões "online" Reuters Institute
24
Nov
Congresso de Jornalismo para Dispositivos Móveis
10:00 @ Universidade da Beira Interior