Sábado, 4 de Julho, 2020
Opinião

A internet e a liberdade de expressão

por Francisco Sarsfield Cabral

As notícias falsas, os insultos, os apelos ao ódio, etc. abundam na internet. Mas criar uma qualquer censura é muito perigoso e iliberal. A intolerância com os intolerantes costuma acabar mal, diz-nos a história.

O presidente Trump, que tinha lamentado a morte pela polícia de Minneapolis de um negro que estava a ser aprisionado, reagiu às violentas manifestações naquela cidade, chamando “bandidos” aos manifestantes e ameaçando-os com tiros da Guarda Nacional (que foi depois para ali enviada). O Twitter colocou uma nota junta a essa declaração na sua plataforma, acusando Trump de violar as regras do Twitter ao glorificar a violência. Poucos dias antes o mesmo Twitter chamava a atenção para a possível falsidade de uma outra afirmação num tweet de Trump. 

O presidente americano quer, agora, impor às plataformas da internet que censurem o que publicam. Há uma certa ironia nesta ameaça, pois se as plataformas da net fizessem o que o presidente quer um alvo habitual da censura seriam muitos dos seus diários tweets. 

Numerosos regimes autoritários ou ditatoriais censuram o que se diz na internet. O caso extremo é a China, porque domina a tecnologia electrónica e não admite vozes discordantes no espaço público. Mas até a Índia já suprimiu mais de 50 vezes afirmações na internet sobre Caxemira. 


É um facto que, em vez de reforçarem a liberdade de expressão, a maioria das redes sociais difunde, sem qualquer responsabilidade legal, as mais mirabolantes fantasias e os mais agressivos insultos, além de apelos ao ódio. A questão agrava-se porque muitos dos seus seguidores apenas acreditam na rede social de que gostam – na prática, não há assim contraditório. Paralelamente, decorre uma violenta campanha contra os jornalistas, visando descrebilizá-los; não é por acaso que Trump e Bolsonaro os detestam e os insultam com frequência. 

Esta questão é extremamente complexa. A censura é um perigo para a liberdade de expressão. Restringir esta promove o iliberalismo. O despotismo iluminado impedia certas críticas para defender as boas causas. Mas todos os ditadores o fizeram e fazem para calar a voz dos opositores. A intolerância para com os intolerantes costuma acabar mal. 

Aliás, sobre este assunto há divergência de opiniões entre o Twitter e o Facebook. O Twitter admite intervir, alertando para o que considera poder ser falso. O Facebook, pelo contrário, não exerce qualquer censura sobre os conteúdos que difunde. 

Como poderá o público defender-se das “fake news” (notícias falsas) de que estão cheias as redes sociais? Uma boa ideia é analisar as possíveis falsidades e depois denunciá-las publicamente. 

É o que faz o Polígrafo, um projeto jornalístico que tem como principal objetivo apurar a verdade e a mentira no espaço público – e que o Jornal da Noite da SIC transmite semanalmente. Só que o Polígrafo apenas pode investigar um número limitado de eventuais falsidades na internet. Haverá centenas, diariamente, que escapam a essa investigação. 

Seria preciso encontrar uma entidade, possivelmente financiada pelo Estado e por particulares, que fosse credível, independente e capaz de investigar permanentemente um grande número de possíveis “fake news”, insultos e apelos ao ódio na internet. O que reconheço ser extremamente difícil de criar. Ou seja, também eu não tenho no bolso uma boa resposta para este preocupante problema. 

(Texto publicado originalmente no site da Rádio Renascença) 


Connosco
Lei de transparência aprovada no Brasil encontra resistências Ver galeria

Os “fact-checkers” brasileiros uniram-se contra a aprovação da “Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet”.

Segundo aqueles profissionais, esta lei aumenta o poder do Senado perante os “media”, porque lhes permite distinguir, oficialmente, o que é informação do que é “fake news”

O texto estabelece, ainda, que as autoridades podem rastrear mensagens replicadas nas redes sociais.

Em entrevista ao instituto Poynter, Natália Leal, coordenadora da empresa de “fact-checking” Agência Lupa, constatou, ainda, que o documento permite ao Governo definir o que é a verificação de factos, e levantar condicionantes às suas actividades. Até porque, alguma figuras políticas, que apoiaram a aprovação da lei, consideram que o “fact-checking” não é mais do que um posicionamento ideológico.


A distribuidora Presstalis reaparece como France Messagerie Ver galeria

A Presstalis -- principal distribuidora de imprensa em França -- foi salva, depois de o Tribunal de Comércio de Paris ratificar a oferta de aquisição, apresentada pela Cooperativa de jornais diários franceses. 

A empresa, que foi rebaptizada de "France Messagerie", passará a empregar cerca de 300 pessoas, o que representa uma redução da força laboral para um terço.

"A prioridade da France Messagerie é, agora, construir relações de confiança, transparentes e duradouras com todos os actores do sector", sublinhou, num comunicado à imprensa Louis Dreyfus, Presidente da Cooperativa dos jornais diários, France Messagerie e do Conselho de Administração do Grupo Le Monde.

O “rebranding” da distribuidora é, contudo, apenas um primeiro passo, já que a empresa deverá fundir as operações com a Messageries Lyonnaises de Presse (MLP), no prazo de três anos.


O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


ver mais >
Opinião
Agenda
27
Jul
Jornalismo ético como garantia de democracia
09:30 @ Universidade de Madrid
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague